O exercício criativo envolve camadas muito profundas da Terra. Não é como plantar batatinhas ou abóbora. Muitas pessoas começam a escrever simplesmente porque têm lápis e papel à mão. Outras porque está chovendo e fazendo frio e não é possível sair pra bater pernas na rua. Outras sentem no fundo da personalidade as letras se mexendo, como um amontoado de vermes, e querem pôr para fora à custa do vermífugo literário, não importa a hora do dia ou da noite. Às vezes, até no lulu da madruga.
Uma tia minha começou a escrever furiosamente depois que morreu seu gato de estimação. Ela se sentiu perdidamente desolada e não tinha nenhuma atração pelo convívio com um ser humano qualquer. Joseph Conrad viajou em navios mercantes durante 16 anos antes de escrever a primeira linha. A. J. Cronin era médico, com clínica particular e tudo, mas rabiscava, ainda bem que não com letra indecifrável de médico, seus romances. Conan Doyle, também médico, criou Sherlock Holmes como passatempo entre uma consulta e outra. Devia ter poucos clientes – elementar, meu caro Watson! Herman Melville foi, durante 20 anos, um obscuro funcionário de alfândega. Depois saiu à caça da baleia literária Moby Dick. Isak Dinesen (baronesa Karen Blixen de Rungstedlund) só começou a escrever depois de ter arruinada sua fazenda africana pela queda violenta do preço do café. Miguel de Cervantes só escreveu a continuação de Dom Quixote porque um espertinho lançou uma suposta segunda parte do livro.
Em compensação, Kline Burack, zeloso cuidador dos bichos do DenverZoo, escreveu durante os 25 anos em que passou limpando jaulas de leões e tigres. Só parou quando teve o braço direito arrancado por um tigre que odiava seus escritos. O tigre gostava de J. D. Salinger e comia todos os que fossem contra.
As águas turvas da terrível barragem das rejeições podem atingir qualquer um quando ela arrebenta. É preciso ter força sobre-humana para resistir ao riso de um tigre esfomeado e amante de Salinger. É preciso ser paciente diante de uma senhora que diz: Isso até meu filho de oito anos escreve! É preciso saber sorrir quando um tio aconselha: Por que não escreve livros como os do Paulo Coelho? Ele está rico!
Exercício criativo provoca hérnia capilar, mas é melhor do que…
Rui Werneck de Capistrano
Rui Werneck escreve pra descobrir por que escreve.
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