1
 jul
Crônica
O sonho da casa própria

Bem-vinda, sexta feira, que traz o fim de semana na sua caçamba, e mais uma crônica-conto-leitura do nosso Rui Werneck de Capistrano, lá do frio de Curitiba. Boa leitura, bom fim de semana.

Etelvino Lima, desocupado e sem-teto, perambulava à noite por uma rua e viu os coladores de cartazes fazendo seu trabalho. Ficou olhando com interesse as partes impressas sendo coladas e um novo produto sendo anunciado. Os homens, com toda prática, seguiram na colagem e nem ligaram pro Etelvino bem ali parado.

Uns quinze minutos depois, o serviço estava pronto. Etelvino foi decifrando a mensagem e entendeu que dizia que ‘agora é fácil realizar o sonho da casa própria’. ‘Fácil, barato e rápido’. A casa anunciada estava impressa e o apelo era forte: ‘MORE AQUI, JÁ!’

Ele ficou matutando e, mal os homens puseram o caminhão em marcha, subiu no outdoor e entrou na casa. Que surpresa! Era espaçosa. Tinha dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Coisas que ele não sabia o que significavam há muito tempo. Desde que perdera o emprego, a mulher e tudo. Vivia na rua. Aquela casa era o máximo. Não tinha mobília, mas ele podia dar um jeito. Nos fundos, um pequeno quintal convidava a estender roupas ao sol. Tinha até um abrigo pra automóvel.

Etelvino sentiu o coração disparar. Finalmente iria sair da rua e fugir das noites frias debaixo das marquises.

Ele abriu as janelas e deixou entrar sol e ar. Nem podia acreditar. Escolheu o quarto maior pra ele e já podia pensar em reconciliação com a mulher. Ela gostaria de morar numa casa cheirando a novo e tão bem localizada. Depois de curtir a nova moradia, pensou que devia sair e procurar alguma coisa pra mobiliar. Deixou no quarto sua mochila, companheira de infortúnios, e saiu. Não esqueceu, é claro, de trancar a porta e as janelas. Os ladrões estão soltos por aí, pensou.

Saiu ligeiro e foi catar no lixo ou nos terrenos baldios algum móvel jogado fora. Achou uma cadeira meio bamba e nada mais. Claro que servia. Aí, logo viu que os coladores estavam trabalhando em outro outdoor. Foi até lá e viu que era de conjunto estofado. Não teve dúvidas, esperou a colagem e tirou um sofá de dois lugares. Era mais fácil de carregar.

Foi indo bem alegre pra sua nova casa, embora o sofá fosse bem pesado. Numa parada pra descansar, viu outros coladores fazendo seu serviço. Era anúncio de sorteio de uma caminhonete superpotente com tanque cheio. Ele não podia ter mais sorte. Esperou a colagem e subiu na caminhonete, levando o sofá.

Chegou em casa, colocou a caminhonete na garagem e o sofá na sala. Estava começando vida nova e cheia das boas coisas do mundo moderno.

Vendo que tudo era tão fácil, saiu pela cidade atrás de novas colagens e foi enchendo a casa. Em uma semana tinha casa bem confortável. Em duas semanas, a casa irradiava felicidade. Até um poodle de nome Doguinho corria pelo quintal, comia ração de qualidade e fazia festa quando ele chegava. Etelvino era todo sorrisos e planos.

Na noite do décimo quarto dia, resolveu ir até a casa da ex-mulher e tentar a reconciliação. Bem vestido, de caminhonete reluzente, lá se foi. Foi bem recebido e convenceu a mulher a, pelo menos, ir ver sua casa.

Quando, porém, dobrou a esquina da casa, teve uma grande surpresa. Os coladores estavam trocando o cartaz. No lugar da casa apareceu o anúncio da clínica de tratamento psicológico Vita Nuova. Etelvino desceu da caminhonete e correu até lá. Na porta da clínica, um médico convidava a entrar. Ele olhou pra sua ex-mulher que, balançando a cabeça, parecia não entender nada e viu que a caminhonete também havia desaparecido. O médico dizia: “Aqui, cuidamos bem de você!”

Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA
, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.

1 comentário

Wernas rides again?

[Responder]

04/07/2011 #
Comentar

* Nome  

* E-mail  

Site/blog/twitter  

* Comentário  


Busca
Quem está
de olho no
meu blog

Eu e Meu Chapéu © 2010 - Desenvolvido por: George Macêdo