10
 fev
Crônica
Um escritor sem juízo

Contardo Calligaris tem um texto falando do tal ‘juízo estético’. Ele viu a grande instalação do Christo e da Jeanne-Claude no Central Park de New York e ‘teceu considerações’ muito oportunas sobre juízo estético e os tempos modernos. Mantive acalorada discussão escrita com meu amigo Tom Capri (SP) por uns cinco anos sobre, basicamente, estética. Meu amigo, entre outros tantos argumentos, sustentava que ainda é possível estabelecer ‘obras-primas universais’. Tipo ‘juízo estético universal’: Van Gogh é um gênio para toda a humanidade. Eu achava que, hoje, é impossível estabelecer nada mais que ‘gosto pessoal’ em qualquer coisa. Talvez nunca tenha sido possível o ‘gênio universal’. Conceito como ‘beleza’ é totalmente impossível de ser universal. Dizemos que um quadro de Picasso é genial pro mundo inteiro por uma questão de facilidade. Os esquimós pouco ligam pra ele. E nós pouco ligamos pra opinião deles. Temos que ir por partes, como queria Descartes.

O mundo sempre foi vasto. Hoje é pessoal e intransferível. Consenso é difícil. Unanimidade é burra. Nenhuma obra se impõe por suas qualidades próprias, intrínsecas. Ela depende única e fundamentalmente de quem a vê. E traz pra frente dela toda sua vida e vivência no campo estético. Uma coisa que acho fantástica pode ser apenas água nas penas do pato pra outra pessoa. Estamos cada vez mais sós diante do que ainda se chama de Arte. Cada um com seus recursos de vida enfrenta ou não a obra. Desiste de entender ou tenta achar sentido. Acha bonito e vai embora ou faz questão de ver mais adiante. A resposta emocional de cada um é de cada um. Pra se encontrar outra pessoa com a mesma resposta seria preciso confrontar. Porém, hoje, os confrontos estão cada vez mais escassos. Prefere-se dar de ombros e seguir. Pessoalmente, acho que a arte se transformou em arghte! Cada um engole como pode, digere, rumina ou vomita.

Pra terminar, digo que hoje o que se chama de arte serve mais pro próprio artista. É uma maneira de ele não enlouquecer, de se manter ativo, de se sentir vivo. Mesmo que ele tente a empatia com os apreciadores, fazer arte parece mais coçar o formigamento no pé que foi amputado.

 Tente (piada): Diga pra alguém que acabou de gravar um CD pela Sony. A pessoa dirá: ah, minha netinha de cinco anos já gravou dois. Precisa ver como canta o Bundalelê no apê!

Rui Werneck de Capistrano bateu a moleira quando era criança, e é autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

Postado por Lee Swain às 6:05 | Comentários desativados
3
 fev
Crônica
Rui Werneck na ponta da língua

DIGA NEUROLINGUÍSTICA SEM ENROLAR A LÍNGTUA

Notou como a língua parece minhoca se batendo no asfalto quando você diz essa palavra?

Pois é, eu gosto das coisas ligadas à linguagem. Acho que a fala é o que nos distancia dos animais irracionais. Eles se comunicam do jeito deles, numa linguagem que deciframos como podemos. O jeito do latido nos diz o que estão querendo. Mas, eles não raciocinam.

Nós, ao longo da vida, desenvolvemos uma série de mecanismos automáticos na linguagem. Por ‘esperteza’ tentamos nos antecipar ao que a outra pessoa vai dizer, por exemplo. Daí nasceu a ‘incongruência semântica’. É fácil de perceber, se você tiver um pouco de paciência. Os neurolinguistas fazem mapas do cérebro pra ver de onde vêm os impulsos elétricos quando falamos. Eles medem as descargas elétricas provocadas por frases de vários tipos.

A ‘incongruência semântica’ diz respeito à aflição que dá na pessoa quando outra vai dizendo uma frase aos poucos e ela tenta adivinhar o que vem depois. Os pesquisadores viram que a ativação elétrica do cérebro vai aumentando conforme a frase instiga. E o afluxo de sangue aumenta em certas áreas. Um exemplo clássico, popular, é uma cantiga que tem essa letra:

Quero te fo…

Quero te fo…

Quero te forçosamente

Te pôr nas co…

Te pôr nas co…

Te pôr nas cores mais belas

Tua mãe é uma pu…

Tua mãe é uma pu…

Tua mãe é uma pura donzela

Teu pai deu o cu…

Teu pai deu o cu…

Teu pai deu o coração por ela

Quando você ouve pela primeira vez essa música, seu cérebro deve atingir o ponto máximo de atividade elétrica. Uma verdadeira usina. Os neurolinguistas dizem que o cérebro quer logo completar tudo. E, com isso, provoca na pessoa a ansiedade pelo que virá a ser dito. E, como temos milhares de palavras armazenadas, a ansiedade cresce porque o cérebro tem que pegar a palavra certa e entender o que o interlocutor quer dizer. Se você diz ‘Vá tomar no… ‘, automaticamente a pessoa completa. Isso gera a ‘incongruência semântica’ se você completa com a palavra ‘kung-fu, por exemplo.

Mudando de saco, vejo que a poesia tem que provocar ‘incongruências semânticas’ e fazer com que em cada verso aumente o impulso elétrico. Consequentemente, o leitor fica o tempo todo energizado. É difícil, mas devia ser assim a poesia.

Rui Werneck de Capistrano é neurolinguarudo e também autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

Postado por Lee Swain às 6:35 | Nenhum comentário
27
 jan
Crônica, Sem categoria
Um escritor em busca do sucesso

Confesso que sou fascinado por livros de fórmulas de sucesso empresarial. É uma fraqueza? Não sei, pode ser, não ligo. Desde que comecei a trabalhar com propaganda, 38 anos atrás, leio livros desse assunto. O primeiro foi do David Ogilvy, pai norte-americano dos publicitários. Acho que aprendi muito com ele na maneira redigir anúncios. Passei por vários outros. Claro que as fórmulas mágicas causam riso, mas rir é bom.

Acontece que a gente tem sempre que redigir defesas de campanhas, relatórios de empresas, discursos de empresários e coisas ligadas às empresas. O livro cai como luva. Você pinça conceitos, frases, pitadas de sabedoria e recheia seu texto. Dá sensação de consistência e agrada sempre. Na verdade, é mistério o que faz uma empresa ter sucesso e outra, do mesmo ramo, fracassar. Mistério em termos. Tudo o que é humano não tem mistério. Tem graus de competência, dedicação, vontade, oportunidades, etc. E muita politicagem, falcatruas, corrupção, sacanagens, etc. A mistura de tudo faz a empresa ter sucesso ou fracassar.

Nas revistas atuais de negócios, todos são felizes nas reportagens. É só ir na empresa deles e ver o contrário. As tintas das revistas pintam tudo mais brilhante. Mas os livros dão dicas gerais. Alguns conceitos servem realmente. E eu guardo pra mim. O mais difícil é fazer com que os outros usem. Você diz, o cara escreveu que a gente deve agir assim. A pessoa olha pra você e, como nunca leu nada, dá de ombros pro conceito. Alguns clientes pedem campanhas publicitárias e, quando você diz pra eles que o negócio deles é que deve mudar, que propaganda não salva, eles dão de ombros. Se acham poderosos. E quebram.

Tem um livro já do século passado que tem frases ótimas. O título do livro é Como nadar com os tubarões sem ser comido vivo. Só vou dar as frases, sem mais delongas. Conclua como quiser. 1) O mais importante não é o valor da mercadoria, mas quanto a pessoa acha que ela vale. 2) Tome decisões com o coração e acabará com doença cardíaca. 3) Jamais vi currículo ruim. 4) Aborreça-se facilmente. 4) A prática perfeita leva à perfeição. 5) Ter 1% de alguma coisa é melhor do que administrar 100% de nada. 6) Não basta conhecer as pessoas, o importante é saber como conhecê-las. 7) Sorria e diga NÃO até sua língua sangrar. 8) Aquele que queimar suas pontes tem que ser bom nadador. 9) Jamais feche negócio numa sala que tenha candelabro.

É isso. Eu e meus livros de fórmulas de sucesso. Sem sucesso.

Rui Werneck de Capistrano é um escritor que bateu a porta na cara do sucesso. É também autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

Postado por Lee Swain às 8:31 | 1 comentário
2
 dez
Crônica
Até que o casamento nos separe

Num mundo literalmente tomado,
em pesado compasso de espera,
eu vagava sem eira nem beira
procurando um lugar ao Sol.
Qual nau sem rumo, a duras penas
me equilibrava entre a cruz e a caldeirinha,
apertando o cinto e, com o semblante
carregado, pensava já em pôr na vida
o mais cruel ponto final.
Foi aí que num lance duvidoso
o destino, numa jogada de mestre,
driblou a sorte e, quase ao apagar
das luzes, me entregou você de bandeja
e mão beijada. Fui logo com muita sede
ao pote de mel, mesmo sabendo que era
chover no molhado, pois estava perdidamente
apaixonado e fui traído pela emoção.
Nossa união não foi um mar de rosas
nem um vale de lagrimas, caiu, isso, sim,
como uma luva de boxe em quem matava
cachorro a grito do Oiapoque ao Chuí.
Nessa oportunidade de ouro, joguei
as últimas esperanças e a sete chaves
lá encerrei, na doce ilusão de que assim
agradava a gregos, parentes e troianos.
Agora, de sã consciência, quero tecer
uns comentários pertinentes sem fugir da raia.
Tiro do bolso do colete aquele monte
de cobras e lagartos que você fez chover no meu
telhado de vidro para não deixar passar em
brancas nuvens.

 

Chegou a hora da verdade, depois de um
longo e tenebroso inverno, pois o que você fez
caiu como uma bomba: deu ouvidos à mais
soez intriga e nela montou qual num cavalo
de batalha, despejando chumbo grosso
que atingiu em cheio as bases sólidas
do nosso lar e os laços indissolúveis do sagrado matrimônio.
Eu, marido exemplar, pergunto a você, esposa
dedicada e fiel, por que não fizeste ouvidos
de mercador? Por que não jogaste uma
pá de cal? Por que não puseste em
panos quentes? Por que não usaste as
tuas prendas domésticas para pôr
ordem na casa na data magna
da Cristandade? Eu, aqui, no frio banco dos réus,
suspiro por teu corpo escultural, que agora é
página virada, pois me fez dar com os burros
n’água num escuro beco sem saída.
Por que, num leque de opções,
te agarraste em forças ocultas? Por que
pensaste em trágica ocorrência?
Em sórdidas intenções? Por que mataste
nosso sonho dourado de dois corações em um?
Por que tanto barulho por nada, se dormir com a
empregada também é lugar-comum?

Rui Werneck de Capistrano é a favor do acasalamento na primavera, outono, verão e principalmente no inverno. É também autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

 

 

 

Postado por Lee Swain às 7:21 | 2 comentários
18
 nov
Crônica
O ar nosso de cada dia

Sexta feira que nem parece sexta, no meio de um feriadão deste novembro chuvoso. Mas não se enganem, Rui Werneck não descansa nem com Proclamação da República. E lá vem ele contestando até o ar que respiramos. Durma-se com um barulho destes. Bom fim de semana, boa leitura. Lee Swain

Dez mil litros/dia

 Reaviso.

