
Contardo Calligaris tem um texto falando do tal ‘juízo estético’. Ele viu a grande instalação do Christo e da Jeanne-Claude no Central Park de New York e ‘teceu considerações’ muito oportunas sobre juízo estético e os tempos modernos. Mantive acalorada discussão escrita com meu amigo Tom Capri (SP) por uns cinco anos sobre, basicamente, estética. Meu amigo, entre outros tantos argumentos, sustentava que ainda é possível estabelecer ‘obras-primas universais’. Tipo ‘juízo estético universal’: Van Gogh é um gênio para toda a humanidade. Eu achava que, hoje, é impossível estabelecer nada mais que ‘gosto pessoal’ em qualquer coisa. Talvez nunca tenha sido possível o ‘gênio universal’. Conceito como ‘beleza’ é totalmente impossível de ser universal. Dizemos que um quadro de Picasso é genial pro mundo inteiro por uma questão de facilidade. Os esquimós pouco ligam pra ele. E nós pouco ligamos pra opinião deles. Temos que ir por partes, como queria Descartes.
O mundo sempre foi vasto. Hoje é pessoal e intransferível. Consenso é difícil. Unanimidade é burra. Nenhuma obra se impõe por suas qualidades próprias, intrínsecas. Ela depende única e fundamentalmente de quem a vê. E traz pra frente dela toda sua vida e vivência no campo estético. Uma coisa que acho fantástica pode ser apenas água nas penas do pato pra outra pessoa. Estamos cada vez mais sós diante do que ainda se chama de Arte. Cada um com seus recursos de vida enfrenta ou não a obra. Desiste de entender ou tenta achar sentido. Acha bonito e vai embora ou faz questão de ver mais adiante. A resposta emocional de cada um é de cada um. Pra se encontrar outra pessoa com a mesma resposta seria preciso confrontar. Porém, hoje, os confrontos estão cada vez mais escassos. Prefere-se dar de ombros e seguir. Pessoalmente, acho que a arte se transformou em arghte! Cada um engole como pode, digere, rumina ou vomita.
Pra terminar, digo que hoje o que se chama de arte serve mais pro próprio artista. É uma maneira de ele não enlouquecer, de se manter ativo, de se sentir vivo. Mesmo que ele tente a empatia com os apreciadores, fazer arte parece mais coçar o formigamento no pé que foi amputado.
Tente (piada): Diga pra alguém que acabou de gravar um CD pela Sony. A pessoa dirá: ah, minha netinha de cinco anos já gravou dois. Precisa ver como canta o Bundalelê no apê!
Rui Werneck de Capistrano bateu a moleira quando era criança, e é autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

Notou como a língua parece minhoca se batendo no asfalto quando você diz essa palavra?
Pois é, eu gosto das coisas ligadas à linguagem. Acho que a fala é o que nos distancia dos animais irracionais. Eles se comunicam do jeito deles, numa linguagem que deciframos como podemos. O jeito do latido nos diz o que estão querendo. Mas, eles não raciocinam.
Nós, ao longo da vida, desenvolvemos uma série de mecanismos automáticos na linguagem. Por ‘esperteza’ tentamos nos antecipar ao que a outra pessoa vai dizer, por exemplo. Daí nasceu a ‘incongruência semântica’. É fácil de perceber, se você tiver um pouco de paciência. Os neurolinguistas fazem mapas do cérebro pra ver de onde vêm os impulsos elétricos quando falamos. Eles medem as descargas elétricas provocadas por frases de vários tipos.
A ‘incongruência semântica’ diz respeito à aflição que dá na pessoa quando outra vai dizendo uma frase aos poucos e ela tenta adivinhar o que vem depois. Os pesquisadores viram que a ativação elétrica do cérebro vai aumentando conforme a frase instiga. E o afluxo de sangue aumenta em certas áreas. Um exemplo clássico, popular, é uma cantiga que tem essa letra:
Quero te fo…
Quero te fo…
Quero te forçosamente
Te pôr nas co…
Te pôr nas co…
Te pôr nas cores mais belas
Tua mãe é uma pu…
Tua mãe é uma pu…
Tua mãe é uma pura donzela
Teu pai deu o cu…
Teu pai deu o cu…
Teu pai deu o coração por ela
Quando você ouve pela primeira vez essa música, seu cérebro deve atingir o ponto máximo de atividade elétrica. Uma verdadeira usina. Os neurolinguistas dizem que o cérebro quer logo completar tudo. E, com isso, provoca na pessoa a ansiedade pelo que virá a ser dito. E, como temos milhares de palavras armazenadas, a ansiedade cresce porque o cérebro tem que pegar a palavra certa e entender o que o interlocutor quer dizer. Se você diz ‘Vá tomar no… ‘, automaticamente a pessoa completa. Isso gera a ‘incongruência semântica’ se você completa com a palavra ‘kung-fu, por exemplo.
Mudando de saco, vejo que a poesia tem que provocar ‘incongruências semânticas’ e fazer com que em cada verso aumente o impulso elétrico. Consequentemente, o leitor fica o tempo todo energizado. É difícil, mas devia ser assim a poesia.
Rui Werneck de Capistrano é neurolinguarudo e também autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.
Não me venha com especialistas em performática. Você sobe até o pico da vida e vê, decepcionado, que o outro cume é mais alto. Cume, pico ou cimo. Foi assim que a gente aprendeu na escola o nome da parte mais alta de uma montanha. Ser milionário é apenas ter mais condições de comprar a droga mais forte pra fugir da realidade. Pobre vai de crack. Rico vai de maconha mentolada. A fuga é a única certeza. Escapar, fugir, escafeder-se. Ficar parado de boca aberta esperando o fim é que não dá.
A vida é um charco iluminado. Você chafurda olhando as estrelas. Não me venha com estudiosos da alma humana. Eles apenas estão se distraindo mais do que as pessoas normais. Essas estão na rua, nos trens, nos elevadores, na luta. Você pode ser Jack, o estripador. Ou ler a vida dele. Dá na mesma. A vida é um barco de duas proas. Você rema, rema e, quando pensa que saiu do lugar, nem sabe se subiu ou desceu o rio. Os peixes estão em todas as partes onde você não consegue lançar a linha e o anzol. Quando todas as teorias se confirmam, a prática já não é mais aconselhável.
A vida é uma tela iluminada. Você, da poltrona, tem a ilusão de controlar o mundo. Os canais estão cheios de entulhos e água suja. Qualquer chuva os faz transbordar e alagar o cérebro. O cheiro de água podre. A vida é um carro desgovernado. Atravessa o sinal, bate no carro de um pobre diabo que acordou cedo pra ir trabalhar e emporcalha a rua com sangue e ferragens retorcidas. A vida, cantada e decantada, deixa notas soltas e borra no fundo da alma.
Não me venha com especialistas na alma humana. Eles olham para as estrelas pelo lado contrário do telescópio. Eles reviram o tapete e espalham o pó nos móveis de novo. O grande paradoxo de quem fizer a História acontecer detonando a mais poderosa das poderosas bombas atômicas é que ele não vai ficar pra História.
Rui Werneck de Capistrano é aleatório e avoado. É também autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.
Num mundo literalmente tomado,
em pesado compasso de espera,
eu vagava sem eira nem beira
procurando um lugar ao Sol.
Qual nau sem rumo, a duras penas
me equilibrava entre a cruz e a caldeirinha,
apertando o cinto e, com o semblante
carregado, pensava já em pôr na vida
o mais cruel ponto final.
Foi aí que num lance duvidoso
o destino, numa jogada de mestre,
driblou a sorte e, quase ao apagar
das luzes, me entregou você de bandeja
e mão beijada. Fui logo com muita sede
ao pote de mel, mesmo sabendo que era
chover no molhado, pois estava perdidamente
apaixonado e fui traído pela emoção.
Nossa união não foi um mar de rosas
nem um vale de lagrimas, caiu, isso, sim,
como uma luva de boxe em quem matava
cachorro a grito do Oiapoque ao Chuí.
Nessa oportunidade de ouro, joguei
as últimas esperanças e a sete chaves
lá encerrei, na doce ilusão de que assim
agradava a gregos, parentes e troianos.
Agora, de sã consciência, quero tecer
uns comentários pertinentes sem fugir da raia.
Tiro do bolso do colete aquele monte
de cobras e lagartos que você fez chover no meu
telhado de vidro para não deixar passar em
brancas nuvens.
Chegou a hora da verdade, depois de um
longo e tenebroso inverno, pois o que você fez
caiu como uma bomba: deu ouvidos à mais
soez intriga e nela montou qual num cavalo
de batalha, despejando chumbo grosso
que atingiu em cheio as bases sólidas
do nosso lar e os laços indissolúveis do sagrado matrimônio.
Eu, marido exemplar, pergunto a você, esposa
dedicada e fiel, por que não fizeste ouvidos
de mercador? Por que não jogaste uma
pá de cal? Por que não puseste em
panos quentes? Por que não usaste as
tuas prendas domésticas para pôr
ordem na casa na data magna
da Cristandade? Eu, aqui, no frio banco dos réus,
suspiro por teu corpo escultural, que agora é
página virada, pois me fez dar com os burros
n’água num escuro beco sem saída.
Por que, num leque de opções,
te agarraste em forças ocultas? Por que
pensaste em trágica ocorrência?
Em sórdidas intenções? Por que mataste
nosso sonho dourado de dois corações em um?
Por que tanto barulho por nada, se dormir com a
empregada também é lugar-comum?
Rui Werneck de Capistrano é a favor do acasalamento na primavera, outono, verão e principalmente no inverno. É também autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.
