30
 set
Crônica
De máquinas e amores

Úlitma sexta feira do mês. E nem por isso poderia faltar a crônica do Rui Werneck, que chega na ponta dos pés, com sua escandalosa linguagem silenciosa. Boa leitura e bom fim de semana.

Cai uma chuva ensimesmada e cheia de noves-fora. Abri meu baú de coisas futuras e dei de cara com um mega-evento — tipo o exemplar de A linguagem silenciosa, de Torthon Wild, um brilhante mecânico de automóveis de Arapiraca. Tá ligado? Se não está, pode ser problema de bateria. Vamos em frente ou em marca a ré.

De todas as linguagens do ser humano, a silenciosa é, por definição, a menos barulhenta, mas não menos causadora de barulho. Pode ser um paradoxo de dois gumes, mas vamos analisar friamente a questão. Se você é um homem maduro, desses que andam por aí ou param na Boca Maldita, pode causar tremendo barulho se fizer um sinal silencioso de interesse para a mulher do próximo — principalmente se ele estiver próximo dela. Se já se convenceu dessa possibilidade, vamos agora examinar o carburador e a maldita bomba de gasolina que sempre entope.

Preste atenção — quando receber uma mulher em sua casa — aos detalhes que podem custar sua vida na estrada. Se ela chegar e sentar na beira do sofá, a situação não é promissora. Se conservar a bolsa no colo, pior ainda. Se aceitar uma xícara de café e nem colocá-la sobre a mesa de centro pra dar um descanso, preferindo tomar de um gole o conteúdo pelando… Bem, aí você já pode se preparar pra assistir o Programa do Jô sozinho e mal pago.

Não quero desanimar você, que deve se achar um belo conquistador de carros e um ótimo entendedor de mulheres. Um simples curto circuito pode estragar a sonhada viagem ao Paraguai. Faça boa revisão e leve todas as peças sobressalentes que puder — de um simples fusível até os kits completos de suspensão e de caixa de câmbio. Nunca se sabe! Voltando à mulher — bem, ela já deve ter ido embora, pois não sentou confortavelmente, não largou a bolsa no sofá, não deixou o café esfriar, não cruzou as pernas, e, pior, nem pediu pra ir ao banheiro. Enfrente a situação com toda dignidade — o estepe deve ser calibrado toda vez que for calibrar os quatro pneus. Claro que ele está sempre num lugar de difícil acesso, mas se você tivesse se preparado para o momento, teria colocado música, diminuído a luz, disposto um prato com aperitivos na mesa de centro, um balde de gelo e a garrafa da bebida favorita dela. E deixado a porta do quarto entreaberta. Além de verificar o sistema de freios e o nível de óleo. No declive, use freio motor!

Considere: seu comportamento interpessoal precisa passar por uma revisão completa. Se você for a uma autorizada, vão pedir o olho da cara e podem trocar peças que nem estejam tão ruins — a preponderância do tórax, a cabeça erguida – que significa hipertrofia da atitude mental – e o dispositivo psicofisiológico. No seu mecânico de confiança, as coisas podem pender para resolver o lado da hostilidade reprimida, auto-agressão, resistência passiva, invasão de território e até da regressão a um estado infantil. Mas, se você conversar direitinho, ele dá um jeitinho e até parcela a dívida. Aí, pode sair acelerando à vontade e ir em busca de uma união amistosa e prazerosa, de uma expectativa de continuidade de relação extra-campo ou no território inóspito da tensão matrimonial. Tá ligado? Acelera, Mané!

Rui Werneck de Capistrano
é consultor de ritmos energicamente produtivos e autor de
Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

1 comentário

Muito bom… Quem é esse cara? quem é esse tal de Werneck?

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01/10/2011 #
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