Prezado usuário, até a presente data não consta dos nossos registros o pagamento da sua conta/fatura do mês anterior. Recomendamos sempre a leitura das cláusulas contidas no seu contrato onde, entre outras de igual importância, está a que estabelece o prazo de pagamento que, uma vez cumprido, evitará sanções administrativas que podem causar graves danos ao usuário, conforme já constatamos em situações semelhantes.

A não quitação dentro do prazo previsto está sujeita à multa – de acordo com decreto presidencial – e, caso o pagamento não ocorra até o trigésimo dia após o vencimento, ficará caracterizado o desinteresse de sua parte em continuar recebendo os dez mil litros de ar/dia a que tem direito pelo decreto estadual nº. 30.568 de 17 de dezembro de 2098.

A empresa enviará seus funcionários identificados e procederá ao desligamento dos instrumentos utilizados para o fornecimento. Não temos interesse no desligamento, uma vez que este procedimento provoca tensão, com aceleração involuntária da respiração pelo consumo extra do coração sobrecarregado, o que traz sérios problemas de gastos e saúde ao usuário e transtornos ao nosso departamento jurídico.

Agradecemos sua atenção e, como empresa fornecedora oficial de ar da cidade, estamos prontos a esclarecer suas dúvidas quanto aos novos racionamentos previstos para os meses de maior demanda. Lembrando que a economia e o bom uso do ar são de suma importância para a cidade, bem como o pagamento em dia evita o corte em áreas de menor poder aquisitivo. Outrossim, pedimos que desconsidere este reaviso caso tenha efetuado o pagamento, mesmo com atraso. E se, por algum motivo, o usuário deixou de respirar, desde o pagamento da última conta/fatura, a empresa envia condolências à família enlutada.

 Cordialmente

AR&CIA

Rui Werneck de Capistrano é a favor do ar para todos e autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

Postado por Lee Swain às 6:00 | Nenhum comentário
11
 nov
Crônica
O destino bate à sua porta

Sexta-feira, a sorte está lançada e o destino está traçado nas linhas de mais uma crônica de Rui Werneck. Bom fim de semana, boa leitura.

Eu tinha (possuía) a cama, um bloco de notas e uma caneta. Criado-mudo ou mesinha de cabeceira, não tinha. Nós quatro — numa noite mais caliente, warm, chaud, hot ou calda — participamos de uma orgia sem precedentes na história das fantasias caseiras. Sei que a cigana me enganou. Disse que eu seria um escritor famoso antes que o galo cantasse. Porém, ele foi para a panela quando ainda nem estava al primo canto e eu ainda escrevia sonetos de pé-quebrado e mãos tortas.

Qual não foi minha surpresa, na manhã seguinte — ao fazer uso dos apontamentos daquela longa noite de envolvimento com a cama, o bloco de notas e a caneta — quando descobri que ali estava o esboço de algo que poderia chamar de conto — segundo a aclamada definição do afamado estudioso Ramsés III. Enrubesci lendo algumas passagens. Gelei lendo outras. Tinha, além do alto teor de sensualidade, uma linguagem comovente, rangente e pegante. Duvidei da possibilidade de ser eu mesmo o autor e tentei imaginar o que havia rolado na noite anterior para que o resultado fosse tão luxuriante. Nuvens negras carregadas de esquecimento e ressentimento invadiram minha mente. Choveu forte sobre variantes, variáveis, conceitos e ponderações. Para amainar o frisson coloquei o pseudônimo Lorpa Longneck e engavetei.

No entanto, profissionais altamente qualificados do ramo literário — que faziam a limpeza semanal do quarto — logo descobriram a obra e quiseram publicar — e o fizeram a todo custo — quero dizer ‘sem pagar nada’ — numa revista literária de grande categoria. Pronto! Sim-salabim! Eureca! Avanti! Abre-te, Sésamo! Uma caixa de supermercados desmaiou ao ler no ônibus. Um corretor de seguros tentou se jogar da sacada da empresa – por sorte não havia sacada. Todas as anchovas fêmeas de um cardume entraram no cio ao mesmo tempo. Um rio subiu a serra e desaguou na nascente. Os membros de um coral, na Alemanha, começaram a cantar atirei o pau no gato no meio de La traviatta. Rupert Updergraff comeu as duas orelhas do seu cachorro de estimação. Um político do Nordeste devolveu o dinheiro da maracutaia. Enfim, a repercussão da leitura do conto foi o que foi — abalou, estrondeou.

A mídia procurou Lorpa Longneck até na cadeia! Sem achar, claro. Hoje, graças ao bom deus, sou apenas um mediano vitrinista de loja no Braz. Estou consciente de que não se deve cutucar a imaginação com história curta ou longa. Peço perdão se escrevo estas simples memórias sem lembrar muito bem do que aconteceu. E se rechaço cama, blocos de notas e canetas para uma relação duradoura.

Rui Werneck de Capistrano é jogador de búzios e autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

 

 

 

Postado por Lee Swain às 7:27 | 4 comentários
21
 out
Crônica
Crônica da sexta-feira passada

Rui Werneck ficou de fora do blog do Meu Chapéu na sexta feira passada por conta de uma gripe avassaladora que me atropelou sem dó nem piedade. Tem uma sexta de crédito comigo. Doce leitura.

Cada planeta coloca o seu céu no planeta vizinho

 Tem uma hora em que você precisa urgentemente de um doce. No momento em que uma estrela pisca lá no infinito, por exemplo. Depois de passar no supermercado mais próximo, entram os ingredientes em campo: chocolate ao leite (açúcar, manteiga de cacau, leite em pó integral, massa de cacau, soro de leite, lecitina de soja, extrato natural de baunilha), xarope de glicose, açúcar, amendoim torrado, flocos de arroz, albumina, amido de arroz, óleo de soja, extrato natural de baunilha e estabilizante lecitina de soja.

Se você não entender nada, pode tentar em inglês: milk chocolate (sugar, cocoa butter, whole powderer milk, cocoa mass, whey powder, soy lecitin, natural vanilla flavoring), corn syrup, sugar, toasted peanut, rice crispies, albumin, rice flour, soy oil, natural vanilla flavoring and soy lecitin. Não adivinhou, ainda? Vamos para o castelhano: chocolate com leche (azúcar, manteguilla de cacao, leche entera en polvo, masa de cacao, suero de leche, lecitina de soya, aromatizante natural vainilla), jarabe de glucosa, azúcar, maní tostado, copos de arroz, albúmina, almidón de arroz, aceite de soya, aromatizante natural vainilla y lecitina de soya.

Some o trabalho que deu para fabricar cada ingrediente: quem fabricou o açúcar não fabricou o óleo de soja, quem produziu a manteiga de cacau não fez o amendoim torrado. E vai por aí até o fim dos séculos. Até que alguém ainda por cima pesquisou e descobriu que o doce que você comprou nasceu em Cremona (Itália), em 1441, para celebrar o casamento de Francesco Sforza com Bianca Marie. Os confeiteiros, na ânsia de agradar os nubentes, criaram um doce especial com nozes, mel e clara de ovos no formato da famosa torre da cidade que se chamava Torr’lone.

Quinhentos e setenta anos depois, você está satisfazendo o desejo urgente de comer um doce que, da receita primitiva, só guardou o nome: Torrone. Mas que é delicioso, é! Principalmente se for coberto com chocolate ao leite. Turrón de maní cubierto con chocolate. Ah, se Francesco e Bianca foram felizes no casamento? Não sei, mas é uma boa pergunta, não é?

Rui Werneck de Capistrano é consultor de ritmos energicamente produtivos e autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

Postado por Lee Swain às 6:02 | 1 comentário
7
 out
Crônica
Cultura inútil à la carte

Sexta feira, dia de feijoada no Rio de Janeiro, e de crônica do Rui Werneck, de Curitiba. Hoje com um prato cheio de curiosidades inúteis, e deliciosamente dispensáveis. Sirva-se à vontade.

Só 3% da energia consumida por uma lâmpada resultam em luz. Os outros 97% são liberados em forma de calor.

A cascavel tem uma segunda visão: são duas covas profundas entre os olhos vermelhos. Pode fechar ambos os olhos normais dela e ela detecta, com exatidão, a presa de sangue quente na escuridão.

Os morcegos não são totalmente cegos na penumbra. Mas, na escuridão, orientam-se pelo eco dos sons que emitem. Cientistas ficaram surpresos: mesmo produzindo sons com uma intensidade 2000 vezes superior e na mesma frequência dos morcegos — para atrapalhá-los — eles continuaram se orientando normalmente.

O ser humano médio é capaz de distinguir dez mil cheiros diferentes.

Um macho detecta o cheiro da secreção hormonal da borboleta fêmea a 11 km de distância.

Apenas um ovo de caracol comum, do tamanho de uma cabeça de alfinete, contém um produto químico suficiente para classificar nossos grupos sanguíneos. A mesma tarefa exigiria sangue de cinco doadores humanos.

Um casal de elefantes brinca, simula lutas de tração com as trombas enroladas… por semanas… antes de consumar o ato sexual.

A Austrália tem as cobras mais venenosas do mundo. Mas apenas seis pessoas/ano morrem picadas por elas. O veneno da serpente-tigre sul-australiana é tão potente que apenas 0,609 mg matam um homem.

Agora, nunca mexa com a medusa acalefa. Alguns biólogos, que preferem não se identificar para evitar retaliações, classificam o veneno dela como o mais potente de todos. Em apenas alguns minutos, ele causa transpiração abundante, cegueira, falta de ar e morte.

E chegou a primavera envolta em folhas verdes. Penso em Barbara, Ph.D. e meu coração bate feliz, destruindo as placas de gelo que o envolvem. Mas, nada acontece. Apenas o ruído das placas derretendo, tal como o som da aranha sugando as entranhas de uma mosca.

Rui Werneck de Capistrano é consultor de ritmos energicamente produtivos e autor de Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

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30
 set
Crônica
De máquinas e amores

Úlitma sexta feira do mês. E nem por isso poderia faltar a crônica do Rui Werneck, que chega na ponta dos pés, com sua escandalosa linguagem silenciosa. Boa leitura e bom fim de semana.

Cai uma chuva ensimesmada e cheia de noves-fora. Abri meu baú de coisas futuras e dei de cara com um mega-evento — tipo o exemplar de A linguagem silenciosa, de Torthon Wild, um brilhante mecânico de automóveis de Arapiraca. Tá ligado? Se não está, pode ser problema de bateria. Vamos em frente ou em marca a ré.

De todas as linguagens do ser humano, a silenciosa é, por definição, a menos barulhenta, mas não menos causadora de barulho. Pode ser um paradoxo de dois gumes, mas vamos analisar friamente a questão. Se você é um homem maduro, desses que andam por aí ou param na Boca Maldita, pode causar tremendo barulho se fizer um sinal silencioso de interesse para a mulher do próximo — principalmente se ele estiver próximo dela. Se já se convenceu dessa possibilidade, vamos agora examinar o carburador e a maldita bomba de gasolina que sempre entope.