Sexta-feira, a sorte está lançada e o destino está traçado nas linhas de mais uma crônica de Rui Werneck. Bom fim de semana, boa leitura.
Eu tinha (possuía) a cama, um bloco de notas e uma caneta. Criado-mudo ou mesinha de cabeceira, não tinha. Nós quatro — numa noite mais caliente, warm, chaud, hot ou calda — participamos de uma orgia sem precedentes na história das fantasias caseiras. Sei que a cigana me enganou. Disse que eu seria um escritor famoso antes que o galo cantasse. Porém, ele foi para a panela quando ainda nem estava al primo canto e eu ainda escrevia sonetos de pé-quebrado e mãos tortas.
Qual não foi minha surpresa, na manhã seguinte — ao fazer uso dos apontamentos daquela longa noite de envolvimento com a cama, o bloco de notas e a caneta — quando descobri que ali estava o esboço de algo que poderia chamar de conto — segundo a aclamada definição do afamado estudioso Ramsés III. Enrubesci lendo algumas passagens. Gelei lendo outras. Tinha, além do alto teor de sensualidade, uma linguagem comovente, rangente e pegante. Duvidei da possibilidade de ser eu mesmo o autor e tentei imaginar o que havia rolado na noite anterior para que o resultado fosse tão luxuriante. Nuvens negras carregadas de esquecimento e ressentimento invadiram minha mente. Choveu forte sobre variantes, variáveis, conceitos e ponderações. Para amainar o frisson coloquei o pseudônimo Lorpa Longneck e engavetei.
No entanto, profissionais altamente qualificados do ramo literário — que faziam a limpeza semanal do quarto — logo descobriram a obra e quiseram publicar — e o fizeram a todo custo — quero dizer ‘sem pagar nada’ — numa revista literária de grande categoria. Pronto! Sim-salabim! Eureca! Avanti! Abre-te, Sésamo! Uma caixa de supermercados desmaiou ao ler no ônibus. Um corretor de seguros tentou se jogar da sacada da empresa – por sorte não havia sacada. Todas as anchovas fêmeas de um cardume entraram no cio ao mesmo tempo. Um rio subiu a serra e desaguou na nascente. Os membros de um coral, na Alemanha, começaram a cantar atirei o pau no gato no meio de La traviatta. Rupert Updergraff comeu as duas orelhas do seu cachorro de estimação. Um político do Nordeste devolveu o dinheiro da maracutaia. Enfim, a repercussão da leitura do conto foi o que foi — abalou, estrondeou.
A mídia procurou Lorpa Longneck até na cadeia! Sem achar, claro. Hoje, graças ao bom deus, sou apenas um mediano vitrinista de loja no Braz. Estou consciente de que não se deve cutucar a imaginação com história curta ou longa. Peço perdão se escrevo estas simples memórias sem lembrar muito bem do que aconteceu. E se rechaço cama, blocos de notas e canetas para uma relação duradoura.
Rui Werneck de Capistrano é jogador de búzios e autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.
Sexta feira, dia de feijoada no Rio de Janeiro, e de crônica do Rui Werneck, de Curitiba. Hoje com um prato cheio de curiosidades inúteis, e deliciosamente dispensáveis. Sirva-se à vontade.
Só 3% da energia consumida por uma lâmpada resultam em luz. Os outros 97% são liberados em forma de calor.
A cascavel tem uma segunda visão: são duas covas profundas entre os olhos vermelhos. Pode fechar ambos os olhos normais dela e ela detecta, com exatidão, a presa de sangue quente na escuridão.
Os morcegos não são totalmente cegos na penumbra. Mas, na escuridão, orientam-se pelo eco dos sons que emitem. Cientistas ficaram surpresos: mesmo produzindo sons com uma intensidade 2000 vezes superior e na mesma frequência dos morcegos — para atrapalhá-los — eles continuaram se orientando normalmente.
O ser humano médio é capaz de distinguir dez mil cheiros diferentes.
Um macho detecta o cheiro da secreção hormonal da borboleta fêmea a 11 km de distância.
Apenas um ovo de caracol comum, do tamanho de uma cabeça de alfinete, contém um produto químico suficiente para classificar nossos grupos sanguíneos. A mesma tarefa exigiria sangue de cinco doadores humanos.
Um casal de elefantes brinca, simula lutas de tração com as trombas enroladas… por semanas… antes de consumar o ato sexual.
A Austrália tem as cobras mais venenosas do mundo. Mas apenas seis pessoas/ano morrem picadas por elas. O veneno da serpente-tigre sul-australiana é tão potente que apenas 0,609 mg matam um homem.
Agora, nunca mexa com a medusa acalefa. Alguns biólogos, que preferem não se identificar para evitar retaliações, classificam o veneno dela como o mais potente de todos. Em apenas alguns minutos, ele causa transpiração abundante, cegueira, falta de ar e morte.
E chegou a primavera envolta em folhas verdes. Penso em Barbara, Ph.D. e meu coração bate feliz, destruindo as placas de gelo que o envolvem. Mas, nada acontece. Apenas o ruído das placas derretendo, tal como o som da aranha sugando as entranhas de uma mosca.
Rui Werneck de Capistrano é consultor de ritmos energicamente produtivos e autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.
Úlitma sexta feira do mês. E nem por isso poderia faltar a crônica do Rui Werneck, que chega na ponta dos pés, com sua escandalosa linguagem silenciosa. Boa leitura e bom fim de semana.
Cai uma chuva ensimesmada e cheia de noves-fora. Abri meu baú de coisas futuras e dei de cara com um mega-evento — tipo o exemplar de A linguagem silenciosa, de Torthon Wild, um brilhante mecânico de automóveis de Arapiraca. Tá ligado? Se não está, pode ser problema de bateria. Vamos em frente ou em marca a ré.
De todas as linguagens do ser humano, a silenciosa é, por definição, a menos barulhenta, mas não menos causadora de barulho. Pode ser um paradoxo de dois gumes, mas vamos analisar friamente a questão. Se você é um homem maduro, desses que andam por aí ou param na Boca Maldita, pode causar tremendo barulho se fizer um sinal silencioso de interesse para a mulher do próximo — principalmente se ele estiver próximo dela. Se já se convenceu dessa possibilidade, vamos agora examinar o carburador e a maldita bomba de gasolina que sempre entope.
Preste atenção — quando receber uma mulher em sua casa — aos detalhes que podem custar sua vida na estrada. Se ela chegar e sentar na beira do sofá, a situação não é promissora. Se conservar a bolsa no colo, pior ainda. Se aceitar uma xícara de café e nem colocá-la sobre a mesa de centro pra dar um descanso, preferindo tomar de um gole o conteúdo pelando… Bem, aí você já pode se preparar pra assistir o Programa do Jô sozinho e mal pago.
Não quero desanimar você, que deve se achar um belo conquistador de carros e um ótimo entendedor de mulheres. Um simples curto circuito pode estragar a sonhada viagem ao Paraguai. Faça boa revisão e leve todas as peças sobressalentes que puder — de um simples fusível até os kits completos de suspensão e de caixa de câmbio. Nunca se sabe! Voltando à mulher — bem, ela já deve ter ido embora, pois não sentou confortavelmente, não largou a bolsa no sofá, não deixou o café esfriar, não cruzou as pernas, e, pior, nem pediu pra ir ao banheiro. Enfrente a situação com toda dignidade — o estepe deve ser calibrado toda vez que for calibrar os quatro pneus. Claro que ele está sempre num lugar de difícil acesso, mas se você tivesse se preparado para o momento, teria colocado música, diminuído a luz, disposto um prato com aperitivos na mesa de centro, um balde de gelo e a garrafa da bebida favorita dela. E deixado a porta do quarto entreaberta. Além de verificar o sistema de freios e o nível de óleo. No declive, use freio motor!
Considere: seu comportamento interpessoal precisa passar por uma revisão completa. Se você for a uma autorizada, vão pedir o olho da cara e podem trocar peças que nem estejam tão ruins — a preponderância do tórax, a cabeça erguida – que significa hipertrofia da atitude mental – e o dispositivo psicofisiológico. No seu mecânico de confiança, as coisas podem pender para resolver o lado da hostilidade reprimida, auto-agressão, resistência passiva, invasão de território e até da regressão a um estado infantil. Mas, se você conversar direitinho, ele dá um jeitinho e até parcela a dívida. Aí, pode sair acelerando à vontade e ir em busca de uma união amistosa e prazerosa, de uma expectativa de continuidade de relação extra-campo ou no território inóspito da tensão matrimonial. Tá ligado? Acelera, Mané!
Rui Werneck de Capistrano
é consultor de ritmos energicamente produtivos e autor de
Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

Lançaram a Antologia dos Poetas
que Usam Rimas em Ão e
Fumam Cachimbo.
Eu não estou nela.
Lançaram a Antologia dos Poetas
que Têm Olhos Castanhos
e Casaram somente no Civil.
Não me puseram.
Lançaram a Antologia dos Poetas
que Nasceram às Três da Tarde
de Parto Normal e
Comem Miojo de Madrugada.
Não me convidaram.
Lançaram a Antologia dos Poetas
que Têm Tique Nervoso e
Saíram do Banco no PDV.
…
Lançaram a Antologia dos Poetas
que Escrevem Direto no Computador,
sem Acentos nem Pontuação e
que Assistem Novela na TV.
Nada meu.
Lançaram a Antologia dos Poetas
que Arrancaram Dentes do Siso na Primavera
e Comem com a Mão Esquerda
embora Chutem com o Pé Direito.
Estou fora.
Lançaram a Antologia dos Poetas
que Frequentam a Boca Maldita
desde 1915 e Usam Galochas.
