Chapéus são como filhos: a gente tem que educar desde que nascem. Este fim de semana levei Meu Chapéu novo conhecer um dos meus lugares preferidos: Ibiúna. A menos de 1 hora de São Paulo, Ibiúna é banhada por uma grande represa que serpenteia por kilômetros até Sorocaba. O condomínio onde estou instalado fica em um ponto com uma vista privilegiada da represa. Meu novo Panamá contemplou tudo em silêncio, curtindo o por de sol refletido nas águas tranquilas de Itupararanga.
Mas não é só o olhar que faz a festa em Ibiúna. Levei Meu Chapéu passear no meu pomar, e mesmo no seu silêncio, percebi a indisfarçável emoção que sentiu diante da visão dos pés carregados de frutas. Amoras madurinhas que se salvaram das bicadas da passarinhada esperavam para serem colhidas e saboreadas. Percebi o quanto observar a natureza acalma os chapéus.
Em junho de 2004, quando ainda não existia o Meu Chapéu, Maria e Eu fomos conhecer Holambra, com intenções de comprar mudas para iniciar um pequeno pomar em Ibiúna. Entre as frutíferas, uma mangueira, um pé de lichia, uma amoreira, macieiras, e várias citricas. Sete anos depois, a mangueira que todos diziam que não resistiria ao clima frio de Ibiúna, cresceu bela e frondosa. As macieiras foram para o beleléu, o pé de Lichia cresceu mas ainda não deu frutos, as cítricas estão produzindo razoávelmente.
Mas a surpresa mesmo ficou por conta da amoreira, que a cada primavera rende vários balaios de frutos deliciosos. Ontem mesmo enchemos uma cesta de amoras maduras para fazer geléia caseira. Olhar o nosso pé de amoreira crescer, se desenvoler e dar frutos é a melhor forma de sentir o tempo fazendo seu trabalho e nos dizendo que paciência é um exercício que no fim pode dar grande satisfação.
RECEITA DE GELÉIA DE AMORA: 250 g de amora bem madura, um copo de água, 1 colher de raspas de limão, ½ canela de pau, e 80g de açucar refinado. Preparo: Levar tudo ao fogo baixo, acrescentando as raspas de limão e a canela. Deixar cozinhar até ficar com uma textura pastosa.
Kiko Nogueira, Caco de Paula, Sergio Timerman, Lee Swain e Flavio Sky.
Fim de semana pra lá de agradável em Ibiúna, onde Eu, Maria e Meu Chapéu recebemos os Justiceiros, grupo de cinéfilos que de tanto em tanto se reúne para rever e comentar filmes injustiçados pelo Oscar. Como ninguém é de ferro, entre um filme e outro, bebe-se e come-se o melhor que se pode.
Sopinha de músculo antes de encarar a maratona de filmes
Nem a chuva conseguiu estragar o encontro dos Justicieiros, que elegeu o filme Brazil, de Terry Gilliam, para ser devidamente justiçado. Embora alguns membros tenham sido abatidos por doses letais de vinho antes do fim da projeção, os sobreviventes reconheceram o valor da película rodada em 1985, sob influência do grupo inglês Monthy Pyton. Que ainda se deu ao luxo de escalar Robert de Niro para fazer uma pontinha.
O cardápio do fim de semana esteve a cargo de Marilia Rosenberg e Maria Taccari, que trataram os Justiceiros a pão de ló.
Marilia serve sua célebre iguaria de Terrine de salmão a Sergio Timerman
Caco de Paula observa a represa antes de se aventurar na longa travessia.
A represa de Itupararanga, que nasce em Ibiúna e se estende por 28 km até as proximidades de Sorocaba, nunca mais será a mesma depois deste fim de semana.
Criada em 1911 pela Light, a represa foi desafiada pelo experiente nadador Caco de Paula, especialista na clássica travessia da Baía da Guanabara. Pela primeira vez, a pequena ilha que fica entre Ibiuna e o municipio de Piedade foi alcançada a nado. É bem verdade que ninguém tentou isto antes, mas Caco não se intimidou diante das fracas correntezas, nem com o risco iminente do ataque de lambaris e tilápias silvestres. Os 1.600 metros de distância foram vencidos depois de 40 minutos de relógio, e na chegada Caco agradeceu emocionado a San Giovese pelo feito, que estará registrado para sempre nos anais da história da centenária represa.
A tomada da Isola di San Giovese, batizada em homenagem ao padroeiro de Caco