Preste atenção — quando receber uma mulher em sua casa — aos detalhes que podem custar sua vida na estrada. Se ela chegar e sentar na beira do sofá, a situação não é promissora. Se conservar a bolsa no colo, pior ainda. Se aceitar uma xícara de café e nem colocá-la sobre a mesa de centro pra dar um descanso, preferindo tomar de um gole o conteúdo pelando… Bem, aí você já pode se preparar pra assistir o Programa do Jô sozinho e mal pago.

Não quero desanimar você, que deve se achar um belo conquistador de carros e um ótimo entendedor de mulheres. Um simples curto circuito pode estragar a sonhada viagem ao Paraguai. Faça boa revisão e leve todas as peças sobressalentes que puder — de um simples fusível até os kits completos de suspensão e de caixa de câmbio. Nunca se sabe! Voltando à mulher — bem, ela já deve ter ido embora, pois não sentou confortavelmente, não largou a bolsa no sofá, não deixou o café esfriar, não cruzou as pernas, e, pior, nem pediu pra ir ao banheiro. Enfrente a situação com toda dignidade — o estepe deve ser calibrado toda vez que for calibrar os quatro pneus. Claro que ele está sempre num lugar de difícil acesso, mas se você tivesse se preparado para o momento, teria colocado música, diminuído a luz, disposto um prato com aperitivos na mesa de centro, um balde de gelo e a garrafa da bebida favorita dela. E deixado a porta do quarto entreaberta. Além de verificar o sistema de freios e o nível de óleo. No declive, use freio motor!

Considere: seu comportamento interpessoal precisa passar por uma revisão completa. Se você for a uma autorizada, vão pedir o olho da cara e podem trocar peças que nem estejam tão ruins — a preponderância do tórax, a cabeça erguida – que significa hipertrofia da atitude mental – e o dispositivo psicofisiológico. No seu mecânico de confiança, as coisas podem pender para resolver o lado da hostilidade reprimida, auto-agressão, resistência passiva, invasão de território e até da regressão a um estado infantil. Mas, se você conversar direitinho, ele dá um jeitinho e até parcela a dívida. Aí, pode sair acelerando à vontade e ir em busca de uma união amistosa e prazerosa, de uma expectativa de continuidade de relação extra-campo ou no território inóspito da tensão matrimonial. Tá ligado? Acelera, Mané!

Rui Werneck de Capistrano
é consultor de ritmos energicamente produtivos e autor de
Nem bobo nem nada, romancélere de 150 capítulos.

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16
 set
Crônica
O segredo das sombras

Só me dei conta de que era sexta feira quando vi o email do Rui Werneck enviando pontualmente sua crônica para o blog do Meu Chapéu. E hoje, para compensar a nossa falta por motivo de viagem da semana passada, o Werneck descarregou não uma crônica, mas um Tratado Geral para os leitores deste blog. Bom proveito e bom fim de semana to everybody. Lee Swain


Passei a última semana envolvido por sombras. Você tem o direito de perguntar o que seria isso. Sim, tem todo o direito de chegar à luz do entendimento logo no começo da minha história. Eu conto.

A origem das coisas sempre me intrigou. Muitas vezes me pego admirado com as invenções. Por exemplo, quem teve a brilhante idéia de construir edifícios redondos? E que, ainda por cima, giram em torno de um eixo fazendo com que o dono do apartamento possa ver todas as paisagens sem sair do quarto? Não seria mais simples o dono usar os pés e ir de um cômodo ao outro pra olhar a paisagem? Não, ele tem que ligar um mecanismo complicado — e caro — que faz com que tudo gire e ele possa contemplar a paisagem. O cúmulo da sofisticação. Cá pra nós, já notou que quase ninguém usa mais as sacadas ou varandas dos apartamentos? Só quando chega visita é que o dono corre mostrar a excelente vista que ele tem lá do alto. Porém, ele mesmo nunca tem a preocupação de saber se o dia está bonito ou nevoento. A televisão informa as condições climáticas. Assim, de admiração em admiração, chegou o ponto em que me preocupei com a origem da sombra.

Você sabia que o que chamamos de noite é apenas a sombra da Terra em si? E que um eclipse lunar só pode ocorrer com a lua cheia? E que as fases da lua nada têm a ver com a sombra que a Terra projetaria no satélite? As perguntas são tantas e, por isso, resolvi escrever um tratado, embora não soubesse como. Acumulei conhecimentos de todos os lados — livros, vídeos, aulas, enciclopédias.

Depois de quatrocentas páginas suadas, sofridas e cuidadosamente organizadas, dei por findo o trabalho. Tentei reler, relutando, e achar um nome. Demorei dois anos pra reler e entender alguma coisa. O nome estava difícil de sair. Pensei em Tratado Geral das Correntes Alternadas quando Jovens. Li de novo na diagonal meu volumoso microescrito e não achei nada sobre eletricidade. Consultei amigos e dois deles se dispuseram a ler a primeira página da introdução. Na sexta linha do primeiro parágrafo pararam, exaustos, e foram unânimes em afirmar que o melhor nome seria Tratado Geral das Coisas. Eles acreditaram, em conjunto, que alguma coisa deveria ter ali. Agradeci e mudei. Logo comecei a divagar e achei que podia mudar tudo, uma vez que ‘coisas’ é vago o suficiente pra que eu propusesse uma nova forma de se olhar a vida a partir de um dente de alho e desentortar pregos com salto de sapato. Acrescentei em Si’ ao título e fiquei contente: Tratado Geral das Coisas em Si. Ficou com ar estruturalista e filosófico. Oem Si’ geraria certa expectativa nos criadores de caprinos e talvez isso rendesse um artigo elogioso na revista Caras & Bocas, que sempre publica receitas de bolos e assalto a banco.

Assim, depois de mais uns dois dias, havia reescrito as quatrocentas páginas, acrescentando um pós-escrito de cem laudas. Aí aglomerei apenas dicas de como coçar o saco nas férias sem importunar o próximo ou o mais distante. No final das contas, hoje posso dizer que sou autor de um tratado. Estou emparelhado, intelectualmente, com Montaigne, Galileu, Montesquieu e Virgulino Lampião. Quantos vendedores de sorvete podem dizer o mesmo?

Mas e a sombra? Ela é realmente uma coisa complicada e delicada. Complicada porque não se sabe a sua origem. Delicada porque não tem espessura nem substância. Por isso, até sua existência é contestada pelos cientistas. Mas ela está ali, ó, bem debaixo do teu pé. Não levante o pé porque ela some. A sombra tem vários apelidos. O mais tenebroso é treva. A partir dessa palavra você imagina filmes de terror, fantasmas, sensação de frio e de solidão, histórias de arrepiar. Tudo de ruim acontece na sombra. Só que ela não é tão feia assim como se pinta. Afinal, você corre buscar um lugar à sombra numa praia fervendo ou à beira da piscina num dia de verão. Sem sombra de dúvida.

Gostaria de passar pra outro item do meu tratado, mas a sombra é grande e forte. Agora está frio e um solzinho faria muito bem. A sombra é muito legal. Ela é bastante honesta e só ocupa os lugares que a luz não quer. Fica no seu cantinho. E apesar de o Sol, com sua luz e seu calor, ser fundamental pra nós, pra mim a sombra tem lugar de real importância. O Sol é símbolo de vida. Tem filmes e livros com títulos marcantes: O Sol por testemunha, Um lugar ao Sol, O Sol também se levanta, O Sol nasceu para todos, O império do Sol, etc. Já a sombra está presente num dos mais bonitos títulos de livros do mundo: À sombra das raparigas em flor.

Rui Werneck de Capistrano
está à sombra dos maiores escritores do mundo.

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2
 set
Crônica
O Homem que escrevia

O exercício criativo envolve camadas muito profundas da Terra. Não é como plantar batatinhas ou abóbora. Muitas pessoas começam a escrever simplesmente porque têm lápis e papel à mão. Outras porque está chovendo e fazendo frio e não é possível sair pra bater pernas na rua. Outras sentem no fundo da personalidade as letras se mexendo, como um amontoado de vermes, e querem pôr para fora à custa do vermífugo literário, não importa a hora do dia ou da noite. Às vezes, até no lulu da madruga.

Uma tia minha começou a escrever furiosamente depois que morreu seu gato de estimação. Ela se sentiu perdidamente desolada e não tinha nenhuma atração pelo convívio com um ser humano qualquer. Joseph Conrad viajou em navios mercantes durante 16 anos antes de escrever a primeira linha. A. J. Cronin era médico, com clínica particular e tudo, mas rabiscava, ainda bem que não com letra indecifrável de médico, seus romances. Conan Doyle, também médico, criou Sherlock Holmes como passatempo entre uma consulta e outra. Devia ter poucos clientes – elementar, meu caro Watson! Herman Melville foi, durante 20 anos, um obscuro funcionário de alfândega. Depois saiu à caça da baleia literária Moby Dick. Isak Dinesen (baronesa Karen Blixen de Rungstedlund) só começou a escrever depois de ter arruinada sua fazenda africana pela queda violenta do preço do café. Miguel de Cervantes só escreveu a continuação de Dom Quixote porque um espertinho lançou uma suposta segunda parte do livro.

Em compensação, Kline Burack, zeloso cuidador dos bichos do DenverZoo, escreveu durante os 25 anos em que passou limpando jaulas de leões e tigres. Só parou quando teve o braço direito arrancado por um tigre que odiava seus escritos. O tigre gostava de J. D. Salinger e comia todos os que fossem contra.

As águas turvas da terrível barragem das rejeições podem atingir qualquer um quando ela arrebenta. É preciso ter força sobre-humana para resistir ao riso de um tigre esfomeado e amante de Salinger. É preciso ser paciente diante de uma senhora que diz: Isso até meu filho de oito anos escreve! É preciso saber sorrir quando um tio aconselha: Por que não escreve livros como os do Paulo Coelho? Ele está rico!

Exercício criativo provoca hérnia capilar, mas é melhor do que…

Rui Werneck de Capistrano
Rui Werneck escreve pra descobrir por que escreve.

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26
 ago
Crônica
O dinheiro e a felicidade

A última sexta-feira feira de agosto fecha curto e grosso, com Rui Werneck de Capistrano jogando um balde de água fria nos românticos de plantão que ainda acreditavam na inspiração da pobreza. Se o dinheiro não traz a felicidade, como dizia um comerical de whisky, manda buscar. Boa leitura.