…
Lançaram a Antologia dos Poetas
que Torcem pelo Iraty Futebol Clube e
Roubam no Jogo de Truco.
Passei batido e não fiquei nem no banco
de reservas.
Lançaram a Antologia dos Poetas
que se Aposentaram como
Funcionários Públicos por
Tempo de Serviço e Bebem
Cachaça com Mentruz.
Nada meu.
Lançaram a Antologia dos Poetas
que Só Cortam as Unhas na Lua Cheia.
Nenhum poema meu.
Lançaram a Antologia dos Poetas
que Usam Aplique nos Cabelos e
Tossem de Madrugada.
Não entrei.
Finalmente um editor me convidou
pra lançar minha própria antologia:
180 páginas em branco.
Mas ele exige que seja branco da cor do mar.
Rui Werneck de Capistrano avisa:
Melhor ter um poeta de cabeceira do
que dois pegando no pé.
Ilustração: @ Ana Hatherly
Só me dei conta de que era sexta feira quando vi o email do Rui Werneck enviando pontualmente sua crônica para o blog do Meu Chapéu. E hoje, para compensar a nossa falta por motivo de viagem da semana passada, o Werneck descarregou não uma crônica, mas um Tratado Geral para os leitores deste blog. Bom proveito e bom fim de semana to everybody. Lee Swain
Passei a última semana envolvido por sombras. Você tem o direito de perguntar o que seria isso. Sim, tem todo o direito de chegar à luz do entendimento logo no começo da minha história. Eu conto.
A origem das coisas sempre me intrigou. Muitas vezes me pego admirado com as invenções. Por exemplo, quem teve a brilhante idéia de construir edifícios redondos? E que, ainda por cima, giram em torno de um eixo fazendo com que o dono do apartamento possa ver todas as paisagens sem sair do quarto? Não seria mais simples o dono usar os pés e ir de um cômodo ao outro pra olhar a paisagem? Não, ele tem que ligar um mecanismo complicado — e caro — que faz com que tudo gire e ele possa contemplar a paisagem. O cúmulo da sofisticação. Cá pra nós, já notou que quase ninguém usa mais as sacadas ou varandas dos apartamentos? Só quando chega visita é que o dono corre mostrar a excelente vista que ele tem lá do alto. Porém, ele mesmo nunca tem a preocupação de saber se o dia está bonito ou nevoento. A televisão informa as condições climáticas. Assim, de admiração em admiração, chegou o ponto em que me preocupei com a origem da sombra.
Você sabia que o que chamamos de noite é apenas a sombra da Terra em si? E que um eclipse lunar só pode ocorrer com a lua cheia? E que as fases da lua nada têm a ver com a sombra que a Terra projetaria no satélite? As perguntas são tantas e, por isso, resolvi escrever um tratado, embora não soubesse como. Acumulei conhecimentos de todos os lados — livros, vídeos, aulas, enciclopédias.
Depois de quatrocentas páginas suadas, sofridas e cuidadosamente organizadas, dei por findo o trabalho. Tentei reler, relutando, e achar um nome. Demorei dois anos pra reler e entender alguma coisa. O nome estava difícil de sair. Pensei em Tratado Geral das Correntes Alternadas quando Jovens. Li de novo na diagonal meu volumoso microescrito e não achei nada sobre eletricidade. Consultei amigos e dois deles se dispuseram a ler a primeira página da introdução. Na sexta linha do primeiro parágrafo pararam, exaustos, e foram unânimes em afirmar que o melhor nome seria Tratado Geral das Coisas. Eles acreditaram, em conjunto, que alguma coisa deveria ter ali. Agradeci e mudei. Logo comecei a divagar e achei que podia mudar tudo, uma vez que ‘coisas’ é vago o suficiente pra que eu propusesse uma nova forma de se olhar a vida a partir de um dente de alho e desentortar pregos com salto de sapato. Acrescentei ‘em Si’ ao título e fiquei contente: Tratado Geral das Coisas em Si. Ficou com ar estruturalista e filosófico. O ‘em Si’ geraria certa expectativa nos criadores de caprinos e talvez isso rendesse um artigo elogioso na revista Caras & Bocas, que sempre publica receitas de bolos e assalto a banco.
Assim, depois de mais uns dois dias, havia reescrito as quatrocentas páginas, acrescentando um pós-escrito de cem laudas. Aí aglomerei apenas dicas de como coçar o saco nas férias sem importunar o próximo ou o mais distante. No final das contas, hoje posso dizer que sou autor de um tratado. Estou emparelhado, intelectualmente, com Montaigne, Galileu, Montesquieu e Virgulino Lampião. Quantos vendedores de sorvete podem dizer o mesmo?
Mas e a sombra? Ela é realmente uma coisa complicada e delicada. Complicada porque não se sabe a sua origem. Delicada porque não tem espessura nem substância. Por isso, até sua existência é contestada pelos cientistas. Mas ela está ali, ó, bem debaixo do teu pé. Não levante o pé porque ela some. A sombra tem vários apelidos. O mais tenebroso é treva. A partir dessa palavra você imagina filmes de terror, fantasmas, sensação de frio e de solidão, histórias de arrepiar. Tudo de ruim acontece na sombra. Só que ela não é tão feia assim como se pinta. Afinal, você corre buscar um lugar à sombra numa praia fervendo ou à beira da piscina num dia de verão. Sem sombra de dúvida.
Gostaria de passar pra outro item do meu tratado, mas a sombra é grande e forte. Agora está frio e um solzinho faria muito bem. A sombra é muito legal. Ela é bastante honesta e só ocupa os lugares que a luz não quer. Fica no seu cantinho. E apesar de o Sol, com sua luz e seu calor, ser fundamental pra nós, pra mim a sombra tem lugar de real importância. O Sol é símbolo de vida. Tem filmes e livros com títulos marcantes: O Sol por testemunha, Um lugar ao Sol, O Sol também se levanta, O Sol nasceu para todos, O império do Sol, etc. Já a sombra está presente num dos mais bonitos títulos de livros do mundo: À sombra das raparigas em flor.
Rui Werneck de Capistrano
está à sombra dos maiores escritores do mundo.
O exercício criativo envolve camadas muito profundas da Terra. Não é como plantar batatinhas ou abóbora. Muitas pessoas começam a escrever simplesmente porque têm lápis e papel à mão. Outras porque está chovendo e fazendo frio e não é possível sair pra bater pernas na rua. Outras sentem no fundo da personalidade as letras se mexendo, como um amontoado de vermes, e querem pôr para fora à custa do vermífugo literário, não importa a hora do dia ou da noite. Às vezes, até no lulu da madruga.
Uma tia minha começou a escrever furiosamente depois que morreu seu gato de estimação. Ela se sentiu perdidamente desolada e não tinha nenhuma atração pelo convívio com um ser humano qualquer. Joseph Conrad viajou em navios mercantes durante 16 anos antes de escrever a primeira linha. A. J. Cronin era médico, com clínica particular e tudo, mas rabiscava, ainda bem que não com letra indecifrável de médico, seus romances. Conan Doyle, também médico, criou Sherlock Holmes como passatempo entre uma consulta e outra. Devia ter poucos clientes – elementar, meu caro Watson! Herman Melville foi, durante 20 anos, um obscuro funcionário de alfândega. Depois saiu à caça da baleia literária Moby Dick. Isak Dinesen (baronesa Karen Blixen de Rungstedlund) só começou a escrever depois de ter arruinada sua fazenda africana pela queda violenta do preço do café. Miguel de Cervantes só escreveu a continuação de Dom Quixote porque um espertinho lançou uma suposta segunda parte do livro.
Em compensação, Kline Burack, zeloso cuidador dos bichos do DenverZoo, escreveu durante os 25 anos em que passou limpando jaulas de leões e tigres. Só parou quando teve o braço direito arrancado por um tigre que odiava seus escritos. O tigre gostava de J. D. Salinger e comia todos os que fossem contra.
As águas turvas da terrível barragem das rejeições podem atingir qualquer um quando ela arrebenta. É preciso ter força sobre-humana para resistir ao riso de um tigre esfomeado e amante de Salinger. É preciso ser paciente diante de uma senhora que diz: Isso até meu filho de oito anos escreve! É preciso saber sorrir quando um tio aconselha: Por que não escreve livros como os do Paulo Coelho? Ele está rico!
Exercício criativo provoca hérnia capilar, mas é melhor do que…
Rui Werneck de Capistrano
Rui Werneck escreve pra descobrir por que escreve.
A última sexta-feira feira de agosto fecha curto e grosso, com Rui Werneck de Capistrano jogando um balde de água fria nos românticos de plantão que ainda acreditavam na inspiração da pobreza. Se o dinheiro não traz a felicidade, como dizia um comerical de whisky, manda buscar. Boa leitura.
“Não há nada tão degradante como a ansiedade constante sobre os meios de subsistência. Não sinto senão desprezo pelas pessoas que desprezam o dinheiro. São hipócritas ou tolos. O dinheiro é como um sexto sentido sem o qual não se pode fazer uso completo dos outros. Certas pessoas dizem que a pobreza é o melhor aguilhão para o artista. É que nunca sentiram seu ferrão em sua própria carne. Não sabem como a pobreza torna a gente insignificante. Expõe a uma humilhação sem fim, corta-nos as asas, come-nos a alma como um câncer.” (Somerset Maugham, Servidão Humana)
ALMA CÂNCER DINHEIRO POBREZA FERRÃO ANSIEDADE TOLOS AGUILHÃO CARNE ASAS HUMILHAÇÃO SEXTO SENTIDO DESPREZO HIPÓCRITAS ARTISTA DEGRADANTE SUBSISTÊNCIA INSIGNIFICANTE ANSIEDADE DINHEIRO ASAS ALMA ALMA ALMA ALADA ALMA ALMA ACALMA
Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.