No final do exaustivo percurso, Caco pediu: “Dá-me um Cornetto!”
Este fim de semana fiz a minha primeira rabada. No friozinho estimulante de Ibiúna, botei a mão na massa, e preparei um dos meus pratos preferidos em absoluto: rabada com agrião e polenta. Com a ajuda fundamental da nossa cozinheira Patrícia no back stage, segui pelo menos tres receitas diferentes, com direito a algumas improvisadas no caminho. Fundamentalmente, deixei a rabada de molho em uma vinhadalho bem temperada, e no domingo, depois de refogar, cozinhei a carne em um suculento molho de tomate com muito agrião, ervas finas e outras cositas por umas 3 horas. A polenta, meio molenga, fiz com o caldo da própria carne. Uma rabada de virar os olhos, harmonizada com um vinho Alentejano pra fechar a conta.
As histórias que a família Gregori tem para contar dariam um livro, fácil. Todos tem um caso, uma anedota para contar, que quase sempre termina em muita risada. Mais raramente, em lágrimas, ou então em um “puxa vida” de incredulidade. E o melhor cenário para estas sessões desopilantes de “causos“ tem endereço: é a varanda da casa do Tio Zé Gregori em Ibiúna, uma espécie de pequeno teatro de arena, onde ele é o narrador oficial, e nós, a platéia privilegiada.
Tio Zé, o nosso contador de histórias.
Os temas vão do vulgar ao histórico, sem preconceito, bastando que tenha verve. Dependendo do personagem ou do episódio, a narrativa é feita em tom de confidência, quase susssurrada, como se os Ipês de Ibiúna tivessem ouvidos.
A última destas histórias tem um político da atualidade de relêvo como personagem central. O caso se deu no Palácio dos Bandeirantes, no ano de 1984, por ocasião da visita do premiê francês François Miterrand a São Paulo. O discurso oficial do então governador Franco Montoro seria traduzido simultâneamente para o francês por uma intérprete. Em pé, o governador e a tradutora se postaram para o discurso. Silêncio sepulcral na platéia de autoridades e políticos convidados, entre os quais, o deputado Federal José Gregori.
A platéia da varanda de ibiúna. Fotos Lee Swain
Iniciou Franco Montoro: “Estamos aqui para saudar a França em nome de todo o povo brasileiro”… pequena pausa, a deixa para a entrada da intérprete, que iniciou: “ Nous sommes ici… (pausa)… nous sommes ici…. Ao terceiro “Nous sommes ici”…. iniciou-se um zum zum na platéia, todos os olhares dirigidos à tradutora que continuou a balbuciar: … sommes ici… ici… pânico geral, a tradutora travou. Olhares desesperados em torno, segundos que pareciam horas, e a mulher com olhos esbugalhados continuava como um disco riscado: “ ici… ici…” naquele instante, com grande presença de espírito, levantou-se um homem da platéia, e com andar seguro subiu ao púlpito, tomou o microfone da mão da intérprete mumificada, e deu início à tradução do discurso de Franco Montoro em um francês irrepreensível. Aplausos no final do discurso, a cerimônia estava salva.
Vista e detalhe da varanda da casa do tio Zé. O guarda corpo é um achado do arquiteto Carlos Lemos.
O herói do dia era o então Deputado Federal Aluysio Nunes Ferreira, que acabara de dar os primeiros passos em direção ao senado. Nos anos de exílio que passou na França, até a decretação da anistia em 1979, Aluysio aperfeiçoou seu francês e preparou-se para sua futura carreira política. Além de Deputado, Aluysio Nunes foi vice-governador, ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso, secretário municipal na administração do prefeito José Serra e um dos senadores mais votados nas últimas eleições. Da intérprete daquele dia nunca mais se teve notícia.