ALMA CÂNCER DINHEIRO POBREZA FERRÃO ANSIEDADE TOLOS AGUILHÃO CARNE ASAS HUMILHAÇÃO SEXTO SENTIDO DESPREZO HIPÓCRITAS DEGRADANTE DINHEIRO SUBSISTÊNCIA INSIGNIFICANTE ANSIEDADE ALMA ASAS ALMA ALMA ALADA ALMA ALMA ACALMA

“Não há nada tão degradante como a ansiedade constante sobre os meios de subsistência. Não sinto senão desprezo pelas pessoas que desprezam o dinheiro. São hipócritas ou tolos. O dinheiro é como um sexto sentido sem o qual não se pode fazer uso completo dos outros. Certas pessoas dizem que a pobreza é o melhor aguilhão para o artista. É que nunca sentiram seu ferrão em sua própria carne. Não sabem como a pobreza torna a gente insignificante. Expõe a uma humilhação sem fim, corta-nos as asas, come-nos a alma como um câncer.” (Somerset Maugham, Servidão Humana)

ALMA CÂNCER DINHEIRO POBREZA FERRÃO ANSIEDADE TOLOS AGUILHÃO CARNE ASAS HUMILHAÇÃO SEXTO SENTIDO DESPREZO HIPÓCRITAS ARTISTA DEGRADANTE SUBSISTÊNCIA INSIGNIFICANTE ANSIEDADE DINHEIRO ASAS ALMA ALMA ALMA ALADA ALMA ALMA ACALMA

Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA
, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.

 

 

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 ago
Crônica
Já Hera

Por Zeus, já é sexta feira! Como sempre, é dia de Rui Werneck aqui no blog do Meu Chapéu. Que hoje nos revela detalhes da vida íntima dos Deuses do Olimpo. Sim, porque lá também rolavam barracos e baixarias, que só vinham a público pelas tempestades, tornados e furacões que se abatiam sobre a velha Grécia. Boa leitura e bom fim de semana.

Hera e Zeus, casados e infelizes para sempre. 

Hera era casada com Zeus, pai dos deuses e dos homens. Por isso, era protetora do amor legítimo e das esposas. Zeus era o bicho e caía na gandaia fácil, fácil. Traía a pobre a torto e a direito. Ela se vingava nos outros. Foi a responsável por mandar Hércules fazer aqueles doze trabalhinhos. Hércules era filho ilegítimo de Zeus e Alcmena e, por isso, servia de parque de diversões para Hera. Um dia, quando Hércules vinha cansadão depois de ter tomado Tróia no muque, Hera mandou uma tempestade chacoalhar o navio dele. Zeus ficou furioso e pendurou Hera de ponta-cabeça numa nuvem com uma corrente de ouro e uma bigorna em cada pé. E foi tomar um vinho para acalmar.

A vigilância de Hera era tão grande que Zeus tinha que se transformar em cisne, touro, chuva de ouro e marido da amante. Com ‘chuva de ouro’ ficou em segundo lugar no concurso de fantasias do Copacabana, categoria luxo. Como marido da amante, levou chifre dele mesmo — Zeus — transformado em cisne. E Zeus disfarçava quem queria proteger: Io virou vaca, Dionísio virou bode e touro. Só o bode não entrou no jogo do bicho, mas é o que mais dá na vida. O bicho pegava mesmo naqueles tempos, como se pode ver. Hoje, sem deuses nem mitos, vive-se por aí, sob a ira das esposas que até contratam matadores de aluguel. Pum, pum! Alea jacta est.

Hera que não era o que parecia, parte 2

Certa vez, Hera discutiu com o marido para saber quem conseguia maior prazer no amor: o homem ou a mulher. Zeus dizia ser a mulher, enquanto Hera achava que era o homem. Nessa briguinha familiar resolveram incluir Tirésias, que tivera experiência dos dois sexos. Ele caiu na asneira de dizer que o prazer da mulher estava na proporção de dez para um do homem. Furiosa com a derrota, Hera prontamente o cegou. Tirésias virou repentista cego lá no Ceará, para deixar de ser bobo. E até hoje os psicólogos e adjacências tentam saber quem tem mais prazer. Sorte deles que não tem uma Hera por perto.

Rui Werneck de Capistrano
é humorista sério e autor de Nem bobo nem nada (2009), romancélere de 150 capítulos. 

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12
 ago
Crônica
Se líquido fosse, bebê-lo-ia

Por muito pouco, não é uma sexta feira 13 esta de hoje. Pra nossa sorte. E neste quase dia de mau augúrio, uma fresta de luz se abre com esta crônica líquida que Rui Werneck propõe aos leitores do Meu Chapéu. Pra ler e tomar de canudinho.

Era uma vez, há milhões e milhões de anos, um átomo de oxigênio que vagava sozinho pela vida. Nada pra fazer, nada pra sonhar. Apenas vagar pelo espaço esbarrando em outros átomos que nada tinham a ver com ele. E ele queria um amigo. Uma amizade estreita e duradoura.

De tanto procurar, um dia encontrou dois errantes navegantes: átomos de hidrogênio. Conversa vai, conversa vem, ficaram amigos. Estavam sempre tão juntos que acabaram se transformando numa estrutura molecular simples, porém muito atraente. Nascia nova substância no Universo: água.

A união deu tão certo que milhões de outros átomos de oxigênio e hidrogênio tornaram-se amigos. E foi aquela água. Num instante choveu, os mares se encheram, os rios correram, os lagos alagaram, os lençóis subterrâneos se formaram. A Terra passou a ser quase inteira líquida. Os bichos que iam nascendo passaram a apreciar o tal líquido, as plantas, idem. Já as pedras e os franceses não foram muito com a cara e não aderiram.

Os peixes e outros habitantes do mar, em reunião geral, baixaram ata pra que a água fosse vital a eles. Iriam viver e criar os filhos nela. Um humorista, séculos depois, diria: ‘Não bebo água: os peixes transam nela!’ O ser humano, sempre ele, com sua capacidade de dar emprego a tudo o que aparece, foi pondo água em tudo. Inventou o banho, embora alguns povos não sejam adeptos. Inventou piscina pra se refrescar por fora e suco pra refrescar por dentro. Inventou a sacanagem de botar mais água no feijão e em certos líquidos tomáveis pra lucrar mais.

Inventou morrer afogado em cavas e rios pouco recomendáveis. Inventou lavar as roupas. Inventou atravessar os oceanos pra ir bisbilhotar outros continentes. O ser humano inventou tudo com a água. Ela serve pra tudo e mais um pouco. Se não tivesse água na Terra, a gente não teria as belas mulheres nas praias. E os automóveis invadiriam toda a extensão territorial do mundo. Que poluição imensa!

A água é tão simples, mas ainda não pode ser feita em laboratório! Um átomo de oxigênio e dois de hidrogênio ligados por uma estrutura em ‘V’. No vértice fica o oxigênio e nas pontas os átomos de hidrogênio. Essa ‘química perfeita’ tem o nome de ‘ponte de hidrogênio’. Um dia, o Clint Eastwood vai acabar filmando a vida deles: As pontes de hidrogênio.

A água é tão simples que dá medo. E é tamanho seu desperdício, que já se teme que acabe. Tem uma característica que é única entre os líquidos: quando solidifica, em forma de gelo, perde densidade. Gelo flutua na água. Os lagos não congelam totalmente por causa disso. E a vida nele se salva. Os esquimós descobriram que a água de um lago congelado não é muito fria. Assim, construíram iglus e o gelo serve como isolante térmico. Dentro do iglu é mais quente do que fora. Legal, né? Agora, depois de tanto falar em água, me deu sede. Que tal uma cerveja bem gelada? Antarctica, por favor.

 Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA
, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.

Ilustração: tela de René Magritte 

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5
 ago
Crônica
Uma noite de vinte anos

Sexta feira lembra sábado, lembra véspera de fim de semana, e lembra que é dia de crônica do Rui Werneck, o homem que veio do frio. E falando em frio, ponha mais lenha na lareira e prepare-se para conhecer um dos trechos mais gelados da literatura abaixo do Trópico de Capricórnio. Boa leitura.

Ilustração: Victor Matsunaga

Não era apenas uma noite. Era a noite. Gelada. Limpa. Cortando como uma noite de Cabíria, com vagas estrelas da Ursa maior. Uma noite curitibana. Perfeita para casa, recolhimento e cama.

Só um programa descoberto por acaso no cine-extra, como Ladrões de bicicleta, poderia tirá-lo do aconchego. Um só pecado. E isso só porque algumas imagens desgarram-se do celulóide e foram remontadas na moviola da memória: discussões intermináveis sobre a importância do neo-realismo italiano, o rastro de miséria deixado pela Grande Guerra, o sofrimento do povo italiano, aqueles, sim, eram tempos difíceis, o roubo como forma única de sobrevivência, a nouvelle vague francesa, o caleidoscópio felliniano, a incomunicabilidade dos longos planos do Antonioni, a moça com a valise, a emoção vazada nos olhos do menino Bruno, a história, em off, de que teriam colocado cigarros no bolso dele para fazê-lo chorar em cena, a perambulação pelas ruas vazias de Curitiba, tomando sereno e fogo paulista, o último pernil com verde no Cachorro Quente. Tempos duros. Felizmente eclipsados.

Mais de vinte anos esta noite. E só por isso ele se dispôs a sair de casa. E ir ao cinema.

O coração dava marcha a ré enquanto ele acelerava o carro. Cine Riviera, antigo Santa Maria. Ele e os amigos boas-vidas. Ele, o demônio das onze horas. Dos anos 60. Advogado… peguei-o! Era mais do que um ano passado em Marienbad.

No cinema, à meia-luz — ou seria apenas seu coração que se negava a enxergar a realidade? —, a saudação muda a todos os velhos conhecidos. Ciao, caros! Atrás da tela, só faltavam A place in the Sun e o gongo soando. Um desfile de casacos e capotes. E, de repente, nos olhos do menino Bruno passa todo o filme da sua vida. Planos falhos, tomadas inconclusas, cortes doloridos, roteiro em transe.

Ele só foi despertado na saída. Uma bomba sobre Hiroxima, seu velho amor! Haviam roubado o carro dele na porta do cinema.

Rui Werneck de Capistrano
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22
 jul
Crônica
Dando milho pra bicicleta

Nem parece, mas já é sexta feira. A semana passou rápida ou fui eu que corri demais? Bem, o que importa é que é dia de mais uma crônica do Rui Werneck de Capistrano, que hoje vem ligado no 220, com um tema científico para os leitores do Meu Chapéu. Boa leitura.


Não, você não leu direito o título. Ele não queria inventar a Máquina do Tempo. A perseguida por tantos e tantos cientistas sérios ou malucos. Aquela de ir e vir no tempo. De visitar a infância ou a velhice.

O que ele queria mesmo era inventar a Máquina de Passar Tempo. Só isso. Por onde começar? Que apetrechos usar? Melhor pensar. Sentou na melhor poltrona da casa e lá ficou. Zen. Quase nem. Sem porém. Cinco horas mais tarde, ainda estava pensando. Precisaria energia elétrica? Pneus de bicicleta, acelerador de partículas, cartas de baralho? Indeciso, pensava.

Logo mais apalpou a poltrona, o tecido macio, e resolveu começar por ela. Adaptou um volante de automóvel, um dial de rádio, motor de liquidificador. Daí em diante, foi fácil. Uma cúpula de abajur, dois garfos e uma faca, uma pá de ventilador, roldanas de persiana. Ficou dois dias indeciso entre uma ou cinco cordas de violão. Decidiu por cinco. Pelos dez dias seguintes visitou ferros-velhos e catou tudo que parecia bom de usar. A família estranhou, os vizinhos balançaram a cabeça. Noite e dia ele pregava, serrava, soldava. Lógico que correu a notícia de que ele endoidara. Pirou. Está dando milho para bicicleta. Jogando queda de braço com toca-discos. Até que, num belo dia de chuva, ele abriu a casa para os curiosos.