Por muito pouco, não é uma sexta feira 13 esta de hoje. Pra nossa sorte. E neste quase dia de mau augúrio, uma fresta de luz se abre com esta crônica líquida que Rui Werneck propõe aos leitores do Meu Chapéu. Pra ler e tomar de canudinho.
Era uma vez, há milhões e milhões de anos, um átomo de oxigênio que vagava sozinho pela vida. Nada pra fazer, nada pra sonhar. Apenas vagar pelo espaço esbarrando em outros átomos que nada tinham a ver com ele. E ele queria um amigo. Uma amizade estreita e duradoura.
De tanto procurar, um dia encontrou dois errantes navegantes: átomos de hidrogênio. Conversa vai, conversa vem, ficaram amigos. Estavam sempre tão juntos que acabaram se transformando numa estrutura molecular simples, porém muito atraente. Nascia nova substância no Universo: água.
A união deu tão certo que milhões de outros átomos de oxigênio e hidrogênio tornaram-se amigos. E foi aquela água. Num instante choveu, os mares se encheram, os rios correram, os lagos alagaram, os lençóis subterrâneos se formaram. A Terra passou a ser quase inteira líquida. Os bichos que iam nascendo passaram a apreciar o tal líquido, as plantas, idem. Já as pedras e os franceses não foram muito com a cara e não aderiram.
Os peixes e outros habitantes do mar, em reunião geral, baixaram ata pra que a água fosse vital a eles. Iriam viver e criar os filhos nela. Um humorista, séculos depois, diria: ‘Não bebo água: os peixes transam nela!’ O ser humano, sempre ele, com sua capacidade de dar emprego a tudo o que aparece, foi pondo água em tudo. Inventou o banho, embora alguns povos não sejam adeptos. Inventou piscina pra se refrescar por fora e suco pra refrescar por dentro. Inventou a sacanagem de botar mais água no feijão e em certos líquidos tomáveis pra lucrar mais.
Inventou morrer afogado em cavas e rios pouco recomendáveis. Inventou lavar as roupas. Inventou atravessar os oceanos pra ir bisbilhotar outros continentes. O ser humano inventou tudo com a água. Ela serve pra tudo e mais um pouco. Se não tivesse água na Terra, a gente não teria as belas mulheres nas praias. E os automóveis invadiriam toda a extensão territorial do mundo. Que poluição imensa!
A água é tão simples, mas ainda não pode ser feita em laboratório! Um átomo de oxigênio e dois de hidrogênio ligados por uma estrutura em ‘V’. No vértice fica o oxigênio e nas pontas os átomos de hidrogênio. Essa ‘química perfeita’ tem o nome de ‘ponte de hidrogênio’. Um dia, o Clint Eastwood vai acabar filmando a vida deles: As pontes de hidrogênio.
A água é tão simples que dá medo. E é tamanho seu desperdício, que já se teme que acabe. Tem uma característica que é única entre os líquidos: quando solidifica, em forma de gelo, perde densidade. Gelo flutua na água. Os lagos não congelam totalmente por causa disso. E a vida nele se salva. Os esquimós descobriram que a água de um lago congelado não é muito fria. Assim, construíram iglus e o gelo serve como isolante térmico. Dentro do iglu é mais quente do que fora. Legal, né? Agora, depois de tanto falar em água, me deu sede. Que tal uma cerveja bem gelada? Antarctica, por favor.
Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.
Ilustração: tela de René Magritte
Sexta feira lembra sábado, lembra véspera de fim de semana, e lembra que é dia de crônica do Rui Werneck, o homem que veio do frio. E falando em frio, ponha mais lenha na lareira e prepare-se para conhecer um dos trechos mais gelados da literatura abaixo do Trópico de Capricórnio. Boa leitura.
Ilustração: Victor Matsunaga
Não era apenas uma noite. Era a noite. Gelada. Limpa. Cortando como uma noite de Cabíria, com vagas estrelas da Ursa maior. Uma noite curitibana. Perfeita para casa, recolhimento e cama.
Só um programa descoberto por acaso no cine-extra, como Ladrões de bicicleta, poderia tirá-lo do aconchego. Um só pecado. E isso só porque algumas imagens desgarram-se do celulóide e foram remontadas na moviola da memória: discussões intermináveis sobre a importância do neo-realismo italiano, o rastro de miséria deixado pela Grande Guerra, o sofrimento do povo italiano, aqueles, sim, eram tempos difíceis, o roubo como forma única de sobrevivência, a nouvelle vague francesa, o caleidoscópio felliniano, a incomunicabilidade dos longos planos do Antonioni, a moça com a valise, a emoção vazada nos olhos do menino Bruno, a história, em off, de que teriam colocado cigarros no bolso dele para fazê-lo chorar em cena, a perambulação pelas ruas vazias de Curitiba, tomando sereno e fogo paulista, o último pernil com verde no Cachorro Quente. Tempos duros. Felizmente eclipsados.
Mais de vinte anos esta noite. E só por isso ele se dispôs a sair de casa. E ir ao cinema.
O coração dava marcha a ré enquanto ele acelerava o carro. Cine Riviera, antigo Santa Maria. Ele e os amigos boas-vidas. Ele, o demônio das onze horas. Dos anos 60. Advogado… peguei-o! Era mais do que um ano passado em Marienbad.
No cinema, à meia-luz — ou seria apenas seu coração que se negava a enxergar a realidade? —, a saudação muda a todos os velhos conhecidos. Ciao, caros! Atrás da tela, só faltavam A place in the Sun e o gongo soando. Um desfile de casacos e capotes. E, de repente, nos olhos do menino Bruno passa todo o filme da sua vida. Planos falhos, tomadas inconclusas, cortes doloridos, roteiro em transe.
Ele só foi despertado na saída. Uma bomba sobre Hiroxima, seu velho amor! Haviam roubado o carro dele na porta do cinema.
Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.
Nem parece, mas já é sexta feira. A semana passou rápida ou fui eu que corri demais? Bem, o que importa é que é dia de mais uma crônica do Rui Werneck de Capistrano, que hoje vem ligado no 220, com um tema científico para os leitores do Meu Chapéu. Boa leitura.
Não, você não leu direito o título. Ele não queria inventar a Máquina do Tempo. A perseguida por tantos e tantos cientistas sérios ou malucos. Aquela de ir e vir no tempo. De visitar a infância ou a velhice.
O que ele queria mesmo era inventar a Máquina de Passar Tempo. Só isso. Por onde começar? Que apetrechos usar? Melhor pensar. Sentou na melhor poltrona da casa e lá ficou. Zen. Quase nem. Sem porém. Cinco horas mais tarde, ainda estava pensando. Precisaria energia elétrica? Pneus de bicicleta, acelerador de partículas, cartas de baralho? Indeciso, pensava.
Logo mais apalpou a poltrona, o tecido macio, e resolveu começar por ela. Adaptou um volante de automóvel, um dial de rádio, motor de liquidificador. Daí em diante, foi fácil. Uma cúpula de abajur, dois garfos e uma faca, uma pá de ventilador, roldanas de persiana. Ficou dois dias indeciso entre uma ou cinco cordas de violão. Decidiu por cinco. Pelos dez dias seguintes visitou ferros-velhos e catou tudo que parecia bom de usar. A família estranhou, os vizinhos balançaram a cabeça. Noite e dia ele pregava, serrava, soldava. Lógico que correu a notícia de que ele endoidara. Pirou. Está dando milho para bicicleta. Jogando queda de braço com toca-discos. Até que, num belo dia de chuva, ele abriu a casa para os curiosos.
— Vejam! Vejam! Inventei a Máquina de Passar Tempo!
Risos, muxoxos, bocas franzidas.
— Não acreditam, né? Pois, olhem: comecei a fabricá-la no dia 29 de novembro de 1993. O calendário mostra que hoje é 23 de novembro de 1994 e eu nem senti o tempo passar. Ela fez passar um ano inteiro! E o melhor vem agora: ela nem está pronta ainda! Pelos meus cálculos e estudos, acho que preciso de mais uns dez ou doze anos. Isso se eu achar todas as peças.
Agora, pronta, pronta, funcionando sem nenhum barulhinho, leva ainda uns trinta anos. Aí, posso requerer patente. E revender. Mas isso, isso se eu não descobrir um jeito de modernizá-la, colocando peças tecnologicamente mais avançadas, ecologicamente corretas. Bom, aí vão mais uns cinquenta anos. Acreditam? Não? Esperem pra ver. Esperem pra ver…
Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.
Após uma estréia de retumbante sucesso de público e crítica, nossa colaboradora das quintas feiras, Tokie Esaka, volta a visitar a Zona de Desconforto. Desta vez tendo nosso próprio cérebro e seus dois lados como objeto de estudo. E para ilustrar sua teoria, Tokie nos coloca frente a um trabalho genial. O resto é com ela.
Um talentoso poeta poderia ser um exímio homem de negócios? Ou um engenheiro japonês, um ótimo sambista? Será? Quem disse que não?
Laurent Laveder é um desses caras que trabalha os dois lados do cérebro e mostra que é possível ter sensibilidade e precisão ao mesmo tempo. Francês radicado na Inglaterra, jornalista científico e fotógrafo, ele sempre teve fascínio pela Lua.