Nosso Sábado de Aleluia foi passado em Ibiúna, na casa do nosso Tio José, com o tradicional cozido feito pela Donanir, a Dona, cozinheira da família Gregoria há quase 30 anos.
Ibiúna parece que foi feita para o cozido e vice-versa, porque sua preparação exige tempo, assim como sua digestão. Depois da mesa, José Gregori faz sua merecida pausa meditativa.
Fotos: Lee Swain
O nome dela é Donanir Vieira de Camargo. Mas todo mundo em Ibiúna a conhece por Dona. Ela se recorda perfeitamente do dia em que chegou na casa de D. Maria Helena Gregori, 27 anos atrás, para auxiliar na cozinha, quando sua experiência não ia muito além de um feijão com arroz trivial. Já na primeira prova D. Maria Helena sentiu que a novata levava jeito, e não demorou muito para Dona se tornar a cozinheira da casa.
Desde então, Dona não parou mais. Foi aprendendo novas receitas, ampliou seu repertório, apurou sua técnica, e hoje não há desafio que ela não dê conta pilotando o seu fogão. Receitas de carnes, aves, peixes, massas, e inclusive doces, saem da sua cozinha à perfeição. Sua fama já ultrapassou as fronteiras da cidade, e não é raro ela receber encomendas de bolos, empadões e outras iguarias.
Neste domingo de Carnaval, Dona preparou um dos pratos preferidos da família Gregori, o famoso Cozido da Dona, para felicidade geral dos hóspedes da casa. Eu e Meu Chapéu acompanhamos de perto o passo-a-passo da preparação do Cozido, desde o início. O trabalho é duro, e começa pela escolha dos ingredientes, que Dona gosta de fazer pessoalmente. Esta receita combina carne seca, carne fresca, vários legumes e verduras, banana da terra e o famoso pirão.
Enquanto as carnes já temperadas cozinham em um caldeirão com muita água, Dona dá início à sessão de corta, pica e descasca dos vegetais. O suculento caldo das carnes é despejado em outro caldeirão, no qual são cozidos os vegetais, para pegar gosto.
Como um reloginho, Dona começa a retirar cada ingrediente da água no seu tempo certo de cozimento. Tudo transcorre sem nenhuma afobação e no maior bom humor, apesar de estar cozinhando para mais de 20 pessoas.
Quando o prato já está perto de ficar pronto, começa uma parte delicada: a hora do pirão, que tem que ficar com uma consistência exata: nem muito mole, nem muito firme. Dentro de poucos minutos, o prato está pronto, os convidados são chamados à mesa, e o Cozido começa a ser servido.
Se estava bom? Bem, tenho que confessar que até experimentar o Cozido preparado pela Dona, este prato não estava na minha lista dos 10 mais. Quando José Gregori, chamou Dona para o centro da sala, e como faz tradicionalmente, pediu uma salva de palmas para a cozinheira, aplaudi com entusiasmo, aplaudi com o estômago. Tinha acabado de sentir o prazer de mudar de opinião.
Depois do cozido, absolutamente nada a fazer. Ticha Gregori que o diga. Fotos: Lee Swain
Maria, eu e Meu Chapéu preparamos um pequeno texto para a celebração de abertura da Primavera no Mirim-açu, domingo passado.
Na verdade, contávamos com o discurso do nosso sempre inspirado tio José Gregori, que para nosso desespero, estava de malas prontas para uma viagem ao exterior. E agora, José? Pensamos em procurar um texto na internet, talvez uma poesia adequada ao momento, quando a Maria resolveu telefonar para se aconselhar com o tio Zé, que disse apenas: “Meninos, homenagear a natureza é homenagear a vida”.
Pronto. Foi o mote para inspirar o texto que se seguiu, e que a Maria leu com muita emoção para uma seleta platéia que logo a seguir arregaçou as mangas e plantou dezenas de mudas de árvores, seguindo o sábio conselho do tio Zé.

