3
 fev
Crônica
Rui Werneck na ponta da língua

DIGA NEUROLINGUÍSTICA SEM ENROLAR A LÍNGTUA

Notou como a língua parece minhoca se batendo no asfalto quando você diz essa palavra?

Pois é, eu gosto das coisas ligadas à linguagem. Acho que a fala é o que nos distancia dos animais irracionais. Eles se comunicam do jeito deles, numa linguagem que deciframos como podemos. O jeito do latido nos diz o que estão querendo. Mas, eles não raciocinam.

Nós, ao longo da vida, desenvolvemos uma série de mecanismos automáticos na linguagem. Por ‘esperteza’ tentamos nos antecipar ao que a outra pessoa vai dizer, por exemplo. Daí nasceu a ‘incongruência semântica’. É fácil de perceber, se você tiver um pouco de paciência. Os neurolinguistas fazem mapas do cérebro pra ver de onde vêm os impulsos elétricos quando falamos. Eles medem as descargas elétricas provocadas por frases de vários tipos.

A ‘incongruência semântica’ diz respeito à aflição que dá na pessoa quando outra vai dizendo uma frase aos poucos e ela tenta adivinhar o que vem depois. Os pesquisadores viram que a ativação elétrica do cérebro vai aumentando conforme a frase instiga. E o afluxo de sangue aumenta em certas áreas. Um exemplo clássico, popular, é uma cantiga que tem essa letra:

Quero te fo…

Quero te fo…

Quero te forçosamente

Te pôr nas co…

Te pôr nas co…

Te pôr nas cores mais belas

Tua mãe é uma pu…

Tua mãe é uma pu…

Tua mãe é uma pura donzela

Teu pai deu o cu…

Teu pai deu o cu…

Teu pai deu o coração por ela

Quando você ouve pela primeira vez essa música, seu cérebro deve atingir o ponto máximo de atividade elétrica. Uma verdadeira usina. Os neurolinguistas dizem que o cérebro quer logo completar tudo. E, com isso, provoca na pessoa a ansiedade pelo que virá a ser dito. E, como temos milhares de palavras armazenadas, a ansiedade cresce porque o cérebro tem que pegar a palavra certa e entender o que o interlocutor quer dizer. Se você diz ‘Vá tomar no… ‘, automaticamente a pessoa completa. Isso gera a ‘incongruência semântica’ se você completa com a palavra ‘kung-fu, por exemplo.

Mudando de saco, vejo que a poesia tem que provocar ‘incongruências semânticas’ e fazer com que em cada verso aumente o impulso elétrico. Consequentemente, o leitor fica o tempo todo energizado. É difícil, mas devia ser assim a poesia.

Rui Werneck de Capistrano é neurolinguarudo e também autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!
Comentar

* Nome  

* E-mail  

Site/blog/twitter  

* Comentário  


Busca
Quem está
de olho no
meu blog

Eu e Meu Chapéu © 2010 - Desenvolvido por: George Macêdo