Para a criação do seu ensaio fotográfico “Moon Games”, ele calculou local / hora exata dos movimentos da Lua e criou estas lindas pinturas em forma de fotografia. E claro, sem recursos de photoshop. Seria muita zona de conforto…
A beleza da sua obra não está presente apenas no resultado final e sim, no processo criativo e na convicção de sua idéia. “Há muitos anos a fotografia é minha paixão. Essa mídia me fascina: conseguir imortalizar um momento é algo mágico! Sinto prazer em desvendar o exato ângulo e ponto de vista de uma cena que transmite certa emoção e sentido. Ou instigar interesse por uma cena que normalmente se passa desapercebida. Meus interesses pela ciência (tenho uma formação científica) e também pela fotografia me estimulam o desejo de imortalizar os fenômenos físicos. Há muito para se ver para aqueles que buscam e exercitam o olhar.”
E falando em Lua, vocês a viram esta semana? Ela se mostrou linda, faceira, toda cheia de graça. Todos que observaram o céu não se arrependeram… Agora, os que perderam, não se preocupem. Nunca é tarde para contemplá-la.
“Quando falo das pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.”
Sábia Cecilia Meireles!
O que está diante de sua janela hoje?
Tokie Esaka é Creative Manager da Disney no Brasil e professora de Design Emocional no curso de Master do Instituto Europeu de Design. Nas horas vagas, treina para a próxima meia-maratona de Nova York.
It’s friday! É Venerdi! Es el viernes! Já é sexta feira, dia do Rui Werneck de Capistrano contar para os leitores do Meu Chapéu quantas barbaridades já foram cometidas a mão desarmada por tradutores, a sangue frio, sem o menor remorso. Voilá, Werneck, go ahead! Non ti fermare.
Sempre a mesma luta. Um título que o autor às vezes fica horas, dias, anos pensando e pesando, desaparece na tradução. O tradutor – ou o editor – sempre acha fraco o título que o autor deu. Sempre acha que o leitor do seu país não vai entender. Precisa de bula pra sacar. O editor, que só quer vender, dá força pro tradutor mexer à vontade, adaptar e resolver o problema. Os editores da França confessam que mudam mesmo. Tem autores que brigam muito pelo original. Outros dobram-se à oportunidade de serem lidos pelos franceses.
Veja os títulos de livros em inglês que foram mudados em francês. Alguns deles vieram pro Brasil, e ficaram até famosos, com nomes trocados. Ora traduzidos do francês, ora do inglês. Mas… e o pobre autor, onde fica?
1. Paul Bowles: The sheltering sky – Un thé au Sahara – O céu que nos protege
2. Charles Bukowski: Erections, ejaculations, exhibitions and general tales os ordinary madness – Contes de la folie ordinaire – Histórias de um velho safado – Ereções, ejaculações, exibições
3. Truman Capote: Other voices, other rooms – Les domaines hantés -
4. Raymond Carver: Cathedral – Les vitamines du bonheur. What do we talk about when we talk about love – Parlez-moi d’amour –
5. Raimond Chandler: The long good-bye – Sur un air de navaja – Um longo adeus. The man who liked dogs – Un mordu. Nevada Gas – Efacce la rouquine -
6. David Goodis: Down there – Tirez sur le pianiste – Atire no pianista
7. Chester Himes: The five cornered square – La reine des pommes. A jealous man can’t win – Couché dans le pain -
8. William Irish: Waltz into darkness – La siréne du Mississipi – A sereia do Mississipi
9. James Jones: From here to eternity – Tant qu’il y aura des hommes -
10. Bernard Malamud: Rembrandt’s hat – L’homme dans le tiroir -
11. Arthur Miller: The crucible – Les sorcières de Salem – As bruxas de Salem
12. Vladimir Nabokov: Laugther in the dark – Chambre obscure/Rire dans la nuit – Gargalhada no escuro
13. John Updike: Rabbit run – Coeur de lièvre – Coelho corre
14. William Styron: Lie down in darkness – Un lit de ténèbres – Deitada na escuridão
15. Isak Dinesen: Out of Africa – por incrível que pareça ficou Out of África – A fazenda americana
Por que não traduzem alguns nomes esquisitos de autores, também, né?
Rui Werneck de Capistrano, por exemplo, podia virar Jean-Jacques Pierre, na França.
Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.
Graças, Senhor, mais uma sexta feira para nos redimir de uma semana de trabalho duro, queda de ministros, alta do etanol e pelo menos uma vitória do Corinthians pra nos alegrar. Dia de crônica do nosso cronista de plantão, Rui Werneck, que nos brinda com uma deliciosa história de um personagem mítico da Nova York do início do século passado.
Essa música do Alexandre Striq apareceu de repente, quando li o começo da carreira da Dorothy Parker.
Imagine-se em 1915, em Manhattan. Nem é possível. Você nunca pensaria em ruas de terra batida. E eram. Chega isso.
Então, aos fatos.
Uma moça , 22 anos, miúda, bonita e tímida, envia um poema à revista da moda. Uma esperança mínima no coração pequeno — vê-lo publicado. Ela mesma, Dorothy, na madureza, se definiria assim eu era uma dessas crianças insuportáveis que escrevem versos. A revista era, no mínimo, a mais esnobe dos Estados Unidos e comandada por um cinquentão do mais refinado bom gosto e, apesar da elevada posição, de reconhecida afabilidade — Frank Croninshield.
O poema foi aprovado para publicação na Vanity Fair. Você daria pulos de alegria ao receber uma carta de aprovação. A pequena Dorothy fez mais que isso. Vestiu-se com a maior elegância possível, saiu do seu quarto de pensão na rua 103 e caminhou por sessenta quarteirões para ir à sede da revista. Ela foi cedinho, sem aviso. Mesmo sabendo-se tímida, de tola não tinha nada. Mostrou de leve as garras que a tornariam a maior humorista de todos os tempos dos Estados Unidos (Ruy Castro) e uma poderosa esgrimista das palavras na famosa Távola Redonda do Algonquin. Ali ela trocava farpas com nada menos do que os teatrólogos George S. Kaufman e Robert Sherwood, os colunistas da moda Franklin P. Adams e Heywood Broun, o comediante Harpo Marx, o editor do The New Yorker Harold Ross, o editor da Vanity Fair Frank Croninshield, o roteirista de Cidadão Kane Herman J. Mankievicz, os fabulosos humoristas Rig Lardner e Robert Benchley, os atores e atrizes Tallulah Bankhead e os Lunts, compositores e cantores Paul Robeson e Noël Coward e o temível crítico Alexander Woolcott.
Ao ser recebida pelo chefão da revista, ela disse que havia ido lá somente para agradecer imediatamente pelo incentivo recebido para seguir a carreira literária — no rastro de George Stein. E, mais do que depressa, ofereceu-se para trabalhar na revista. O chefão, com seu bom coração, disse que ali não dava, mas se ela quisesse podia trabalhar na Vogue — outra revista do grupo. Ela aceitou na hora. Segundo se sabe, a ambição dela era ganhar a vida e divertir-se junto de pessoas cultas. Além de uma entrega total à literatura. O jornalismo seria uma porta.
Uma vez empregada, Dorothy tromba com uma terrível sofisticação e uma pesada sombra do passado. Era obrigada a trabalhar de luvas, chapéu e meias de seda pretas — que custavam uma fortuna e desfiavam à toa — e sapatos fechados. Imagine uma redação cheia de mulheres vestidas assim. A sombra do passado pesava por conta do comportamento e da linguagem das colegas. Elas falavam e escreviam pomposa e empoladamente. Sendo órfã e morando sozinha, Dorothy vinha de outra realidade — a das ruas. E só ler os seus contos. Vogue era dirigida à alta classe — cerca de 400 famílias de Manhattan.
Num zap! Vamos encontrar Dorothy Parker perto dos 40 anos — cheia de desilusões amorosas, com três tentativas de suicídio nas costas (que valeram um chiste de Robert Benchley — “Pare com isso, Dorothy. Suicídios fazem mal à saúde.”) e alcoolismo galopante. Já tinha na bagagem dois livros de poemas, o prestigioso prêmio O. Henry para o livro de contos Big Loira, um séquito de admiradores em Nova York e o título de roteirista mais bem paga de Hollywood.
Outro zap! Para 1966. Um aceno do ostracismo. O amigo Truman Capote festejava o livro A sangue frio com um baile de máscaras e não a convidou. Ela ficou fula por perder o acontecimento da década.
Outro zap! Para 1967. Aos 74 anos, morre pobre e alcoólatra. Com um telefonema, havia legado toda sua ‘fortuna’ de 20.448,39 dólares para a causa de Martin Luther King, além dos direitos autorais de todos os seus livros. Contrariando sua vontade, Lillian Helmam — viúva de Dashiell Hammett — fez um belo funeral e, ao pé do caixão, antes da cremação, discursou dizendo que Dorothy nunca falava de suas velhas glórias, nunca deplorava suas velhas derrotas, nunca repisava muito tempo o passado. Só que ficou fula da vida quando soube que não herdaria — conforme prometido por Dorothy — os direitos dos livros.
Tudo o que Dorothy doou foi cria, com juros de sofrimento e correção de vida atribulada, dos cinco dólares — uma fortuna para a época — que recebeu de Vanity Fair por um poema — Any Porch.
Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.
Bem-vinda, sexta feira, que traz o fim de semana na sua caçamba, e mais uma crônica-conto-leitura do nosso Rui Werneck de Capistrano, lá do frio de Curitiba. Boa leitura, bom fim de semana.
Etelvino Lima, desocupado e sem-teto, perambulava à noite por uma rua e viu os coladores de cartazes fazendo seu trabalho. Ficou olhando com interesse as partes impressas sendo coladas e um novo produto sendo anunciado. Os homens, com toda prática, seguiram na colagem e nem ligaram pro Etelvino bem ali parado.
