Num mundo literalmente tomado,
em pesado compasso de espera,
eu vagava sem eira nem beira
procurando um lugar ao Sol.
Qual nau sem rumo, a duras penas
me equilibrava entre a cruz e a caldeirinha,
apertando o cinto e, com o semblante
carregado, pensava já em pôr na vida
o mais cruel ponto final.
Foi aí que num lance duvidoso
o destino, numa jogada de mestre,
driblou a sorte e, quase ao apagar
das luzes, me entregou você de bandeja
e mão beijada. Fui logo com muita sede
ao pote de mel, mesmo sabendo que era
chover no molhado, pois estava perdidamente
apaixonado e fui traído pela emoção.
Nossa união não foi um mar de rosas
nem um vale de lagrimas, caiu, isso, sim,
como uma luva de boxe em quem matava
cachorro a grito do Oiapoque ao Chuí.
Nessa oportunidade de ouro, joguei
as últimas esperanças e a sete chaves
lá encerrei, na doce ilusão de que assim
agradava a gregos, parentes e troianos.
Agora, de sã consciência, quero tecer
uns comentários pertinentes sem fugir da raia.
Tiro do bolso do colete aquele monte
de cobras e lagartos que você fez chover no meu
telhado de vidro para não deixar passar em
brancas nuvens.
Chegou a hora da verdade, depois de um
longo e tenebroso inverno, pois o que você fez
caiu como uma bomba: deu ouvidos à mais
soez intriga e nela montou qual num cavalo
de batalha, despejando chumbo grosso
que atingiu em cheio as bases sólidas
do nosso lar e os laços indissolúveis do sagrado matrimônio.
Eu, marido exemplar, pergunto a você, esposa
dedicada e fiel, por que não fizeste ouvidos
de mercador? Por que não jogaste uma
pá de cal? Por que não puseste em
panos quentes? Por que não usaste as
tuas prendas domésticas para pôr
ordem na casa na data magna
da Cristandade? Eu, aqui, no frio banco dos réus,
suspiro por teu corpo escultural, que agora é
página virada, pois me fez dar com os burros
n’água num escuro beco sem saída.
Por que, num leque de opções,
te agarraste em forças ocultas? Por que
pensaste em trágica ocorrência?
Em sórdidas intenções? Por que mataste
nosso sonho dourado de dois corações em um?
Por que tanto barulho por nada, se dormir com a
empregada também é lugar-comum?
Rui Werneck de Capistrano é a favor do acasalamento na primavera, outono, verão e principalmente no inverno. É também autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.