Graças, Senhor, mais uma sexta feira para nos redimir de uma semana de trabalho duro, queda de ministros, alta do etanol e pelo menos uma vitória do Corinthians pra nos alegrar. Dia de crônica do nosso cronista de plantão, Rui Werneck, que nos brinda com uma deliciosa história de um personagem mítico da Nova York do início do século passado.
Essa música do Alexandre Striq apareceu de repente, quando li o começo da carreira da Dorothy Parker.
Imagine-se em 1915, em Manhattan. Nem é possível. Você nunca pensaria em ruas de terra batida. E eram. Chega isso.
Então, aos fatos.
Uma moça , 22 anos, miúda, bonita e tímida, envia um poema à revista da moda. Uma esperança mínima no coração pequeno — vê-lo publicado. Ela mesma, Dorothy, na madureza, se definiria assim eu era uma dessas crianças insuportáveis que escrevem versos. A revista era, no mínimo, a mais esnobe dos Estados Unidos e comandada por um cinquentão do mais refinado bom gosto e, apesar da elevada posição, de reconhecida afabilidade — Frank Croninshield.
O poema foi aprovado para publicação na Vanity Fair. Você daria pulos de alegria ao receber uma carta de aprovação. A pequena Dorothy fez mais que isso. Vestiu-se com a maior elegância possível, saiu do seu quarto de pensão na rua 103 e caminhou por sessenta quarteirões para ir à sede da revista. Ela foi cedinho, sem aviso. Mesmo sabendo-se tímida, de tola não tinha nada. Mostrou de leve as garras que a tornariam a maior humorista de todos os tempos dos Estados Unidos (Ruy Castro) e uma poderosa esgrimista das palavras na famosa Távola Redonda do Algonquin. Ali ela trocava farpas com nada menos do que os teatrólogos George S. Kaufman e Robert Sherwood, os colunistas da moda Franklin P. Adams e Heywood Broun, o comediante Harpo Marx, o editor do The New Yorker Harold Ross, o editor da Vanity Fair Frank Croninshield, o roteirista de Cidadão Kane Herman J. Mankievicz, os fabulosos humoristas Rig Lardner e Robert Benchley, os atores e atrizes Tallulah Bankhead e os Lunts, compositores e cantores Paul Robeson e Noël Coward e o temível crítico Alexander Woolcott.
Ao ser recebida pelo chefão da revista, ela disse que havia ido lá somente para agradecer imediatamente pelo incentivo recebido para seguir a carreira literária — no rastro de George Stein. E, mais do que depressa, ofereceu-se para trabalhar na revista. O chefão, com seu bom coração, disse que ali não dava, mas se ela quisesse podia trabalhar na Vogue — outra revista do grupo. Ela aceitou na hora. Segundo se sabe, a ambição dela era ganhar a vida e divertir-se junto de pessoas cultas. Além de uma entrega total à literatura. O jornalismo seria uma porta.
Uma vez empregada, Dorothy tromba com uma terrível sofisticação e uma pesada sombra do passado. Era obrigada a trabalhar de luvas, chapéu e meias de seda pretas — que custavam uma fortuna e desfiavam à toa — e sapatos fechados. Imagine uma redação cheia de mulheres vestidas assim. A sombra do passado pesava por conta do comportamento e da linguagem das colegas. Elas falavam e escreviam pomposa e empoladamente. Sendo órfã e morando sozinha, Dorothy vinha de outra realidade — a das ruas. E só ler os seus contos. Vogue era dirigida à alta classe — cerca de 400 famílias de Manhattan.
Num zap! Vamos encontrar Dorothy Parker perto dos 40 anos — cheia de desilusões amorosas, com três tentativas de suicídio nas costas (que valeram um chiste de Robert Benchley — “Pare com isso, Dorothy. Suicídios fazem mal à saúde.”) e alcoolismo galopante. Já tinha na bagagem dois livros de poemas, o prestigioso prêmio O. Henry para o livro de contos Big Loira, um séquito de admiradores em Nova York e o título de roteirista mais bem paga de Hollywood.
Outro zap! Para 1966. Um aceno do ostracismo. O amigo Truman Capote festejava o livro A sangue frio com um baile de máscaras e não a convidou. Ela ficou fula por perder o acontecimento da década.
Outro zap! Para 1967. Aos 74 anos, morre pobre e alcoólatra. Com um telefonema, havia legado toda sua ‘fortuna’ de 20.448,39 dólares para a causa de Martin Luther King, além dos direitos autorais de todos os seus livros. Contrariando sua vontade, Lillian Helmam — viúva de Dashiell Hammett — fez um belo funeral e, ao pé do caixão, antes da cremação, discursou dizendo que Dorothy nunca falava de suas velhas glórias, nunca deplorava suas velhas derrotas, nunca repisava muito tempo o passado. Só que ficou fula da vida quando soube que não herdaria — conforme prometido por Dorothy — os direitos dos livros.
Tudo o que Dorothy doou foi cria, com juros de sofrimento e correção de vida atribulada, dos cinco dólares — uma fortuna para a época — que recebeu de Vanity Fair por um poema — Any Porch.
Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.
9 comentários bem boa a crônica ,parabéns!Amo D.P. !
NEM BOBO NEM NADA está à venda via e-mail. Mando pelos Correios por 25 reles reais. Quem se habilita? Só pedir o e-mail pro Swain. Abraços. Satisfação garantida ou seu Paulo Coelho de volta.
Obrigada pela frase: ” Segundo se sabe, a ambição dela era ganhar a vida e divertir-se junto de pessoas cultas. ”
Dorothy foi simplesmete demais! Em tudo…
O que aconteceria se todos fossemos demais também?
Até mais…
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Ah, eu só não corrigi pra não te deixar encabulado, Werneck.
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Putz, acho que o povo… ou nao tá lendo… ou tá lento. Mas, eu, encabulado… demooooooora. Abracos de um notebook sem acentos.
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Werneck
Lee Swain