Uns quinze minutos depois, o serviço estava pronto. Etelvino foi decifrando a mensagem e entendeu que dizia que ‘agora é fácil realizar o sonho da casa própria’. ‘Fácil, barato e rápido’. A casa anunciada estava impressa e o apelo era forte: ‘MORE AQUI, JÁ!’
Ele ficou matutando e, mal os homens puseram o caminhão em marcha, subiu no outdoor e entrou na casa. Que surpresa! Era espaçosa. Tinha dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Coisas que ele não sabia o que significavam há muito tempo. Desde que perdera o emprego, a mulher e tudo. Vivia na rua. Aquela casa era o máximo. Não tinha mobília, mas ele podia dar um jeito. Nos fundos, um pequeno quintal convidava a estender roupas ao sol. Tinha até um abrigo pra automóvel.
Etelvino sentiu o coração disparar. Finalmente iria sair da rua e fugir das noites frias debaixo das marquises.
Ele abriu as janelas e deixou entrar sol e ar. Nem podia acreditar. Escolheu o quarto maior pra ele e já podia pensar em reconciliação com a mulher. Ela gostaria de morar numa casa cheirando a novo e tão bem localizada. Depois de curtir a nova moradia, pensou que devia sair e procurar alguma coisa pra mobiliar. Deixou no quarto sua mochila, companheira de infortúnios, e saiu. Não esqueceu, é claro, de trancar a porta e as janelas. Os ladrões estão soltos por aí, pensou.
Saiu ligeiro e foi catar no lixo ou nos terrenos baldios algum móvel jogado fora. Achou uma cadeira meio bamba e nada mais. Claro que servia. Aí, logo viu que os coladores estavam trabalhando em outro outdoor. Foi até lá e viu que era de conjunto estofado. Não teve dúvidas, esperou a colagem e tirou um sofá de dois lugares. Era mais fácil de carregar.
Foi indo bem alegre pra sua nova casa, embora o sofá fosse bem pesado. Numa parada pra descansar, viu outros coladores fazendo seu serviço. Era anúncio de sorteio de uma caminhonete superpotente com tanque cheio. Ele não podia ter mais sorte. Esperou a colagem e subiu na caminhonete, levando o sofá.
Chegou em casa, colocou a caminhonete na garagem e o sofá na sala. Estava começando vida nova e cheia das boas coisas do mundo moderno.
Vendo que tudo era tão fácil, saiu pela cidade atrás de novas colagens e foi enchendo a casa. Em uma semana tinha casa bem confortável. Em duas semanas, a casa irradiava felicidade. Até um poodle de nome Doguinho corria pelo quintal, comia ração de qualidade e fazia festa quando ele chegava. Etelvino era todo sorrisos e planos.
Na noite do décimo quarto dia, resolveu ir até a casa da ex-mulher e tentar a reconciliação. Bem vestido, de caminhonete reluzente, lá se foi. Foi bem recebido e convenceu a mulher a, pelo menos, ir ver sua casa.
Quando, porém, dobrou a esquina da casa, teve uma grande surpresa. Os coladores estavam trocando o cartaz. No lugar da casa apareceu o anúncio da clínica de tratamento psicológico Vita Nuova. Etelvino desceu da caminhonete e correu até lá. Na porta da clínica, um médico convidava a entrar. Ele olhou pra sua ex-mulher que, balançando a cabeça, parecia não entender nada e viu que a caminhonete também havia desaparecido. O médico dizia: “Aqui, cuidamos bem de você!”
Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.
Sexta feira de novo, God Bless. O tempo passa, e as crônicas do Rui Werneck de Capistrano ficam. Hoje Werneck nos propõe um mergulho profundo nas vastas estepes russas e a silenciosa solidão dos seus personagens. Boa viagem por este planeta branco e desconhecido para nós, pobres ocidentais.
Liérmotov, um dos maiores poetas clássicos, morreu aos 27 anos em um duelo.
Gárchin, mestre do conto curto, suicidou-se aos 33 anos.
Púchkin, o maior poeta russo, duelou e morreu aos 38 anos.
Checov, mestre supremo do conto, se foi pela tuberculose aos 44 anos.
Sempre que penso na Rússia, vejo aquele cocheiro do conto do Checov. Envolto em surrado manto, coberto pela nevasca implacável, ele espera clientes e monologa tristemente — ou fala com seu manso cavalinho — a imobilidade, a neve, o frio, a solidão.
A Rússia são distancias imensas — as vastas estepes. Agora, imagine um escritor desesperado numa noite de insônia, cheio de dúvidas, nervos em frangalhos, com a fome rondando como um cão sem dono. Ele é um tipo de escritor — descrito por ele mesmo — forçado a mostrar o terrível e chocante pântano das coisas triviais, enquanto os leitores roubam dele seu coração e sua alma.
O escritor acorda o criado Iakim, apenas um garoto, e pede que acenda a lareira. Como? Até aquele momento a lareira esteve apagada? E o frio? É fevereiro de 1852, pleno inverno! Não importa. Uma vez aceso o fogo, o escritor fica ainda mais impaciente. As chamas lambem seus nervos e ele pega um folhoso manuscrito — sua obra mais recente — e vai na direção da lareira. O garoto, percebendo o suicídio iminente, tenta segurá-lo. Mas não consegue — é só um garoto contra uma fera enraivecida. As folhas se espalham dentro da lareira e o fogo vai consumindo rapidamente. O garoto ainda quer pegar o que está apenas chamuscado. A ordem é que tudo se queime. O escritor fica contemplando, absorto, as chamas que selam seu definitivo suicídio literário. Quando o espetáculo pirotécnico termina, ele começa a chorar amargamente.
Enquanto isso, seus leitores, em casas mais ou menos aquecidas, sonham felizes com o que seria — se completada em três partes — a Divina Comédia das Estepes.
A segunda parte de Almas mortas está definitivamente destruída. Em 1845, o escritor já havia queimado o primeiro manuscrito da segunda parte. E reescreveu. Agora, o fim.
Esta é a tragédia dos grandes escritores russos. Ela percorre toda a imensidão das estepes — tão imensas como as pálpebras do sombrio Vii — que chegam até o chão e nunca se erguem. O olhar dele também nunca se ergue do chão.
Por isso, à lista lá do começo, acrescento Gogol — morreu de inanição, por jejum autoimposto, aos 43 anos. Nove dias depois da queima do manuscrito.
Quando Dostoiévski lançou seu primeiro livro Pobre gente, em 1846, um poeta o saudou como um novo Gogol.

Ao amigo Lee Swain e seu chapéu
Nunca fui muito chegado em chapéus e bonés. Nasci numa época em que os homens quase nunca saíam de cabeça descoberta. É só ver as fotos de Curitiba na década de 40 do século passado. Logo, logo essa moda foi passando, bem como a de usar terno em pleno dia, em todas as ocasiões. Hoje só dá boné e jeans. Vida prática e pobre, porém, dá resultado. A literatura não escapou do chapéu nem do boné. O chapéu mais famoso é do da história infantil do Chapeuzinho Vermelho, sem dúvida. Só que o chapéu, na história, é o que menos importa. Temos a menina, a cesta de guloseimas e o lobo mau em primeiro lugar. Depois, o herói — o caçador que abre a barriga do lobo.
Da literatura propriamente dita, tirei três rápidas histórias. São as que me vieram à cabeça sem queimar muitos neurônios. Importante, acho eu, é sentir que a aparição do chapéu ou do boné define a condição do personagem. Não é apenas pra enfeitar. A primeira vem de Madame Bovary, de Gustave Flaubert:
“Mas, fosse porque não tivesse percebido a manobra ou porque não quisesse praticá-la, o novato mantinha seu boné sobre os joelhos quando acabávamos de rezar. Era uma dessas coisas heterogêneas, onde se encontram elementos de boina, do chapska, do chapéu redondo, do boné de caça e do de algodão, era uma dessas pobres coisas cuja muda feiura tem profundezas de expressão como o rosto de um imbecil. Ovóide e armada com barbatanas, começava por três abas circulares, em seguida se alternavam, separados por uma faixa vermelha, losangos de veludo e de pele de coelho. Logo depois vinha uma espécie de saco que terminava num polígono contornado, trabalhosamente costurado e de onde pendia na ponta de um cordão muito fino um bordado a fio de ouro. O boné era novo; a pala brilhava.”
Esse é um parágrafo da segunda página do mais famoso romance francês e já foi discutido por altas autoridades em literatura. Alguns intrépidos tentaram até desenhar um boné com essa descrição. Parece que não foram felizes. O boné é literário. Flaubert dizia que observava, observava e tornava a observar. Depois, torturava-se pra pôr em frases soantes, mesmo distorcendo a realidade. Diz-se que o romance inteiro versa sobre a estupidez humana. E a descrição do boné do Charles Bovary, quando ele entra na escola, mostra a condição de estúpido joão-ninguém do personagem.
O segundo caso é o do chapéu em Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Nas páginas 13 e 14 da última e bela edição de clássicos da Abril, a Raskólnikov, enquanto caminha pelas ruas pra ensaiar seu projeto, acontece isto:
“Contudo, deteve-se, de súbito, e levou, nervosamente, a mão ao chapéu quando um bêbado, que era transportado numa carroça vazia, não se sabe para onde nem para que, puxada por um cavalo de carga, apontou-o com o dedo, gritando-lhe com todos os pulmões: “Eh, você aí, chapeleiro alemão”. O chapéu estava, de fato, levantado, redondo, sovadíssimo; feito em retalhos, esburacado, cheio de manchas, sem aba e todo corcovado. Entretanto, não foi de vergonha, mas de um sentimento próximo do pavor de que se sentiu apoderado naquele instante.