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Descobri o Mirim-açú no final dos anos 80, muito antes de conhecer o Meu Chapéu. Foi no mesmo dia em que conheci os pais da Maria, Angelo e Anna Taccari. O almoço na varanda com vista para a imensa represa, a casa rústica de montanha, a brisa que balançava as árvores espalhando um verde difuso por toda parte, tudo isto formou um quadro impressionista que nunca mais me saiu da memória.

Aos poucos fui entendendo o que fazia daquele pequeno condomínio de Ibiúna um lugar tão especial. O respeito à natureza, a escolha por deixar intocado o ar rústico que ainda hoje é a marca do Mirim-açú.

Tudo isto só foi possível porque um dos fundadores do condomínio, o arquiteto Carlos Lemos, partidário de interferir o mínimo possível no ambiente, convidou apenas amigos que partilhavam das mesmas idéias para dividir o espaço. A qualidade destas pessoas, escolhidas a dedo, é que fez o Mirim-açú chegar ao cinquentenário como um lugar diferenciado, onde menos é mais.
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Maria Taccari saúda a entrada da Primavera. Todas as fotos de Nellie Solitrenick
Muitos dos moradores que fizeram do Mirim-açú um lugar único, já não estão mais entre nós, mas continuam muito vivos em nossas lembranças.

E para manter este convívio com o passado, os moradores do Mirim-açú promoveram uma sagração à entrada da Primavera sui generis: plantando árvores para cada um dos seus entes queridos, como uma forma de homenageá-los com vida e alegria.

Claudio Mesquita plantou árvores para a esposa Ruth Mesquita e o amigo Decio Frugoli

Bia Tess planta sua árvore em homenagem ao filho, observada por Edu Tess e Maria Taccari

A família Medeiros faz pose diante da muda de Quaresmeira recém-plantada
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Logo após o plantio das mudas, o que se seguiu foi uma bela festa que envolveu todas as gerações, e terminou em um simpático aperitivo de confraternização.

E para aumentar mais ainda o calor humano, o mau tempo deu uma trégua e abriu uma réstia de sol durante o plantio das árvores.

Cultivando suas memórias com alegria, os moradores do Mirim-açu estreitam ainda mais seus laços de amizade.

Todas as fotos de Nellie Solitrenick

Neste domingo, no nosso pequeno pedaço de paraíso em Ibiúna, vamos realizar uma celebração à entrada da Primavera, com uma homenagem àqueles que mesmo ausentes, estarão sempre na memória de todos no Mirim–açú.
Serão plantadas mudas de árvores em homenagem a cada um dos nossos queridos e saudosos amigos e parentes, para que suas raízes estejam firmes e vivas no lugar que todos amamos muito.

Neste sábado, levei meu chapéu a Ibiúna, um dos seus lugares preferidos. Lá ele fica como gosta: no seu observatório à beira da represa de Itupararanga, que se estende de Ibiúna a Sorocaba. Sob um céu de brigadeiro, lanchas cruzam a linha do horizonte ao por do sol. Em silêncio, meu chapéu apenas observa.



Fotos: Lee Swain

Maurício Medeiros é o grande animador da criançada de Ibiúna. Olha o que ele, junto com os pequenos, inventaram para animar a festa junina do Mirim Açú deste ano: uma catapulta lançadora de frango. Quem acertasse a penosa na panela, ganhava uma prenda. A molecada foi afinando a mira, e em pouco tempo, faltou prenda pra tanto lançamento na caçapa. Sucesso de público e crítica.


Esta qualidade de fruto tem cor de laranja lima da pérsia, e o sabor é um mix de tangerina com lima e notas de limão (parece enólogo metido a besta falando de vinho). Ou seja, ácida como tangerina, perfumada como mexirica e doce como mel. Quem prova se maravilha com a combinação. Está fazendo o maior sucesso no café da manhã, e no espremedor da Maria, ganhou ares afrodisíacos. Quem sabe?

Aqui em Ibiúna, quem controla o tempo é a natureza. Hora de plantar, de virar a terra, de regar, de podar, hora de colher. Hoje o relógio das verduras despertou, anunciando que já estavam no ponto certo. Sentar à mesa e servir a salada que você acabou de colher da horta com as próprias mãos, isto não tem preço.


A azia da terra. Apesar de ser feriado, foi um dia de trabalho duro aqui no meu torrãozinho de Ibiúna. Aquilo que parece uma cena de guerra química, não deixa de ser : um agrônomo está me ensinado a baixar a acidez da terra através da aplicação de calcário. O duro é convencer a Maria que calcário não é veneno e faz bem para a terra. Maria, a gente não toma magnésio quando está com azia?

O dia acabou como sempre, à beira da represa de Itupararanga. Meu chapéu deu alguns pitacos no projeto do novo quisoque projetado pela Maria, que promete ser a sensação das festas juninas aqui do condomínio. Como é bom de vez em quando um fim-de-semana no meio da semana.