29
 abr
Crônica
Werneck dentro da Baleia

Thanks God, it’s Friday! Dia da crônica do Rui Werneck, que passou rapidamente pra me ver  no Bar do Beto Batata em Curitiba, deixou o seu recado e como um bem-te-vi, bateu asas pra outras bandas. Grande sujeito. Quase dois metros de efervescência intelectual. Me contou que estou em um dos livros que pretende lançar brevemente. Ai, ai ai… olha lá Werneck…

Peripécias de um vendedor de Sebo

Quase impossí­vel não rir ao tentar resumir um livro que, num dos ensaios, nos conta sobre a impossibilidade de se resumir livros. Fique frio. Só faço resumo aqui do que gosto. Logo, Orwell me perdoaria.

Bem, todo mundo conhece George Orwell, de um jeito ou de outro. Se eu citar A revolução dos bichos, metade dos leitores daqui vai bater palmas. Se eu citar 1984 (Ó, grande irmão! Ó, Big Brother!) todo mundo vai bater os pés no chão de contentamento. Mas, Dentro da baleia não é muito conhecido. Não é ficção. Mostra os anos em que o autor ralou pelo mundo. Quase na miséria. Pausa: já notou que quando se fala em autor inglês, ele sempre nos parece bem de vida? Autor inglês sempre tem ar de pessoa sofisticada, que estudou em Oxford, tem tí­tulo de nobreza e só come do bom e do melhor. Para mim, assim é. Só que muitos escritores ingleses viveram de mal a pior e Orwell foi um deles. Foi policial inglês na Birmânia, vendedor de livros em sebo, professor de escola particular, resenhista de livros. Orwell nasceu na Índia, mas era filho de um funcionário público britânico que trabalhava lá. E zanzou pela vida acreditando em duas coisas: literatura e polí­tica. Escreveu, desse modo, ficção e textos que denunciavam crimes, miséria, opressão, etc. Ele viveu intensamente, embora por pouco tempo. Nasceu em 1903 e morreu em 1950, de tuberculose. Se você pensar nisso, vai dar mais valor ainda aos escritos dele.

O livro Dentro da baleia, por exemplo, nos mostra um cara angustiado com as falcatruas gerais do ser humano. Presenciou enforcamento, atropelamento de um elefante por um trem, desmandos do comunismo, horrores da guerra, morte de pobres num sanatório (ele era um dos internos, por desequilíbrio psicológico!) e foi ferido na Guerra Civil espanhola. E, mais do que isso, tinha um apurado gosto literário. Nos ensaios sobre livros ele destaca bons livros ruins — aqueles que sobrevivem apesar de não serem alta literatura (Conan Doyle, por exemplo). Ele descobriu, por assim dizer, um escritor que até hoje tem seus livros reeditados, mas que naquele tempo era considerado pornográfico! Era Henry Miller, que lançou Trópico de Câncer em 1935, e foi tema do ensaio Dentro da baleia, em 1940. O livro foi considerado pornográfico porque Miller empregava palavras ditas impublicáveis, mas que hoje aparecem até em uma música de sucesso — que ganhou até prêmio! Orwell gostou bastante do livro e disse que ele ficaria para a posteridade. Acertou. Henry Miller está presente em várias reedições (em 2011) e pode ser encontrado em qualquer sebo. E é muito bom! Ezra Pound disse enfim um livro impublicável que é legível!

Por falar em sebo, Orwell conta coisas interessantes daquele em que trabalhou. Uma delas é a do cara que lia quatro a cinco novelas policiais por semana. Ele nunca relia. E, quando comprava, sabia pela capa se já tinha lido. Nem prestava atenção no nome do autor ou no título. Só com uma olhadela sabia se tinha ou não lido. E, quanto às resenhas de livros, Orwell dizia que era um trabalho insano — feito por encomenda de editoras a escritores desesperados por dinheiro — e, em essência, uma farsa. Ele diz que a maioria dos livros, nove entre dez casos, devia receber uma frase direta e verdadeira: Este livro não tem mérito.

No caso do Dentro da baleia, juro que tem mérito. Não faço resenha a pedido de ninguém nem por dinheiro! Li, gostei, me entusiasmei com o modo limpo, direto e bonito de escrever do Orwell. É um livro que motiva, anima, inspira. Pronto. É da Companhia das Letras, mas já tem nos sebos. Comprei o meu num deles por R$ 14,00 e está muito bem conservado. Foi lançado no Brasil em 2005. Uma curiosidade: o copyright do livro é espólio de Sonia Brownell Orwell desde 1984.

Rui Werneck de Capistrano se resume a isso. Ou aquilo.

 

 

2 comentários

Rui!
Down and Out in Paris and London é um dos meus favoritos de Orwell e relata justamente seus tempos de dura miséria.
Bravo pelo artigo!
Forte abraço,
Bernardo Bolt Gregori

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Já li esse também. Orwell é muito mais do que o criador do BB. Abraços.

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Werneck

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