“Eu sabia, resmungava em sua confusão – eu o adivinhava. Pior não podia ser. Uma coisa de nada, uma distração à toa pode estragar todo um projeto; não há dúvida, este chapéu chama a atenção… Faz-se notar, justamente, pelo ridículo… Preciso de um boné para assentar com meus trapos, não importa o que seja, um velho gorro, mas, nunca essa coisa horrorosa. Ninguém se cobre assim, identificam-me a uma versta de distância e jamais esquecerão disso. Sempre se volta a pensar, mais tarde, naquilo que nos chamou a atenção: eis uma pista… Pois então que se trate de passar o mais despercebido possível. Nadas, são esses nadas que interessam.”
O último caso vem do J. D. Salinger, no O apanhador no campo de centeio. Na página 20 da oitava edição em português tem a descrição rápida do chapéu do Holden Caulfield. Esse chapéu vai acompanhá-lo todo o tempo em suas aventuras até que, lá no fim, Holden o dá de presente à sua irmã Phoebe:
“Foi um bocado bom voltar para o quarto depois de sair da casa do velho Spencer, porque todo mundo estava no jogo e, para variar, o sistema de aquecimento estava funcionando em nosso quarto. Tirei o paletó, a gravata, desabotoei o colarinho e pus na cabeça um chapéu que tinha comprado em Nova York, de manhã. Era um desses chapéus de caça, vermelho, com a pala bem comprida. Eu o tinha visto na vitrina de uma loja de artigos esportivos quando saímos do metrô, logo depois que descobri que havia perdido a porcaria dos floretes e tudo. Só custou um dólar. Usava o chapéu com a pala virada para trás — de um jeito meio ridículo, mas era assim mesmo que eu gostava.”
Tiro meu chapéu pra esses chapeuzinhos literários. Se você achar outros, mande pro Lee Swain. Ele é colecionador.
Rui Werneck de Capistrano só dava chapeuzinho nos zagueiros.
Não sei de onde tirei isto: o mundo vai acabar em breve. Existe um meteorito gigante chamado Apolo — Popó para os íntimos — cuja órbita cruza com a da Terra. Nesse bamboleio — que ele e a Terra fazem no vazio do espaço sideral — vai haver o encontro fatal. Com beijos e abraços fulgurantes. A fumaça vai invadir tudo e escurecer o Sol.
Não, obrigado. Estou só olhando.
Aos quarenta do segundo tempo, Copérnico passou por Ptolomeu e foi direto pro gol. Ptolomeu caiu, agitou os braços, mas o árbitro não deu falta. E Copérnico entrou em órbita. Botou o Sol no centro de campo e deu a saída. A Terra recebeu ordens do técnico pra ocupar apenas lugar modesto na zaga.
Não, obrigado. Estou só olhando!
Se formos colocando sal de cozinha num copo d’água, em pouco tempo não será possível dissolver mais sal. A água ficará saturada. Aí, colocando-se um barbante — com nó na extremidade — dentro da solução, logo se formarão cristais no nó.
Não, obrigado. Estou só olhando!
Só pra dizer a você que está com a cabeça nas nuvens — e o corpo flutuando em poeira de estrelas: Podemos proclamar o sistema nicotinocêntrico como o mais provável sucessor do heliocêntrico. Bilhões de partículas nocivas empesteiam — a cada minuto — o ar que respiramos. Não pensava Jean Nicot que seu nome estaria ligado hoje ao mais perigoso veneno. Ele introduziu a nicotina — como suave passatempo — na França em 1559.
Não, obrigado. Estou só olhando!
Pra você que acha que é coisa nova e corajosa se jogar da ponte com elásticos — de alta tecnologia — amarrados nos pés, saiba que os indígenas das ilhas de Pentecostes, no Pacífico Sul, fazem torres de bambu de trinta metros e saltam lá de cima amarrados pelos pés por simples trepadeiras (lianas). Chegam a poucos centímetros do solo — ou, babau!
Não, obrigado. Estou só olhando!
E, depois da queda e do silêncio tenso — estará vivo? Está! — tambores irrompem e bailarinos entram no ritmo frenético. Cânticos elevam-se no meio da selva e tudo vira em um amontoado de braços que giram, olhos brilhantes, bocas contorcendo-se e sons lancinantes. Brilhos e breus. Incandescências e sombras. Gritos e sussurros.
Não, obrigado. Estou só olhando!
Rui Werneck de Capistrano? Não, obrigado. Estou só olhando!
Sexta feira começa com crônica do Rui Werneck de Capistrano, um dos maiores especialistas em currículos em línguas vivas, mortas ou agonizantes. Aprenda aqui como preparar o seu.
Fazer amigos e influenciar caracóis. Continuar jovem, em forma, e saudável aos 120 anos. Atingir a plena satisfação pessoal no banheiro e conquistar a confiança do chefe. Anabolizar a conta bancária e ficar mais inteligente por fora. Acumular vitórias e sorrir para a vida. Desafiar o futuro e reforçar a personalidade. Progredir profissionalmente e ter relações amorosas sólidas e duradouras. Competir no mais difícil mercado de trabalho, derrubar os adversários e somar pontos preciosos no currículo. Desenvolver todo o potencial criativo. Obter todos os diplomas com distinção e honra ao mérito. Tornar-se um líder de sucesso. Novos paradigmas — por favor! Globalizar-se, globalizar-se! Money makes de worldly go around!
As tendências estão à solta, os referenciais emergem das catacumbas da sociedade. As técnicas de sobrevivência pululam em abundância e sob o comando de palavras mágicas como coaching, emotional intellect, counselling, mentoring, trainee, self control, brain power, personal training, head hunter, Ph.D.. O círculo de fogo está bem à sua frente. Estalam o chicote e você salta por dentro dele, com terno sob medida, sem se queimar, e recebe as palmas da plateia, da família, dos amigos. You are the champion of the wrong.
Os patamares são desenhados com degraus cada vez mais altos e em perspectivas globais. O ambiente de trabalho tornou-se povoado de espectrais e carnívoras medusas tecnológicas providas de tentáculos monumentais. Os contatos são engendrados em conferências continentais simultâneas e eletronicamente comandadas por sofisticados softwares. The Wall Street Journal, abre as asas sobre nós! Clássicos de autoajuda enfileiram-se nas estantes de aço escovado e humilham os visitantes emocionalmente despreparados. Suportando tudo isso, as academias de musculação observam em cada esquina e promovem a Gestão do Condicionamento Físico Exemplar. Mas, com um sorriso dentifrício no rosto couraçado, você vai à cozinha da empresa e serve-se de um aguado café que a diarista — que saiu de casa às cinco da manhã para não perder a hora — nunca aprendeu a passar. Que merda!
PS. Publique aqui seu currículo por sete dias, gratuitamente. Se ninguém ligar, se mate.
Rui Werneck de Capistrano é consultor de novos paradigmas sociais
Thanks God, it’s Friday! Dia da crônica do Rui Werneck, que passou rapidamente pra me ver no Bar do Beto Batata em Curitiba, deixou o seu recado e como um bem-te-vi, bateu asas pra outras bandas. Grande sujeito. Quase dois metros de efervescência intelectual. Me contou que estou em um dos livros que pretende lançar brevemente. Ai, ai ai… olha lá Werneck…
Quase impossível não rir ao tentar resumir um livro que, num dos ensaios, nos conta sobre a impossibilidade de se resumir livros. Fique frio. Só faço resumo aqui do que gosto. Logo, Orwell me perdoaria.
Bem, todo mundo conhece George Orwell, de um jeito ou de outro. Se eu citar A revolução dos bichos, metade dos leitores daqui vai bater palmas. Se eu citar 1984 (Ó, grande irmão! Ó, Big Brother!) todo mundo vai bater os pés no chão de contentamento. Mas, Dentro da baleia não é muito conhecido. Não é ficção. Mostra os anos em que o autor ralou pelo mundo. Quase na miséria. Pausa: já notou que quando se fala em autor inglês, ele sempre nos parece bem de vida? Autor inglês sempre tem ar de pessoa sofisticada, que estudou em Oxford, tem título de nobreza e só come do bom e do melhor. Para mim, assim é. Só que muitos escritores ingleses viveram de mal a pior e Orwell foi um deles. Foi policial inglês na Birmânia, vendedor de livros em sebo, professor de escola particular, resenhista de livros. Orwell nasceu na Índia, mas era filho de um funcionário público britânico que trabalhava lá. E zanzou pela vida acreditando em duas coisas: literatura e política. Escreveu, desse modo, ficção e textos que denunciavam crimes, miséria, opressão, etc. Ele viveu intensamente, embora por pouco tempo. Nasceu em 1903 e morreu em 1950, de tuberculose. Se você pensar nisso, vai dar mais valor ainda aos escritos dele.
O livro Dentro da baleia, por exemplo, nos mostra um cara angustiado com as falcatruas gerais do ser humano. Presenciou enforcamento, atropelamento de um elefante por um trem, desmandos do comunismo, horrores da guerra, morte de pobres num sanatório (ele era um dos internos, por desequilíbrio psicológico!) e foi ferido na Guerra Civil espanhola. E, mais do que isso, tinha um apurado gosto literário. Nos ensaios sobre livros ele destaca bons livros ruins — aqueles que sobrevivem apesar de não serem alta literatura (Conan Doyle, por exemplo). Ele descobriu, por assim dizer, um escritor que até hoje tem seus livros reeditados, mas que naquele tempo era considerado pornográfico! Era Henry Miller, que lançou Trópico de Câncer em 1935, e foi tema do ensaio Dentro da baleia, em 1940. O livro foi considerado pornográfico porque Miller empregava palavras ditas impublicáveis, mas que hoje aparecem até em uma música de sucesso — que ganhou até prêmio! Orwell gostou bastante do livro e disse que ele ficaria para a posteridade. Acertou. Henry Miller está presente em várias reedições (em 2011) e pode ser encontrado em qualquer sebo. E é muito bom! Ezra Pound disse enfim um livro impublicável que é legível!
