Sexta feira, dia de crônica fresquinha de Rui Werneck, o cronista oficial do blog do Meu Chapéu. Para ler e sugar.
Eu estava na Biblioteca Pública, absorto, folheando um livro do escritor francês Gérard de Nerval. Uma ideia maluca começou a brincar na minha cabeça. Aquele poeta viajante — cuja vida foi muito atribulada e a morte, trágica — bem que poderia visitar Curitiba e contar pra nós um pouco da sua história amorosa. Como qualquer ideia literária que aparece de repente, também essa ainda não tinha forma definida, nem objetivo concreto. Apenas cintilava na cabeça. Poderia ser um conto, uma novela, uma peça de teatro. Ou apenas um devaneio durante algum tempo e, depois, nada.
Era uma tarde meio fria e o ventilador de teto, bem lá no alto, estava ligado. Procurei uma mesa fora do alcance dele. Mesmo assim, sentia frio. Olhei pros lados pra ver se havia uma mesa mais longe do ventilador. Foi quando vi entrando um senhor, acompanhado de uma estagiária da Biblioteca bem nova. Logo reconheci o Dalton Trevisan. A primeira coisa que fiz foi olhar pros outros frequentadores, claro. Queria ver se mais alguém reconheceria o nosso maior escritor. Apenas um cara, de uma mesa, olhou pra ele. E olhou pra mim, em seguida. Talvez quisesse dizer que ele também reconhecia o escritor. Uma espécie de afinidade literária, sei lá! Aí, eu queria acompanhar a visita dele, mas não podia fazer isso de forma acintosa. O cara da outra mesa poderia achar que eu era um bobo, um tiete deslumbrado. Então, eu olhava primeiro pra esse cara e, se ele não estivesse olhando, olhava pro Dalton. O que me intrigou é que ele parecia um turista de primeira viagem ali. A mocinha servia de guia de estante em estante e ele olhava tudo como se fosse pela primeira vez. Por um momento, vi o escritor de frente e notei que seus olhos eram bem pequenos — e se escondiam bem no fundo dos óculos. Os famosos óculos que já haviam servido pro galã Nelsinho ver e se apaixonar pelas gloriosas bailarinas do Marrocos. Ele caminhava com os braços soltos, duros, ao longo do corpo, como se demonstrasse certo cansaço. E se vestia com roupas simples e os indefectíveis tênis. Por alguns instantes, sumiu com a mocinha nos corredores que eu não podia enxergar dali da mesa. A mocinha parecia saber quem era ele, mas, não sei por que, duvido que tenha lido algum livro dele. Também não sei se ele se apresentou e pediu pra ser levado a um passeio pela Biblioteca. Essa parte fica pra você ajudar a imaginar.
O que o vampiro de Curitiba iria fazer na Biblioteca? Por que precisaria guia? Certa vez o vi no Passeio Público. Estava parado diante do grande viveiro de passarinhos e parecia olhar atentamente as atividades deles lá dentro. Ou será que bisbilhotava os arrulhos e afagos dos namorados nos bancos? — Não tenha medo, anjo. Sente-se mais um pouco. Conversinha não tira pedaço. Eu sei que ele se intitula vampiro de almas — aquele que suga as histórias de dentro delas. — Ainda não, anjo. Quero mais. Só mais um. Mas na Biblioteca só tem almas mortas! — Tudo, meu bem. Faça tudo. E o modo como olhava tudo parecia mesmo que nunca tinha entrado ali. A mocinha o levou por diversas estantes e até apontava as salas e dizia alguma coisa. Acho que ele não falava nada. Ou só resmungava alguma coisa.
Aí, quando saíram daquela sala, me levantei também. Primeiro olhei o cara que o tinha descoberto junto comigo. Não pude deixar de sorrir pra mim mesmo! Ele olhava fixo, mas era pra mocinha — que era bonita — que guiava o Dalton. Só isso! Eu estava salvo! Ninguém mais havia notado a presença do Dalton. Nem outros dois atendentes que cruzaram por eles deram o mínimo sinal de reconhecimento. Pude levantar e ir devagar atrás pra ver o que mais ele iria olhar lá. Havia uma apresentação de tai chi chuan no saguão e pararam pra assistir. Mas aquilo não pareceu interessar ao Dalton. Logo fez menção de ir na direção da porta de saída e a mocinha o acompanhou. Sumiram depois de passar pelo detector eletrônico de possíveis surrupiadores de livros.
Enquanto voltava pro Nerval, me lembrei que o Dalton, agora em 2010, já está com 85 anos. Não seria aquela uma espécie de visita à pirâmide — semelhante à dos faraós — que o imortalizará? Quem sabe? Mesmo que ele diga e repita não me toca essa glória dos fogos de artifício? Heim, anjo?
Rui Werneck de Capistrano é autor de NEM BOBO NEM NADA
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