Por muito pouco, não é uma sexta feira 13 esta de hoje. Pra nossa sorte. E neste quase dia de mau augúrio, uma fresta de luz se abre com esta crônica líquida que Rui Werneck propõe aos leitores do Meu Chapéu. Pra ler e tomar de canudinho.
Era uma vez, há milhões e milhões de anos, um átomo de oxigênio que vagava sozinho pela vida. Nada pra fazer, nada pra sonhar. Apenas vagar pelo espaço esbarrando em outros átomos que nada tinham a ver com ele. E ele queria um amigo. Uma amizade estreita e duradoura.
De tanto procurar, um dia encontrou dois errantes navegantes: átomos de hidrogênio. Conversa vai, conversa vem, ficaram amigos. Estavam sempre tão juntos que acabaram se transformando numa estrutura molecular simples, porém muito atraente. Nascia nova substância no Universo: água.
A união deu tão certo que milhões de outros átomos de oxigênio e hidrogênio tornaram-se amigos. E foi aquela água. Num instante choveu, os mares se encheram, os rios correram, os lagos alagaram, os lençóis subterrâneos se formaram. A Terra passou a ser quase inteira líquida. Os bichos que iam nascendo passaram a apreciar o tal líquido, as plantas, idem. Já as pedras e os franceses não foram muito com a cara e não aderiram.
Os peixes e outros habitantes do mar, em reunião geral, baixaram ata pra que a água fosse vital a eles. Iriam viver e criar os filhos nela. Um humorista, séculos depois, diria: ‘Não bebo água: os peixes transam nela!’ O ser humano, sempre ele, com sua capacidade de dar emprego a tudo o que aparece, foi pondo água em tudo. Inventou o banho, embora alguns povos não sejam adeptos. Inventou piscina pra se refrescar por fora e suco pra refrescar por dentro. Inventou a sacanagem de botar mais água no feijão e em certos líquidos tomáveis pra lucrar mais.
Inventou morrer afogado em cavas e rios pouco recomendáveis. Inventou lavar as roupas. Inventou atravessar os oceanos pra ir bisbilhotar outros continentes. O ser humano inventou tudo com a água. Ela serve pra tudo e mais um pouco. Se não tivesse água na Terra, a gente não teria as belas mulheres nas praias. E os automóveis invadiriam toda a extensão territorial do mundo. Que poluição imensa!
A água é tão simples, mas ainda não pode ser feita em laboratório! Um átomo de oxigênio e dois de hidrogênio ligados por uma estrutura em ‘V’. No vértice fica o oxigênio e nas pontas os átomos de hidrogênio. Essa ‘química perfeita’ tem o nome de ‘ponte de hidrogênio’. Um dia, o Clint Eastwood vai acabar filmando a vida deles: As pontes de hidrogênio.
A água é tão simples que dá medo. E é tamanho seu desperdício, que já se teme que acabe. Tem uma característica que é única entre os líquidos: quando solidifica, em forma de gelo, perde densidade. Gelo flutua na água. Os lagos não congelam totalmente por causa disso. E a vida nele se salva. Os esquimós descobriram que a água de um lago congelado não é muito fria. Assim, construíram iglus e o gelo serve como isolante térmico. Dentro do iglu é mais quente do que fora. Legal, né? Agora, depois de tanto falar em água, me deu sede. Que tal uma cerveja bem gelada? Antarctica, por favor.
Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.
Ilustração: tela de René Magritte