Por falar em sebo, Orwell conta coisas interessantes daquele em que trabalhou. Uma delas é a do cara que lia quatro a cinco novelas policiais por semana. Ele nunca relia. E, quando comprava, sabia pela capa se já tinha lido. Nem prestava atenção no nome do autor ou no título. Só com uma olhadela sabia se tinha ou não lido. E, quanto às resenhas de livros, Orwell dizia que era um trabalho insano — feito por encomenda de editoras a escritores desesperados por dinheiro — e, em essência, uma farsa. Ele diz que a maioria dos livros, nove entre dez casos, devia receber uma frase direta e verdadeira: Este livro não tem mérito.
No caso do Dentro da baleia, juro que tem mérito. Não faço resenha a pedido de ninguém nem por dinheiro! Li, gostei, me entusiasmei com o modo limpo, direto e bonito de escrever do Orwell. É um livro que motiva, anima, inspira. Pronto. É da Companhia das Letras, mas já tem nos sebos. Comprei o meu num deles por R$ 14,00 e está muito bem conservado. Foi lançado no Brasil em 2005. Uma curiosidade: o copyright do livro é espólio de Sonia Brownell Orwell desde 1984.
Rui Werneck de Capistrano se resume a isso. Ou aquilo.

O borracheiro Selmam Rolam acordou pela manhã e teve um sobressalto. Do nada, observou que o número 17.861 era resultante da multiplicação de 337 por 53. Levantou da cama e logo teve outra iluminação — a raiz cúbica de 3.796.416 é 156. Ao contar ao patrão, na primeira hora do expediente, sugeriu que, em vista do ocorrido, poderia receber um aumento de salário. O patrão olhou bem firme pra ele e perguntou qual é a cor do cavalo branco de Napoleão? Selmam respondeu na bucha: Verde!
Doronha Freixe, auxiliar de serviços gerais, chegou pro amigo e disse me diga uma data, qualquer uma dos últimos ou dos próximos 30.000 anos. O amigo se assustou, mas disse 6 de abril de 28.344. Em trinta segundos, Doronha respondeu vai cair numa terça-feira. O amigo bateu nas costas dele, deu parabéns e perguntou vai chover? É meu aniversário!
Bartira Toronja, cabeleireira, teve a premonição de que um avião iria cair em Oslo, capital da Noruega, às 14h30min do dia seguinte. Na mesma hora, pegou suas economias, comprou passagem e voou pra lá a fim de alertar as autoridades. Quase aterrissando, às 14h28min do dia seguinte, o avião teve problemas no trem de pouso e caiu de barriga na pista, incendiando-se.
O padeiro Roleit Alpert começou a ter um poder psíquico acima do normal. Se se concentrasse por cinco minutos olhando o retrato do presidente da República, o pão recém-assado falava com ele, por meia hora, numa língua morta há mais de dois mil anos.
Em 1432, Jermat Olat, gerente de uma loja de eletrodomésticos, chegou pra uma cliente indecisa e falou puxa, como a senhora tem sorte. Estou recebendo um aviso de uma voz que diz que a senhora vai receber uma visita amanhã. Ela trará notícias agradáveis para suas finanças — pode ser uma herança. Pode levar a máquina agora e pagar quando a visita for embora. A mulher se animou e levou a máquina. Dois dias depois voltou sorridente, com dinheiro na mão, mas queria devolver a máquina porque a eletricidade ainda não havia sido inventada.
E, finalmente, o mais impressionante caso de poder da mente. O músico Joac Estum estava em crise de criatividade e vivia emburrado. Depois de uma noite de sono agitado começou a receber uma música muito linda. Ele não podia parar de entoar. A música foi crescendo e tomou conta da vida dele. A tal ponto que teve que mudar de casa, deixando a música fechada dentro de um vidro de cebolas em conserva pela metade. Joac viveu bom tempo apavorado, pois temia que alguém abrisse o vidro. Ele detestava cebolas em conserva.
Esses prodigiosos casos de poder da mente foram extraídos do livro Terov Atinicov ov tintov, escrito por Tomoc Eparov durante um transe psíquico em 1867, na província de Lemo (KA). Terov abominou e renegou a experiência, pois foi obrigado a pagar vultosa indenização ao escritor-fantasma que ditou o livro e depois o acusou de plágio.
Rui Werneck de Capistrano é um escritor de mente aberta e escancarada.

Renatus Cartesius, René Descartes, escreveu o livro Discurso do Método — para conduzir a razão e buscar a verdade nas ciências — que, parece incrível, se constituiu num desses famosos divisores de águas nas tarefas humanas. Num superresumo, veja o que ele propõe: “Conduzir por ordem nossos pensamentos, indo dos mais simples mais aos mais confusos (ou complexos)… Dividir as dificuldades em tantas partes quantas forem possíveis… Fazer em cada parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que se esteja seguro de nada omitir”.
O famoso bordão ‘vamos por partes, como diria Jack, o estripador’ é real e funciona em inumeráveis situações da nossa vida. Um dia fiz um haicai que era assim: vamos por partes/como queria/Descartes. No mais das vezes, a gente atropela tudo e acha que nada tem solução. Arrancamos os cabelos diante de algum problema que parece muito grande. Nunca nos lembramos de ir por partes.
Descobri que gente gosta mesmo é de sofrer. De fazer com que os outros vejam que estamos assoberbados, que não temos tempo nem para respirar. Gostamos de nos fazer de vítimas do trabalho, do sistema, de chefe sacudo, de carga insuportável de serviço. Cansei de ver isso em agências de propaganda. Gente chateada trabalhando até altas horas porque não dava conta dos jobs no horário normal. Gente para quem o relógio esquecia de marcar seis horas e pulava logo para dez da noite. Gente que fazia questão de empilhar os jobs na mesa, sem dividir com os outros criadores, só para mostrar o quanto estava sobrecarregada. Gente que só saía depois que todos já tinham saído — fazendo tudo para que o chefe notasse — para dar uma de vítima, de pobre coitada, de trabalhadora.
Na empresa, quando alguém propõe simplificação radical ou divisão das tarefas, a maioria rosna e diz que não vai dar certo. Por isso, em qualquer trabalho de grupo, seja em escolas ou nas empresas, sempre um bobo trabalha mais. Pena que Descartes esteja esquecido. Que a leitura seja coisa do passado. E que quem tem ideias para simplificar tudo seja considerado CDF e mais alguns adjetivos desqualificativos.
Rui Werneck de Capistrano é cartesiano do piso ao teto
Dei um tapa num glossário com vocabulário do vinho. Interessante. De A a V tem palavras para definir gosto e tipo dos vinhos. Veja:
Aberto: de cor clara; acerbo: ácido, verde; adamado: vinho para mulher, suave e doce; amável: suave ou ligeiramente doce; apagado: de aroma inexpressivo; austero: adstringente; botritizado: vinho de sobremesa, doce e licoroso; carnoso: encorpado; complexo: de aromas múltiplos; curto: sabor inexpressivo, de retrogosto curto; denso: viscoso; delgado: pouco corpo; farto: muito doce e com baixa acidez; firme: jovem com estilo; foxado: odor e gosto de pêlo de raposa; fortificado: com adição de aguardente vínica; franco: sem defeitos; generoso: forte e com alto teor alcoólico; gordo: suave e maduro; grosso: elevada acidez e muito extrato; herbáceo: com aroma de ervas; longo: de boa persistência; magro: aguado; mole: sem caráter; nervoso: acidez e adstringência altas, mas não excessivas; oleoso: viscoso; pequeno: secundário; sápico: acidez moderada; terroso: sabor de terra; verde: acidez acentuada, mas agradável e refrescante.
Peguei só alguns verbetes pra dar ideia do que se passa na produção e degustação dos vinhos. Por isso, os enólogos são tão cheios de palavreado, tão arrogantes. Se ‘acham’. Por isso, sempre fico absorto olhando aquelas gôndolas de supermercados cheias de garrafas de preços tão disparatados e de tão nobres procedências. Aqui em Curitiba tem um produtor que engarrafa 800 mil litros/ano. As uvas vêm do Rio Grande do Sul (50%). É vinho pra consumo imediato, ‘de mesa’ tipo Santa Felicidade, Colombo. Vinho de festa com frango, polenta frita e risoto. Um litro custa uns sete reais. E nem adianta tentar colocar o glossário em cima dele. Ele faz a alegria do povão que acha tudo ‘duca’. E só.
PS. Pra diferir dos vinhos ‘de mesa’ os outros deviam ter escrito na garrafa: ‘de pé’.
Rui Werneck de Capistrano bebe cerveja
Eu, por outro lado, sempre que leio suas crônicas, além de lembrar do perfume e da simpatia daquela curta viagem de uma tarde de verão, penso sempre: Danuza é muito gente. Foi o que pensei hoje novamente, quando descobri seu blog, e li sua crônica “O bem maior”, em que ela preconiza o valor de nos importarmos com o próximo. Acho que se ela fôsse candidata nestas eleições, teria meu voto.
Lee Swain
Esse cara é um absurdo. Basta ler duas linhas do seu texto vertiginoso para entrar em parafuso tentando achar algum vestígio de lógica, para em seguida se estrebuchar entre rimas e trocadilhos num mar de sopa de letras. Impossível explicar o inexplicável.

Trecho do texto “Há sangue frio” publicado no blog do Solda. Para ler o texto na íntegra clique aqui.
Solda escreve como poucos e desenha como só ele. Lee Swain