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 set
Crônica
O segredo das sombras

Só me dei conta de que era sexta feira quando vi o email do Rui Werneck enviando pontualmente sua crônica para o blog do Meu Chapéu. E hoje, para compensar a nossa falta por motivo de viagem da semana passada, o Werneck descarregou não uma crônica, mas um Tratado Geral para os leitores deste blog. Bom proveito e bom fim de semana to everybody. Lee Swain


Passei a última semana envolvido por sombras. Você tem o direito de perguntar o que seria isso. Sim, tem todo o direito de chegar à luz do entendimento logo no começo da minha história. Eu conto.

A origem das coisas sempre me intrigou. Muitas vezes me pego admirado com as invenções. Por exemplo, quem teve a brilhante idéia de construir edifícios redondos? E que, ainda por cima, giram em torno de um eixo fazendo com que o dono do apartamento possa ver todas as paisagens sem sair do quarto? Não seria mais simples o dono usar os pés e ir de um cômodo ao outro pra olhar a paisagem? Não, ele tem que ligar um mecanismo complicado — e caro — que faz com que tudo gire e ele possa contemplar a paisagem. O cúmulo da sofisticação. Cá pra nós, já notou que quase ninguém usa mais as sacadas ou varandas dos apartamentos? Só quando chega visita é que o dono corre mostrar a excelente vista que ele tem lá do alto. Porém, ele mesmo nunca tem a preocupação de saber se o dia está bonito ou nevoento. A televisão informa as condições climáticas. Assim, de admiração em admiração, chegou o ponto em que me preocupei com a origem da sombra.

Você sabia que o que chamamos de noite é apenas a sombra da Terra em si? E que um eclipse lunar só pode ocorrer com a lua cheia? E que as fases da lua nada têm a ver com a sombra que a Terra projetaria no satélite? As perguntas são tantas e, por isso, resolvi escrever um tratado, embora não soubesse como. Acumulei conhecimentos de todos os lados — livros, vídeos, aulas, enciclopédias.

Depois de quatrocentas páginas suadas, sofridas e cuidadosamente organizadas, dei por findo o trabalho. Tentei reler, relutando, e achar um nome. Demorei dois anos pra reler e entender alguma coisa. O nome estava difícil de sair. Pensei em Tratado Geral das Correntes Alternadas quando Jovens. Li de novo na diagonal meu volumoso microescrito e não achei nada sobre eletricidade. Consultei amigos e dois deles se dispuseram a ler a primeira página da introdução. Na sexta linha do primeiro parágrafo pararam, exaustos, e foram unânimes em afirmar que o melhor nome seria Tratado Geral das Coisas. Eles acreditaram, em conjunto, que alguma coisa deveria ter ali. Agradeci e mudei. Logo comecei a divagar e achei que podia mudar tudo, uma vez que ‘coisas’ é vago o suficiente pra que eu propusesse uma nova forma de se olhar a vida a partir de um dente de alho e desentortar pregos com salto de sapato. Acrescentei em Si’ ao título e fiquei contente: Tratado Geral das Coisas em Si. Ficou com ar estruturalista e filosófico. Oem Si’ geraria certa expectativa nos criadores de caprinos e talvez isso rendesse um artigo elogioso na revista Caras & Bocas, que sempre publica receitas de bolos e assalto a banco.

Assim, depois de mais uns dois dias, havia reescrito as quatrocentas páginas, acrescentando um pós-escrito de cem laudas. Aí aglomerei apenas dicas de como coçar o saco nas férias sem importunar o próximo ou o mais distante. No final das contas, hoje posso dizer que sou autor de um tratado. Estou emparelhado, intelectualmente, com Montaigne, Galileu, Montesquieu e Virgulino Lampião. Quantos vendedores de sorvete podem dizer o mesmo?

Mas e a sombra? Ela é realmente uma coisa complicada e delicada. Complicada porque não se sabe a sua origem. Delicada porque não tem espessura nem substância. Por isso, até sua existência é contestada pelos cientistas. Mas ela está ali, ó, bem debaixo do teu pé. Não levante o pé porque ela some. A sombra tem vários apelidos. O mais tenebroso é treva. A partir dessa palavra você imagina filmes de terror, fantasmas, sensação de frio e de solidão, histórias de arrepiar. Tudo de ruim acontece na sombra. Só que ela não é tão feia assim como se pinta. Afinal, você corre buscar um lugar à sombra numa praia fervendo ou à beira da piscina num dia de verão. Sem sombra de dúvida.

Gostaria de passar pra outro item do meu tratado, mas a sombra é grande e forte. Agora está frio e um solzinho faria muito bem. A sombra é muito legal. Ela é bastante honesta e só ocupa os lugares que a luz não quer. Fica no seu cantinho. E apesar de o Sol, com sua luz e seu calor, ser fundamental pra nós, pra mim a sombra tem lugar de real importância. O Sol é símbolo de vida. Tem filmes e livros com títulos marcantes: O Sol por testemunha, Um lugar ao Sol, O Sol também se levanta, O Sol nasceu para todos, O império do Sol, etc. Já a sombra está presente num dos mais bonitos títulos de livros do mundo: À sombra das raparigas em flor.

Rui Werneck de Capistrano
está à sombra dos maiores escritores do mundo.

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