 — Vejam! Vejam! Inventei a Máquina de Passar Tempo!

Risos, muxoxos, bocas franzidas.

 — Não acreditam, né? Pois, olhem: comecei a fabricá-la no dia 29 de novembro de 1993. O calendário mostra que hoje é 23 de novembro de 1994 e eu nem senti o tempo passar. Ela fez passar um ano inteiro! E o melhor vem agora: ela nem está pronta ainda! Pelos meus cálculos e estudos, acho que preciso de mais uns dez ou doze anos. Isso se eu achar todas as peças.

Agora, pronta, pronta, funcionando sem nenhum barulhinho, leva ainda uns trinta anos. Aí, posso requerer patente. E revender. Mas isso, isso se eu não descobrir um jeito de modernizá-la, colocando peças tecnologicamente mais avançadas, ecologicamente corretas. Bom, aí vão mais uns cinquenta anos. Acreditam? Não? Esperem pra ver. Esperem pra ver…

Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA
, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.

 

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21
 jul
Arte, Comportamento, Crônica
Os dois lados do desconforto

Após uma estréia de retumbante sucesso de público e crítica, nossa colaboradora das quintas feiras, Tokie Esaka, volta a visitar a Zona de Desconforto. Desta vez tendo nosso próprio cérebro e seus dois lados como objeto de estudo. E para ilustrar sua teoria, Tokie nos coloca frente a um trabalho genial. O resto é com ela. 


Um talentoso poeta poderia ser um exímio homem de negócios? Ou um engenheiro japonês, um ótimo sambista? Será? Quem disse que não?

Laurent Laveder é um desses caras que trabalha os dois lados do cérebro e mostra que é possível ter sensibilidade e precisão ao mesmo tempo. Francês radicado na Inglaterra, jornalista científico e fotógrafo, ele sempre teve fascínio pela Lua.

Para a criação do seu ensaio fotográfico “Moon Games”, ele calculou local / hora exata dos movimentos da Lua e criou estas lindas pinturas em forma de fotografia. E claro, sem recursos de photoshop. Seria muita zona de conforto…

A beleza da sua obra não está presente apenas no resultado final e sim, no processo criativo e na convicção de sua idéia. “Há muitos anos a fotografia é minha paixão. Essa mídia me fascina: conseguir imortalizar um momento é algo mágico! Sinto prazer em desvendar o exato ângulo e ponto de vista  de uma cena que transmite certa emoção e sentido. Ou instigar interesse por uma cena que normalmente se passa desapercebida. Meus interesses pela ciência (tenho uma formação científica) e também pela fotografia me estimulam o desejo de imortalizar os fenômenos físicos. Há muito para se ver para aqueles que buscam e exercitam o olhar.”

E falando em Lua, vocês a viram esta semana?  Ela se mostrou linda, faceira, toda cheia de graça. Todos que observaram o céu não se arrependeram… Agora, os que perderam, não se preocupem. Nunca é tarde para contemplá-la.
“Quando falo das pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.” 

Sábia Cecilia Meireles!

O que está diante de sua janela hoje?

Tokie Esaka é Creative Manager da Disney no Brasil e professora de Design Emocional no curso de Master do Instituto Europeu de Design. Nas horas vagas, treina para a próxima meia-maratona de Nova York.


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15
 jul
Crônica
As vantagens do Halzheimer

Tudo na vida tem dois lados,  já dizia Platão, o inventor dos diálogos. Perder a memória aparentemente só tem desvantagens, acho que todos concordam. Quem não treme diante da sombra do hediondo alemão, Her Halzheimer?

Pois seguindo a lógica de ver os dois lados de cada questão, consegui achar uma vantagem em meu adiantado estado de perda de memória. Imagine que ontem, passeando pelas redes sociais, ouvi uma canção belíssima, com um dos meus cantores e compositores americanos preferidos. Imediatamente pensei em postá-lo para os meus poucos mas fiéis leitores. Confiando na memória, não anotei nada. E à noitinha, diante da tela do lap top, um branco total. Não me vinha nem com reza brava o nome do dito, por mais que me recordasse claramente da sua cara amarrotada e da sua voz de ressaca. Recorri ao Meu Chapéu, que se fez de morto e desconversou.

Não me conformei, e comecei a fazer o exercício do abecedário, indo de A a Z duas vezes, e nada. Já dando a questão por perdida, lembrei que além de cantor, o artista também atuara em vários filmes. Eureka! Como era mesmo o nome do filme que ele participou junto a Roberto Begnini e John Lurie?  Santo Google! Down By Law, de Jim Jamursch! Assim, procurando por uma canção, acabei chegando em uma das cenas mais hilárias de todos os tempos do cinema, onde os presidiários Jack, Zack e Roberto fazem o inesquecível coro “I scream for Ice cream, We all scream for Ice cream”. E assim, por linhas tortas entre o córtex e o cerebelo, acabei chegando onde não me lembrava: no inconfundível, incomparável, indescritível e só não posso dizer inesquecível Tom Waits. O nome da música? Bem, deixa eu ver, como era mesmo…

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15
 jul
Crônica
Desenrolando a língua

It’s friday! É Venerdi! Es el viernes! Já é sexta feira, dia do Rui Werneck de Capistrano contar para os leitores do Meu Chapéu quantas barbaridades já foram cometidas a mão desarmada por tradutores, a sangue frio, sem o menor remorso. Voilá, Werneck, go ahead! Non ti fermare.

TRADUÇÕES/TRANSLATIONS/TRADUCTIONS

Sempre a mesma luta. Um título que o autor às vezes fica horas, dias, anos pensando e pesando, desaparece na tradução. O tradutor – ou o editor – sempre acha fraco o título que o autor deu. Sempre acha que o leitor do seu país não vai entender. Precisa de bula pra sacar. O editor, que só quer vender, dá força pro tradutor mexer à vontade, adaptar e resolver o problema. Os editores da França confessam que mudam mesmo. Tem autores que brigam muito pelo original. Outros dobram-se à oportunidade de serem lidos pelos franceses.

Veja os títulos de livros em inglês que foram mudados em francês. Alguns deles vieram pro Brasil, e ficaram até famosos, com nomes trocados. Ora traduzidos do francês, ora do inglês. Mas… e o pobre autor, onde fica?

 1. Paul Bowles: The sheltering sky – Un thé au Sahara – O céu que nos protege

2. Charles Bukowski: Erections, ejaculations, exhibitions and general tales os ordinary madness – Contes de la folie ordinaire – Histórias de um velho safado – Ereções, ejaculações, exibições

3. Truman Capote: Other voices, other rooms – Les domaines hantés -

4. Raymond Carver: Cathedral – Les vitamines du bonheur. What do we talk about when we talk about love – Parlez-moi d’amour –

5. Raimond Chandler: The long good-bye – Sur un air de navaja – Um longo adeus. The man who liked dogs – Un mordu. Nevada Gas – Efacce la rouquine -

6. David Goodis: Down there – Tirez sur le pianiste – Atire no pianista

7. Chester Himes: The five cornered square – La reine des pommes. A jealous man can’t win – Couché dans le pain -

8. William Irish: Waltz into darkness – La siréne du Mississipi – A sereia do Mississipi

9. James Jones: From here to eternity – Tant qu’il y aura des hommes -

10. Bernard Malamud: Rembrandt’s hat – L’homme dans le tiroir -

11. Arthur Miller: The crucible – Les sorcières de Salem – As bruxas de Salem

12. Vladimir Nabokov: Laugther in the dark – Chambre obscure/Rire dans la nuit – Gargalhada no escuro

13. John Updike: Rabbit run – Coeur de lièvre – Coelho corre

14. William Styron: Lie down in darkness – Un lit de ténèbres – Deitada na escuridão

15. Isak Dinesen: Out of Africa – por incrível que pareça ficou Out of África – A fazenda americana

 Por que não traduzem alguns nomes esquisitos de autores, também, né?

Rui Werneck de Capistrano, por exemplo, podia virar Jean-Jacques Pierre, na França.

Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA
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8
 jul
Crônica
Tudo que você queria saber sobre Dorothy Parker

Graças, Senhor, mais uma sexta feira para nos redimir de uma semana de trabalho duro, queda de ministros, alta do etanol e pelo menos uma vitória do Corinthians pra nos alegrar. Dia de crônica do nosso cronista de plantão, Rui Werneck, que nos brinda com uma deliciosa história de um personagem mítico da Nova York do início do século passado.

O começo é o começo/no meio é cada um por si/no fim é tudo a mesma coisa.

Essa música do Alexandre Striq apareceu de repente, quando li o começo da carreira da Dorothy Parker.

Imagine-se em 1915, em Manhattan. Nem é possível. Você nunca pensaria em ruas de terra batida. E eram. Chega isso.

Então, aos fatos.

Uma moça , 22 anos, miúda, bonita e tímida, envia um poema à revista da moda. Uma esperança mínima no coração pequeno — vê-lo publicado. Ela mesma, Dorothy,  na madureza, se definiria assim eu era uma dessas crianças insuportáveis que escrevem versos. A revista era, no mínimo, a mais esnobe dos Estados Unidos e comandada por um cinquentão do mais refinado bom gosto e, apesar da elevada posição, de reconhecida afabilidade — Frank Croninshield.

O poema foi aprovado para publicação na Vanity Fair. Você daria pulos de alegria ao receber uma carta de aprovação. A pequena Dorothy fez mais que isso. Vestiu-se com a maior elegância possível, saiu do seu quarto de pensão na rua 103 e caminhou por sessenta quarteirões para ir à sede da revista. Ela foi cedinho, sem aviso. Mesmo sabendo-se tímida, de tola não tinha nada. Mostrou de leve as garras que a tornariam a maior humorista de todos os tempos dos Estados Unidos (Ruy Castro) e uma poderosa esgrimista das palavras na famosa Távola Redonda do Algonquin. Ali ela trocava farpas com nada menos do que os teatrólogos George S. Kaufman e Robert Sherwood, os colunistas da moda Franklin P. Adams e Heywood Broun,  o comediante Harpo Marx, o editor do The New Yorker Harold Ross, o editor da Vanity Fair Frank Croninshield, o roteirista de Cidadão Kane Herman J. Mankievicz, os fabulosos humoristas Rig Lardner e Robert Benchley, os atores e atrizes Tallulah Bankhead e os Lunts, compositores e cantores Paul Robeson e Noël Coward e o temível crítico Alexander Woolcott.

Ao ser recebida pelo chefão da revista, ela disse que havia ido lá somente para agradecer imediatamente pelo incentivo recebido para seguir a carreira literária — no rastro de George Stein. E, mais do que depressa, ofereceu-se para trabalhar na revista. O chefão, com seu bom coração, disse que ali não dava, mas se ela quisesse podia trabalhar na Vogue — outra revista do grupo. Ela aceitou na hora. Segundo se sabe, a ambição dela era ganhar a vida e divertir-se junto de pessoas cultas. Além de uma entrega total à literatura. O jornalismo seria uma porta.

