
Sábado acordei cedo para levar meu chapéu conhecer Fernando Pessoa. Ele já tinha lido algumas resenhas e estava bastante curioso sobre a mostra que o Museu da Língua Portuguesa inaugurou esta semana. Nas mostras anteriores (Clarice Linspector e Guimarães Rosa), ele ficou surpreso com a criatividade dos cenógrafos, e ficou imaginando o que eles teriam inventado desta vez.

Logo que chegamos, meu chapéu pareceu um pouco decepcionado, talvez estivesse esperando fogos de artifício, banda de música, sei lá, sabe como são os chapéus. Mas à medida que ia lendo os fragmentos de textos, foi emudecendo. Quando entrou na cabine dos heterônimos, quis saber o que significava o termo. Expliquei que eram os personagens que o poeta criou para aumentar seu universo, como se vestisse outras personalidades, sem jamais deixar de ser o Pessoa. –“Heterônimo seria assim como vestir vários chapéus?” De certa forma, respondi.

Alguns minutos bastaram para sermos abduzidos pelos personagens e pela fantasia inesgotável de Fernando Pessoa, que inventou seu primeiro heterônimo aos seis anos de idade. De onde tanta inspiração? Um predestinado, pensei, estamos diante de um predestinado. Que talvez tenha adivinhado que não viveria tanto, e escreveu frenéticamente, enchendo um baú com fragmentos de inquietudes em forma de textos e poesia.

Saímos da mostra em silêncio, com vontade de entrar na primeira livraria e levar tudo de Fernando Pessoa para casa. Me perguntei: como pude viver até hoje sem praticamente ter lido um livro de Pessoa? Meu chapéu, que ultimamente deu para ler pensamentos disse apenas: “Navegar é preciso. Nunca é tarde para começar.”
