De ontem para hoje, depois de percorrer a ruas da Mooca, localizamos a Casa Di Cunto no nosso GPS, e chegamos ao grande prédio que abriga a confeitaria e o recém inaugurado restaurante. Logo na entrada, uma galeria de fotos históricas relembra as origens da família. Peço para fazer algumas fotos, e logo sou recebido por Marco, um dos herdeiros que gerenciam a casa, e em poucos minutos sou iniciado na trajetória dos Di Cunto.
A história desta família no Brasil começa com um colossal engano. Em 1878, Donato Di Cunto, então com 17 anos e órfão de pai, embarca em Napoli com destino ao Uruguai, onde sua mãe tinha alguns parentes. Como fôsse analfabeto, recebeu a orientação de descer na 3ª parada após a travessia do Atlântico: Rio, Santos e Montevidéu. Quis o destino que uma parada extra fosse feita em função de um surto de doença contagiosa no navio, o que fez Donato acreditar que o Porto de Santos fosse a 3ª parada, e ali desembarcou. Estava feito o imbróglio. Não havia ninguém para encontrá-lo e muito menos quem o compreendesse (a imigração de fato somente ocorreria uma década depois). Com muita dificuldade, conseguiu encontrar alguém que lhe desse guarida (como explicar que havia desembarcado no lugar errado?).
Donato Di Cunto, o patriarca.
Apesar de jovem, Donato trazia consigo o espírito de luta do imigrante que não tem caminho de volta: como tinha experiência no trabalho de carpintaria, teve certa facilidade em conseguir o emprego de ajudante de carpinteiro numa grande empresa da época (Banco União), e caiu nas graças do famoso arquiteto Ramos de Azevedo. Ligado ao banco, teve condições de se alfabetizar e aprender desenho, chegando, rapidamente, ao cargo de Mestre de Obras do setor da Carpintaria.
Mesmo trabalhando para o Banco, juntamente com o irmão José, recém chegado da Itália, fundou, na rua Visconde de Parnaíba na Mooca, uma das primeiras padarias da cidade. Estava lançada a semente dos Di Cunto, em um Brasil prestes a se tornar República. Em 1896 os Di Cunto inauguravam a segunda padaria no mesmo bairro, localizada na então Alameda Taubaté, atual Rua Borges de Figueiredo. Em 1900 já com 2 filhos, retornou para a Itália, e por problemas familiares ficou impedido de retornar ao Brasil.
Eu e Meu Chapéu, entre Reinaldo e Marco Di Cunto
Somente em 1934, após a morte de Donato, seus filhos vieram se juntar a Vicente, que ficara no Brasil, para então retomarem a antiga padaria fundada pelo pai e que estava fechada há alguns anos. Após rápidas adaptações, no dia 14 de março de 1935, os irmãos Vicente, Lorenzo, Roberto e Alfredo Di Cunto reacenderam o forno restaurado, iniciando-se, assim, na atividade de Padeiros.
Anos difíceis esperavam os Di Cunto, que enfrentaram desde dificuldades financeiras até falta de matéria prima, culminando com a II Guerra Mundial, e o racionamento de combustível, lenha, carne, e vários produtos essenciais para a aatividade da padaria, como sal, farinha, açucar, gorduras e óleos comestíveis. Somente em 1949 a situação se normalizaria, e a família pode inaugurar a Confeitaria e relançar os Panettones que chegaram aos dias de hoje como sinônimo de qualidade da família de padeiros.
De lá para cá os Di Cunto prosperaram, e hoje, além da matriz da Mooca, também atendem em duas outras unidades , nas especialidades de panificação, confeitaria, rotisserie, biscoitaria, massas frescas e recheadas, além de servir, desde um café, até um almoço completo, em suas instalações.
Mas mesmo o crescimento dos negócios não conseguiu tirar os Di Cunto de suas raízes fortemente fincadas na Mooca, onde todos tem residência. Nem muito menos a simplicidade e simpatia com tratam a clientela. Hoje, os herdeiros Reinaldo, Marco, Antonio e Paula estão à frente dos negócios, fiéis à história e ao espírito de luta do patriarca Donato. Em nossa simpática conversa, Reinaldo conseguiu expressar toda a gratidão ao bairro com uma única frase: “A Mooca é que ensinou a gente a ser assim”.
Marco Di Cunto entre os doces de sua produção.
Unidade Mooca: Rua Borges de Figueiredo, 61/103 – 11 2081-7100
Unidade Tatuapé: Rua Padre Estevão Pernet, 87/91- 11 2295-3577
Unidade Itaim Bibi: Rua Tabapuã, 1.123 – 11 3709-2119
Links relacionados: Aventuras na Zona Leste I, Aventuras na Zona Leste II, Deixa a Mooca me levar
6 comentários Sensacional, este post ficou nota 10!
Adorei conhecer melhor a historia desta familia tao paulistana…
Estou curtindo muito seu blog!
Forte abraco
Ray
Eu Valter fiquei muito contente com as fotos que vi na net
e fiquei com saudade pois já trabalhei com vocês no ano de
1989 gostaria de rever o senhor Reinaldo se possível
tem como me enviar um email( valter19712011@hotmail.com.br)seria muito bom para mim pois ele me ajudou quanto eu mais precisei e queria velo novamente. um abraço .
desculpa me meu email é valter19712011@hotmail.com
aguardo respostas.
Comentar
Com certeza, a única dificuldade é conseguir manter a boca fechada, porque a tentação é grande!
[Responder]
Lee Swain