Uma vez empregada, Dorothy tromba com uma terrível sofisticação e uma pesada sombra do passado. Era obrigada a trabalhar de luvas, chapéu e meias de seda pretas — que custavam uma fortuna e desfiavam à toa — e sapatos fechados. Imagine uma redação cheia de mulheres vestidas assim. A sombra do passado pesava por conta do comportamento e da linguagem das colegas. Elas falavam e escreviam pomposa e empoladamente. Sendo órfã e morando sozinha, Dorothy vinha de outra realidade — a das ruas. E só ler os seus contos. Vogue era dirigida à alta classe — cerca de 400 famílias de Manhattan.

Num zap! Vamos encontrar Dorothy Parker perto dos 40 anos — cheia de desilusões amorosas, com três tentativas de suicídio nas costas (que valeram um chiste de Robert Benchley — “Pare com isso, Dorothy. Suicídios fazem mal à saúde.”) e alcoolismo galopante.  Já tinha na bagagem dois livros de poemas, o prestigioso prêmio O. Henry para o livro de contos Big Loira, um séquito de admiradores em Nova York e o título de roteirista mais bem paga de Hollywood.

Outro zap! Para 1966. Um aceno do ostracismo. O amigo Truman Capote festejava o livro A sangue frio com um baile de máscaras e não a convidou. Ela ficou fula por perder o acontecimento da década.

Outro zap! Para 1967. Aos 74 anos, morre pobre e alcoólatra. Com um telefonema, havia legado toda sua ‘fortuna’ de 20.448,39 dólares para a causa de Martin Luther King, além dos direitos autorais de todos os seus livros. Contrariando sua vontade, Lillian Helmam — viúva de Dashiell Hammett — fez um belo funeral e, ao pé do caixão, antes da cremação, discursou dizendo que Dorothy nunca falava de suas velhas glórias, nunca deplorava suas velhas derrotas, nunca repisava muito tempo o passado. Só que ficou fula da vida quando soube que não herdaria — conforme prometido por Dorothy — os direitos dos livros.

Tudo o que Dorothy doou foi cria, com juros de sofrimento e correção de vida atribulada, dos cinco dólares — uma fortuna para a época  — que recebeu de Vanity Fair por um poema — Any Porch.

Rui Werneck de Capistrano
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1
 jul
Crônica
O sonho da casa própria

Bem-vinda, sexta feira, que traz o fim de semana na sua caçamba, e mais uma crônica-conto-leitura do nosso Rui Werneck de Capistrano, lá do frio de Curitiba. Boa leitura, bom fim de semana.

Etelvino Lima, desocupado e sem-teto, perambulava à noite por uma rua e viu os coladores de cartazes fazendo seu trabalho. Ficou olhando com interesse as partes impressas sendo coladas e um novo produto sendo anunciado. Os homens, com toda prática, seguiram na colagem e nem ligaram pro Etelvino bem ali parado.

Uns quinze minutos depois, o serviço estava pronto. Etelvino foi decifrando a mensagem e entendeu que dizia que ‘agora é fácil realizar o sonho da casa própria’. ‘Fácil, barato e rápido’. A casa anunciada estava impressa e o apelo era forte: ‘MORE AQUI, JÁ!’

Ele ficou matutando e, mal os homens puseram o caminhão em marcha, subiu no outdoor e entrou na casa. Que surpresa! Era espaçosa. Tinha dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Coisas que ele não sabia o que significavam há muito tempo. Desde que perdera o emprego, a mulher e tudo. Vivia na rua. Aquela casa era o máximo. Não tinha mobília, mas ele podia dar um jeito. Nos fundos, um pequeno quintal convidava a estender roupas ao sol. Tinha até um abrigo pra automóvel.

Etelvino sentiu o coração disparar. Finalmente iria sair da rua e fugir das noites frias debaixo das marquises.

Ele abriu as janelas e deixou entrar sol e ar. Nem podia acreditar. Escolheu o quarto maior pra ele e já podia pensar em reconciliação com a mulher. Ela gostaria de morar numa casa cheirando a novo e tão bem localizada. Depois de curtir a nova moradia, pensou que devia sair e procurar alguma coisa pra mobiliar. Deixou no quarto sua mochila, companheira de infortúnios, e saiu. Não esqueceu, é claro, de trancar a porta e as janelas. Os ladrões estão soltos por aí, pensou.

Saiu ligeiro e foi catar no lixo ou nos terrenos baldios algum móvel jogado fora. Achou uma cadeira meio bamba e nada mais. Claro que servia. Aí, logo viu que os coladores estavam trabalhando em outro outdoor. Foi até lá e viu que era de conjunto estofado. Não teve dúvidas, esperou a colagem e tirou um sofá de dois lugares. Era mais fácil de carregar.

Foi indo bem alegre pra sua nova casa, embora o sofá fosse bem pesado. Numa parada pra descansar, viu outros coladores fazendo seu serviço. Era anúncio de sorteio de uma caminhonete superpotente com tanque cheio. Ele não podia ter mais sorte. Esperou a colagem e subiu na caminhonete, levando o sofá.

Chegou em casa, colocou a caminhonete na garagem e o sofá na sala. Estava começando vida nova e cheia das boas coisas do mundo moderno.

Vendo que tudo era tão fácil, saiu pela cidade atrás de novas colagens e foi enchendo a casa. Em uma semana tinha casa bem confortável. Em duas semanas, a casa irradiava felicidade. Até um poodle de nome Doguinho corria pelo quintal, comia ração de qualidade e fazia festa quando ele chegava. Etelvino era todo sorrisos e planos.

Na noite do décimo quarto dia, resolveu ir até a casa da ex-mulher e tentar a reconciliação. Bem vestido, de caminhonete reluzente, lá se foi. Foi bem recebido e convenceu a mulher a, pelo menos, ir ver sua casa.

Quando, porém, dobrou a esquina da casa, teve uma grande surpresa. Os coladores estavam trocando o cartaz. No lugar da casa apareceu o anúncio da clínica de tratamento psicológico Vita Nuova. Etelvino desceu da caminhonete e correu até lá. Na porta da clínica, um médico convidava a entrar. Ele olhou pra sua ex-mulher que, balançando a cabeça, parecia não entender nada e viu que a caminhonete também havia desaparecido. O médico dizia: “Aqui, cuidamos bem de você!”

Rui Werneck de Capistrano
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17
 jun
Crônica
Dicas para enriquecer… ou não.

Mais uma sexta-feira, já estamos no meio do ano, o Werneck escreveu mais uma crônica e o estádio do Corinthians ainda não saiu do papel. Enquanto isto aproveite as dicas de sucesso garimpadas em muitos anos de pesquisa pelo nosso incansável cronista das sextas feiras, Rui Werneck de Capistrano.

Fórmulas de Sucesso nos Negócios

Confesso que sou fascinado por livros de fórmulas de sucesso empresarial. É uma fraqueza? Não sei, pode ser, não ligo. Desde que comecei a trabalhar com propaganda, nos anos 70 do século passado, leio livros sobre esse assunto. O primeiro foi do David Ogilvy, pai norte-americano dos publicitários do mundo. Acho que aprendi muito com ele na maneira redigir anúncios. Depois, passei por vários outros autores. Claro que as fórmulas mágicas causam riso, mas rir é bom. Acontece que a gente tem sempre que redigir defesas de campanhas, relatórios de empresas, discursos de empresários — coisas ligadas às empresas — e até cartão de aniversário da mulher do cliente. Nessas horas, o livro de sucesso nos negócios cai como chuva. Você pinça conceitos, frases, pitadas de sabedoria e recheia seu texto. Dá sensação de consistência e agrada sempre.

Na verdade, é mistério o que faz uma empresa ter sucesso e outra, do mesmo ramo, fracassar. Mistério em termos. Tudo o que é humano não tem mistério. Tem graus de talento, competência, dedicação, vontade, oportunidades, etc. E muita politicagem, falcatruas, corrupção, sacanagens, etc. A mistura de tudo faz a empresa ter sucesso ou fracassar. Nas revistas atuais de negócios, todos os empresários das reportagens são felizes, sagazes, empreendedores e sorridentes. É só ir trabalhar na empresa de um deles e ver o contrário — dinheiristas, oportunistas, egoístas e… As tintas das revistas pintam tudo mais brilhante.

Mas os livros dão dicas gerais. Alguns conceitos servem realmente. E eu guardo pra mim. O mais difícil é fazer com que os outros usem. Você diz a um cliente que o cara escreveu que a gente deve agir assim. Ele olha pra você e, como nunca leu nada, dá de ombros pro conceito. Alguns clientes pedem campanhas publicitárias e, quando você diz pra eles que o negócio deles é que deve mudar, que propaganda não salva, eles franzem o nariz. O famoso conceito — uma ótima campanha mata um produto ruim — entra em cena. Mas, os clientes se acham poderosos. E quebram.

Tem um livro também já do século passado que tem frases ótimas. O título do livro é Como nadar com os tubarões sem ser comido vivo. Só vou dar as frases, sem mais delongas. Conclua como quiser. 1) O mais importante não é o valor da mercadoria, mas quanto a pessoa acha que ela vale. 2) Tome decisões com o coração e acabará com doença cardíaca. 3) Jamais vi currículo ruim. 4) Aborreça-se facilmente. 4) A prática perfeita leva à perfeição. 5) Ter 1% de alguma coisa é melhor do que administrar 100% de nada. 6) Não basta conhecer as pessoas, o importante é saber como conhecê-las. 7) Sorria e diga NÃO até sua língua sangrar. 8) Aquele que queimar suas pontes tem que ser bom nadador. 9) Jamais feche negócio numa sala que tenha candelabro.

É isso. Eu e meus livros de fórmulas de sucesso. Sem sucesso.

Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA
, romancélere de 150 capitulozinhos do capeta.

 

Postado por Lee Swain às 6:02 | 5 comentários
10
 jun
Crônica
Mora na filosofia

Salve, salve, a sexta feira chegou para a felicidade de todos e o bem geral da nação. Relaxem e preparem-se para ouvir umas verdades do nosso cronista Rui Werneck, que vai te fazer pensar sobre filosofia neste final de semana dos namorados. Resista se puder.

FILÓSOFO TURRÃO DESANCA LEITORES E ESCRITORES

“Ele havia passado pelo ginásio e pela universidade, e aprendera mais do que estava no currículo. Experimentou o amor e o mundo, com resultados (negativos, acrescento eu) que afetaram o seu caráter e a sua filosofia. Tornara-se melancólico, cí­nico e desconfiado; era obcecado por temores e pesadelos; mantinha seus cachimbos trancados a sete chaves e jamais confiava seu pescoço à  navalha de um barbeiro; e dormia com pistolas carregadas ao lado da cama. Não suportava barulho. (…) ‘O barulho é uma tortura para todos os intelectuais. (…)A superabundante demonstração de vitalidade que assume a forma de bater, martelar e derrubar coisas de um lado para o outro tem sido o meu tormento a vida toda’.

