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 ago
Crônica
Uma noite de vinte anos

Sexta feira lembra sábado, lembra véspera de fim de semana, e lembra que é dia de crônica do Rui Werneck, o homem que veio do frio. E falando em frio, ponha mais lenha na lareira e prepare-se para conhecer um dos trechos mais gelados da literatura abaixo do Trópico de Capricórnio. Boa leitura.

Ilustração: Victor Matsunaga

Não era apenas uma noite. Era a noite. Gelada. Limpa. Cortando como uma noite de Cabíria, com vagas estrelas da Ursa maior. Uma noite curitibana. Perfeita para casa, recolhimento e cama.

Só um programa descoberto por acaso no cine-extra, como Ladrões de bicicleta, poderia tirá-lo do aconchego. Um só pecado. E isso só porque algumas imagens desgarram-se do celulóide e foram remontadas na moviola da memória: discussões intermináveis sobre a importância do neo-realismo italiano, o rastro de miséria deixado pela Grande Guerra, o sofrimento do povo italiano, aqueles, sim, eram tempos difíceis, o roubo como forma única de sobrevivência, a nouvelle vague francesa, o caleidoscópio felliniano, a incomunicabilidade dos longos planos do Antonioni, a moça com a valise, a emoção vazada nos olhos do menino Bruno, a história, em off, de que teriam colocado cigarros no bolso dele para fazê-lo chorar em cena, a perambulação pelas ruas vazias de Curitiba, tomando sereno e fogo paulista, o último pernil com verde no Cachorro Quente. Tempos duros. Felizmente eclipsados.

Mais de vinte anos esta noite. E só por isso ele se dispôs a sair de casa. E ir ao cinema.

O coração dava marcha a ré enquanto ele acelerava o carro. Cine Riviera, antigo Santa Maria. Ele e os amigos boas-vidas. Ele, o demônio das onze horas. Dos anos 60. Advogado… peguei-o! Era mais do que um ano passado em Marienbad.

No cinema, à meia-luz — ou seria apenas seu coração que se negava a enxergar a realidade? —, a saudação muda a todos os velhos conhecidos. Ciao, caros! Atrás da tela, só faltavam A place in the Sun e o gongo soando. Um desfile de casacos e capotes. E, de repente, nos olhos do menino Bruno passa todo o filme da sua vida. Planos falhos, tomadas inconclusas, cortes doloridos, roteiro em transe.

Ele só foi despertado na saída. Uma bomba sobre Hiroxima, seu velho amor! Haviam roubado o carro dele na porta do cinema.

Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA
, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.

3 comentários

Hiroshima me parece que não é com “x”, Wernas!!!

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07/08/2011 #

Deu Bomba A sobre Hiroshima original… por culpa do digitador que vos fala. Tudo bem, valeu pela dica, Neri!

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08/08/2011 #

Eu já estive em Hiroshima, Wernas…. tem tudo lá destruído como live museum… Tenho um grande colega nipobrasileiro que mora lá… vou levar a Laura pra ver a estupidez de uma guerra na vida das pessoas… buenas!

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13/08/2011 #
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