11
 nov
Crônica
O destino bate à sua porta

Sexta-feira, a sorte está lançada e o destino está traçado nas linhas de mais uma crônica de Rui Werneck. Bom fim de semana, boa leitura.

Eu tinha (possuía) a cama, um bloco de notas e uma caneta. Criado-mudo ou mesinha de cabeceira, não tinha. Nós quatro — numa noite mais caliente, warm, chaud, hot ou calda — participamos de uma orgia sem precedentes na história das fantasias caseiras. Sei que a cigana me enganou. Disse que eu seria um escritor famoso antes que o galo cantasse. Porém, ele foi para a panela quando ainda nem estava al primo canto e eu ainda escrevia sonetos de pé-quebrado e mãos tortas.

Qual não foi minha surpresa, na manhã seguinte — ao fazer uso dos apontamentos daquela longa noite de envolvimento com a cama, o bloco de notas e a caneta — quando descobri que ali estava o esboço de algo que poderia chamar de conto — segundo a aclamada definição do afamado estudioso Ramsés III. Enrubesci lendo algumas passagens. Gelei lendo outras. Tinha, além do alto teor de sensualidade, uma linguagem comovente, rangente e pegante. Duvidei da possibilidade de ser eu mesmo o autor e tentei imaginar o que havia rolado na noite anterior para que o resultado fosse tão luxuriante. Nuvens negras carregadas de esquecimento e ressentimento invadiram minha mente. Choveu forte sobre variantes, variáveis, conceitos e ponderações. Para amainar o frisson coloquei o pseudônimo Lorpa Longneck e engavetei.

No entanto, profissionais altamente qualificados do ramo literário — que faziam a limpeza semanal do quarto — logo descobriram a obra e quiseram publicar — e o fizeram a todo custo — quero dizer ‘sem pagar nada’ — numa revista literária de grande categoria. Pronto! Sim-salabim! Eureca! Avanti! Abre-te, Sésamo! Uma caixa de supermercados desmaiou ao ler no ônibus. Um corretor de seguros tentou se jogar da sacada da empresa – por sorte não havia sacada. Todas as anchovas fêmeas de um cardume entraram no cio ao mesmo tempo. Um rio subiu a serra e desaguou na nascente. Os membros de um coral, na Alemanha, começaram a cantar atirei o pau no gato no meio de La traviatta. Rupert Updergraff comeu as duas orelhas do seu cachorro de estimação. Um político do Nordeste devolveu o dinheiro da maracutaia. Enfim, a repercussão da leitura do conto foi o que foi — abalou, estrondeou.

A mídia procurou Lorpa Longneck até na cadeia! Sem achar, claro. Hoje, graças ao bom deus, sou apenas um mediano vitrinista de loja no Braz. Estou consciente de que não se deve cutucar a imaginação com história curta ou longa. Peço perdão se escrevo estas simples memórias sem lembrar muito bem do que aconteceu. E se rechaço cama, blocos de notas e canetas para uma relação duradoura.

Rui Werneck de Capistrano é jogador de búzios e autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

 

 

 

4 comentários

uau!!! que delícia ler isso!!!

[Responder]

Fiz dupla de criação com este cara durante anos, Helena. Deixamos muito dono de agência ricos, rsrsrs…

[Responder]

Os donos das agências estão todos na merda, por incompetência administrativa. Salvaram-se as campanhas que salvaram clientes.

[Responder]

Werneck

Ricos e destrambelhados… os donos.

[Responder]

13/11/2011 #
Comentar

* Nome  

* E-mail  

Site/blog/twitter  

* Comentário  


Busca
Quem está
de olho no
meu blog

Eu e Meu Chapéu © 2010 - Desenvolvido por: George Macêdo