Tinha um sentido quase paranóico de grandeza não reconhecida; sem conseguir sucesso e fama, voltava-se para dentro e roía a própria alma”. É Will Durant, em A História da Filosofia, falando de Schopenhauer antes de publicar O Mundo como Vontade e Representação (1818). E você aí­ ‘se achando’ e cheio de neura só porque teu time perdeu o campeonato, heim? Imagine-se na pele do filósofo! Aí, em 1851, Arthur Schopenhauer escreveu um livro chamado Parerga und Paraliponema, que pode ser traduzido, mais ou menos, como Acessórios e Remanescentes, segundo Pedro Sussekind.

Naquela época, Schopenhauer era desconhecido como filósofo. Já havia escrito, trinta e três anos antes, o livro que o tornaria famoso, chamado O mundo como vontade e representação. Só que o livro foi praticamente ignorado quando saiu — ele também. Dezoito anos depois ele soube pelo editor que grande parte da edição foi vendida como papel velho. Viveu dando aulas e alimentando seu estilo contundente de atacar os filósofos e literatos que ele achava empolados, prolixos e vazios.

Até que, em 1851, explodiu publicando Acessórios e Remanescentes. Num piscar de olhos, passou a ser conhecido, respeitado e… odiado. Conhecido e respeitado por artistas, escritores e novos filósofos. Odiado pelos filósofos e literatos que atacava com veemência e furor. É impressionante como o livro Acessórios e Remanescentes é atual. A L&PM escolheu capí­tulos dele e publicou em 2006 com o tí­tulo irresistí­vel A arte de escrever. Comprei. Aqui começou meu martírio. Aí, li. E, justamente, ele fala dos prejuízos da leitura excessiva e enfatiza que devemos pensar por nós próprios. “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental…” O que impressiona é que não se pode largar o livro! É irresistí­vel, embora diga que devemos deixar de lado as leituras para viver e pensar, pensar e viver.

Schopenhauer escreve limpo, sem arroubos filosóficos. Talvez tenha sido o primeiro filósofo inteligí­vel. A gente entende o que ele diz, mesmo que não concorde. O problema é que, depois de ler, fiquei chateado. A gente deduz que não se precisaria escrever nada, pois ninguém precisa ler! Se cada um pensasse por si, ninguém teria necessidade de ouvir os outros. Em nenhum momento do livro ele se dá por achado e manda a gente parar de ler seu livro e ir viver. Que coisa engraçada: nem o tradutor e prefaciador falou sobre isso, mas está tudo claro em cada linha que Schopenhauer escreveu.

Já naquele tempo ele chamou nossa atenção para o fato de que preenchemos todo tempo com atividades e ruí­dos: leitura, música, jogos. Não damos espaço de quietude para o próprio pensamento. Enfim, é um livro escrito para quem não lê. Ele chama nossa cabeça de ‘arena de pensamentos alheios’ quando lemos! É demais intrigante! Acho que só um outro livro me deixou assim tão para baixo. Foi um do Marshall McLuhan que fala do fim do livro, porém, escrito um livro e citando centenas de outros! Aliás, Schopenhauer também cita exemplos literários ao mesmo tempo em que dá conselhos sobre como escrever um bom texto! Fiquei uns dois dias sem vontade de nada, depois que li o chamado ‘psicólogo da vontade’. Pode? Era isso, por agora. Por mim, pode ler, sim, esse e outros livros.

Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA


Postado por Lee Swain às 6:04 | 2 comentários
3
 jun
Crônica
O novo Gogol

Sexta feira de novo, God Bless. O tempo passa, e as crônicas do Rui Werneck de Capistrano ficam. Hoje Werneck nos propõe um mergulho profundo nas vastas estepes russas e a silenciosa solidão dos seus personagens. Boa viagem por este planeta branco e desconhecido para nós, pobres ocidentais.

Liérmotov, um dos maiores poetas clássicos, morreu aos 27 anos em um duelo.

Gárchin, mestre do conto curto, suicidou-se aos 33 anos.

Púchkin, o maior poeta russo, duelou e morreu aos 38 anos.

Checov, mestre supremo do conto, se foi pela tuberculose aos 44 anos.

Sempre que penso na Rússia, vejo aquele cocheiro do conto do Checov. Envolto em surrado manto, coberto pela nevasca implacável, ele espera clientes e monologa tristemente — ou fala com seu manso cavalinho — a imobilidade, a neve, o frio, a solidão.

A Rússia são distancias imensas — as vastas estepes. Agora, imagine um escritor desesperado numa noite de insônia, cheio de dúvidas, nervos em frangalhos, com a fome rondando como um cão sem dono. Ele é um tipo de escritor — descrito por ele mesmo — forçado a mostrar o terrível e chocante pântano das coisas triviais, enquanto os leitores roubam dele seu coração e sua alma.

O escritor acorda o criado Iakim, apenas um garoto, e pede que acenda a lareira. Como? Até aquele momento a lareira esteve apagada? E o frio? É fevereiro de 1852, pleno inverno! Não importa. Uma vez aceso o fogo, o escritor fica ainda mais impaciente. As chamas lambem seus nervos e ele pega um folhoso manuscrito — sua obra mais recente — e vai na direção da lareira. O garoto, percebendo o suicídio iminente, tenta segurá-lo. Mas não consegue — é só um garoto contra uma fera enraivecida. As folhas se espalham dentro da lareira e o fogo vai consumindo rapidamente. O garoto ainda quer pegar o que está apenas chamuscado. A ordem é que tudo se queime. O escritor fica contemplando, absorto, as chamas que selam seu definitivo suicídio literário. Quando o espetáculo pirotécnico termina, ele começa a chorar amargamente.

Enquanto isso, seus leitores, em casas mais ou menos aquecidas, sonham felizes com o que seria — se completada em três partes — a Divina Comédia das Estepes.

A segunda parte de Almas mortas está definitivamente destruída. Em 1845, o escritor já havia queimado o primeiro manuscrito da segunda parte. E reescreveu. Agora, o fim.

Esta é a tragédia dos grandes escritores russos. Ela percorre toda a imensidão das estepes — tão imensas como as pálpebras do sombrio Vii — que chegam até o chão e nunca se erguem. O olhar dele também nunca se ergue do chão.

Por isso, à lista lá do começo, acrescento Gogol — morreu de inanição, por jejum autoimposto, aos 43 anos. Nove dias depois da queima do manuscrito.

Quando Dostoiévski lançou seu primeiro livro Pobre gente, em 1846, um poeta o saudou como um novo Gogol.

 

Rui Werneck de Capistrano
é autor de NEM BOBO NEM NADA

Postado por Lee Swain às 6:02 | 2 comentários
27
 mai
Crônica
O que o Werneck tem na cabeça?

Quem sabe dar chapeuzinho na literatura?

Ao amigo Lee Swain e seu chapéu

Nunca fui muito chegado em chapéus e bonés. Nasci numa época em que os homens quase nunca saíam de cabeça descoberta. É só ver as fotos de Curitiba na década de 40 do século passado. Logo, logo essa moda foi passando, bem como a de usar terno em pleno dia, em todas as ocasiões. Hoje só dá boné e jeans. Vida prática e pobre, porém, dá resultado. A literatura não escapou do chapéu nem do boné. O chapéu mais famoso é do da história infantil do Chapeuzinho Vermelho, sem dúvida. Só que o chapéu, na história, é o que menos importa. Temos a menina, a cesta de guloseimas e o lobo mau em primeiro lugar. Depois, o herói — o caçador que abre a barriga do lobo.

Da literatura propriamente dita, tirei três rápidas histórias. São as que me vieram à cabeça sem queimar muitos neurônios. Importante, acho eu, é sentir que a aparição do chapéu ou do boné define a condição do personagem. Não é apenas pra enfeitar. A primeira vem de Madame Bovary, de Gustave Flaubert:

“Mas, fosse porque não tivesse percebido a manobra ou porque não quisesse praticá-la, o novato mantinha seu boné sobre os joelhos quando acabávamos de rezar. Era uma dessas coisas heterogêneas, onde se encontram elementos de boina, do chapska, do chapéu redondo, do boné de caça e do de algodão, era uma dessas pobres coisas cuja muda feiura tem profundezas de expressão como o rosto de um imbecil. Ovóide e armada com barbatanas, começava por três abas circulares, em seguida se alternavam, separados por uma faixa vermelha, losangos de veludo e de pele de coelho. Logo depois vinha uma espécie de saco que terminava num polígono contornado, trabalhosamente costurado e de onde pendia na ponta de um cordão muito fino um bordado a fio de ouro. O boné era novo; a pala brilhava.”

Esse é um parágrafo da segunda página do mais famoso romance francês e já foi discutido por altas autoridades em literatura. Alguns intrépidos tentaram até desenhar um boné com essa descrição. Parece que não foram felizes. O boné é literário. Flaubert dizia que observava, observava e tornava a observar. Depois, torturava-se pra pôr em frases soantes, mesmo distorcendo a realidade. Diz-se que o romance inteiro versa sobre a estupidez humana. E a descrição do boné do Charles Bovary, quando ele entra na escola, mostra a condição de estúpido joão-ninguém do personagem.

O segundo caso é o do chapéu em Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Nas páginas 13 e 14 da última e bela edição de clássicos da Abril, a Raskólnikov, enquanto caminha pelas ruas pra ensaiar seu projeto, acontece isto:

“Contudo, deteve-se, de súbito, e levou, nervosamente, a mão ao chapéu quando um bêbado, que era transportado numa carroça vazia, não se sabe para onde nem para que, puxada por um cavalo de carga, apontou-o com o dedo, gritando-lhe com todos os pulmões: “Eh, você aí, chapeleiro alemão”. O chapéu estava, de fato, levantado, redondo, sovadíssimo; feito em retalhos, esburacado, cheio de manchas, sem aba e todo corcovado. Entretanto, não foi de vergonha, mas de um sentimento próximo do pavor de que se sentiu apoderado naquele instante.

“Eu sabia, resmungava em sua confusão – eu o adivinhava. Pior não podia ser. Uma coisa de nada, uma distração à toa pode estragar todo um projeto; não há dúvida, este chapéu chama a atenção… Faz-se notar, justamente, pelo ridículo… Preciso de um boné para assentar com meus trapos, não importa o que seja, um velho gorro, mas, nunca essa coisa horrorosa. Ninguém se cobre assim, identificam-me a uma versta de distância e jamais esquecerão disso. Sempre se volta a pensar, mais tarde, naquilo que nos chamou a atenção: eis uma pista… Pois então que se trate de passar o mais despercebido possível. Nadas, são esses nadas que interessam.”

O último caso vem do J. D. Salinger, no O apanhador no campo de centeio. Na página 20 da oitava edição em português tem a descrição rápida do chapéu do Holden Caulfield. Esse chapéu vai acompanhá-lo todo o tempo em suas aventuras até que, lá no fim, Holden o dá de presente à sua irmã Phoebe:

“Foi um bocado bom voltar para o quarto depois de sair da casa do velho Spencer, porque todo mundo estava no jogo e, para variar, o sistema de aquecimento estava funcionando em nosso quarto. Tirei o paletó, a gravata, desabotoei o colarinho e pus na cabeça um chapéu que tinha comprado em Nova York, de manhã. Era um desses chapéus de caça, vermelho, com a pala bem comprida. Eu o tinha visto na vitrina de uma loja de artigos esportivos quando saímos do metrô, logo depois que descobri que havia perdido a porcaria dos floretes e tudo. Só custou um dólar. Usava o chapéu com a pala virada para trás — de um jeito meio ridículo, mas era assim mesmo que eu gostava.”

Tiro meu chapéu pra esses chapeuzinhos literários. Se você achar outros, mande pro Lee Swain. Ele é colecionador.

Rui Werneck de Capistrano só dava chapeuzinho nos zagueiros.

Postado por Lee Swain às 6:02 | 5 comentários
20
 mai
Crônica
Só olhando…

Não sei de onde tirei isto: o mundo vai acabar em breve. Existe um meteorito gigante chamado Apolo — Popó para os íntimos — cuja órbita cruza com a da Terra. Nesse bamboleio — que ele e a Terra fazem no vazio do espaço sideral — vai haver o encontro fatal. Com beijos e abraços fulgurantes. A fumaça vai invadir tudo e escurecer o Sol.

Não, obrigado. Estou só olhando.

Aos quarenta do segundo tempo, Copérnico passou por Ptolomeu e foi direto pro gol. Ptolomeu caiu, agitou os braços, mas o árbitro não deu falta. E Copérnico entrou em órbita. Botou o Sol no centro de campo e deu a saída. A Terra recebeu ordens do técnico pra ocupar apenas lugar modesto na zaga.

Não, obrigado. Estou só olhando!

Se formos colocando sal de cozinha num copo d’água, em pouco tempo não será possível dissolver mais sal. A água ficará saturada. Aí, colocando-se um barbante — com nó na extremidade — dentro da solução, logo se formarão cristais no nó.

Não, obrigado. Estou só olhando!

Só pra dizer a você que está com a cabeça nas nuvens — e o corpo flutuando em poeira de estrelas: Podemos proclamar o sistema nicotinocêntrico como o mais provável sucessor do heliocêntrico. Bilhões de partículas nocivas empesteiam — a cada minuto — o ar que respiramos. Não pensava Jean Nicot que seu nome estaria ligado hoje ao mais perigoso veneno. Ele introduziu a nicotina — como suave passatempo — na França em 1559.

Não, obrigado. Estou só olhando!

Pra você que acha que é coisa nova e corajosa se jogar da ponte com elásticos — de alta tecnologia — amarrados nos pés, saiba que os indígenas das ilhas de Pentecostes, no Pacífico Sul, fazem torres de bambu de trinta metros e saltam lá de cima amarrados pelos pés por simples trepadeiras (lianas). Chegam a poucos centímetros do solo — ou, babau!

Não, obrigado. Estou só olhando!

E, depois da queda e do silêncio tenso — estará vivo? Está! — tambores irrompem e bailarinos entram no ritmo frenético. Cânticos elevam-se no meio da selva e tudo vira em um amontoado de braços que giram, olhos brilhantes, bocas contorcendo-se e sons lancinantes. Brilhos e breus. Incandescências e sombras. Gritos e sussurros.

Não, obrigado. Estou só olhando!

Rui Werneck de Capistrano? Não, obrigado. Estou só olhando!

Postado por Lee Swain às 6:02 | 5 comentários
13
 mai
Crônica
O currículo do Werneck

Sexta feira começa com crônica do Rui Werneck de Capistrano, um dos maiores especialistas em currículos em línguas vivas, mortas ou agonizantes. Aprenda aqui como preparar o seu.

 

Mãos ao alto: seu currículo máximo ou a vida!

Fazer amigos e influenciar caracóis. Continuar jovem, em forma, e saudável aos 120 anos. Atingir a plena satisfação pessoal no banheiro e conquistar a confiança do chefe. Anabolizar a conta bancária e ficar mais inteligente por fora. Acumular vitórias e sorrir para a vida. Desafiar o futuro e reforçar a personalidade. Progredir profissionalmente e ter relações amorosas sólidas e duradouras. Competir no mais difícil mercado de trabalho, derrubar os adversários e somar pontos preciosos no currículo. Desenvolver todo o potencial criativo. Obter todos os diplomas com distinção e honra ao mérito. Tornar-se um líder de sucesso. Novos paradigmas — por favor! Globalizar-se, globalizar-se! Money makes de worldly go around!

As tendências estão à solta, os referenciais emergem das catacumbas da sociedade. As técnicas de sobrevivência pululam em abundância e sob o comando de palavras mágicas como coaching, emotional intellect, counselling, mentoring, trainee, self control, brain power, personal training, head hunter, Ph.D.. O círculo de fogo está bem à sua frente. Estalam o chicote e você salta por dentro dele, com terno sob medida, sem se queimar, e recebe as palmas da plateia, da família, dos amigos. You are the champion of the wrong.

Os patamares são desenhados com degraus cada vez mais altos e em perspectivas globais. O ambiente de trabalho tornou-se povoado de espectrais e carnívoras medusas tecnológicas providas de tentáculos monumentais. Os contatos são engendrados em conferências continentais simultâneas e eletronicamente comandadas por sofisticados softwares. The Wall Street Journal, abre as asas sobre nós! Clássicos de autoajuda enfileiram-se nas estantes de aço escovado e humilham os visitantes emocionalmente despreparados. Suportando tudo isso, as academias de musculação observam em cada esquina e promovem a Gestão do Condicionamento Físico Exemplar. Mas, com um sorriso dentifrício no rosto couraçado, você vai à cozinha da empresa e serve-se de um aguado café que a diarista — que saiu de casa às cinco da manhã para não perder a hora — nunca aprendeu a passar. Que merda!

PS. Publique aqui seu currículo por sete dias, gratuitamente. Se ninguém ligar, se mate.

Rui Werneck de Capistrano é consultor de novos paradigmas sociais

Postado por Lee Swain às 9:51 | Nenhum comentário
6
 mai
Crônica
Encontro com Dalton

Sexta feira, dia de crônica fresquinha de Rui Werneck, o cronista oficial do blog do Meu Chapéu. Para ler e sugar.

Eu estava na Biblioteca Pública, absorto, folheando um livro do escritor francês Gérard de Nerval. Uma ideia maluca começou a brincar na minha cabeça. Aquele poeta viajante — cuja vida foi muito atribulada e a morte, trágica — bem que poderia visitar Curitiba e contar pra nós um pouco da sua história amorosa. Como qualquer ideia literária que aparece de repente, também essa ainda não tinha forma definida, nem objetivo concreto. Apenas cintilava na cabeça. Poderia ser um conto, uma novela, uma peça de teatro. Ou apenas um devaneio durante algum tempo e, depois, nada.

Era uma tarde meio fria e o ventilador de teto, bem lá no alto, estava ligado. Procurei uma mesa fora do alcance dele. Mesmo assim, sentia frio. Olhei pros lados pra ver se havia uma mesa mais longe do ventilador. Foi quando vi entrando um senhor, acompanhado de uma estagiária da Biblioteca bem nova. Logo reconheci o Dalton Trevisan. A primeira coisa que fiz foi olhar pros outros frequentadores, claro. Queria ver se mais alguém reconheceria o nosso maior escritor. Apenas um cara, de uma mesa, olhou pra ele. E olhou pra mim, em seguida. Talvez quisesse dizer que ele também reconhecia o escritor. Uma espécie de afinidade literária, sei lá! Aí, eu queria acompanhar a visita dele, mas não podia fazer isso de forma acintosa. O cara da outra mesa poderia achar que eu era um bobo, um tiete deslumbrado. Então, eu olhava primeiro pra esse cara e, se ele não estivesse olhando, olhava pro Dalton. O que me intrigou é que ele parecia um turista de primeira viagem ali. A mocinha servia de guia de estante em estante e ele olhava tudo como se fosse pela primeira vez. Por um momento, vi o escritor de frente e notei que seus olhos eram bem pequenos — e se escondiam bem no fundo dos óculos. Os famosos óculos que já haviam servido pro galã Nelsinho ver e se apaixonar pelas gloriosas bailarinas do Marrocos. Ele caminhava com os braços soltos, duros, ao longo do corpo, como se demonstrasse certo cansaço. E se vestia com roupas simples e os indefectíveis tênis. Por alguns instantes, sumiu com a mocinha nos corredores que eu não podia enxergar dali da mesa. A mocinha parecia saber quem era ele, mas, não sei por que, duvido que tenha lido algum livro dele. Também não sei se ele se apresentou e pediu pra ser levado a um passeio pela Biblioteca. Essa parte fica pra você ajudar a imaginar.

O que o vampiro de Curitiba iria fazer na Biblioteca? Por que precisaria guia? Certa vez o vi no Passeio Público. Estava parado diante do grande viveiro de passarinhos e parecia olhar atentamente as atividades deles lá dentro. Ou será que bisbilhotava os arrulhos e afagos dos namorados nos bancos? — Não tenha medo, anjo. Sente-se mais um pouco. Conversinha não tira pedaço. Eu sei que ele se intitula vampiro de almas — aquele que suga as histórias de dentro delas. — Ainda não, anjo. Quero mais. Só mais um. Mas na Biblioteca só tem almas mortas! — Tudo, meu bem. Faça tudo. E o modo como olhava tudo parecia mesmo que nunca tinha entrado ali. A mocinha o levou por diversas estantes e até apontava as salas e dizia alguma coisa. Acho que ele não falava nada. Ou só resmungava alguma coisa.

Aí, quando saíram daquela sala, me levantei também. Primeiro olhei o cara que o tinha descoberto junto comigo. Não pude deixar de sorrir pra mim mesmo! Ele olhava fixo, mas era pra mocinha — que era bonita — que guiava o Dalton. Só isso! Eu estava salvo! Ninguém mais havia notado a presença do Dalton. Nem outros dois atendentes que cruzaram por eles deram o mínimo sinal de reconhecimento. Pude levantar e ir devagar atrás pra ver o que mais ele iria olhar lá. Havia uma apresentação de tai chi chuan no saguão e pararam pra assistir. Mas aquilo não pareceu interessar ao Dalton. Logo fez menção de ir na direção da porta de saída e a mocinha o acompanhou. Sumiram depois de passar pelo detector eletrônico de possíveis surrupiadores de livros.

Enquanto voltava pro Nerval, me lembrei que o Dalton, agora em 2010, já está com 85 anos. Não seria aquela uma espécie de visita à pirâmide — semelhante à dos faraós — que o imortalizará? Quem sabe? Mesmo que ele diga e repita não me toca essa glória dos fogos de artifício? Heim, anjo?

Rui Werneck de Capistrano é autor de NEM BOBO NEM NADA

 

Postado por Lee Swain às 9:59 | Nenhum comentário
29
 abr
Crônica
Werneck dentro da Baleia

Thanks God, it’s Friday! Dia da crônica do Rui Werneck, que passou rapidamente pra me ver  no Bar do Beto Batata em Curitiba, deixou o seu recado e como um bem-te-vi, bateu asas pra outras bandas. Grande sujeito. Quase dois metros de efervescência intelectual. Me contou que estou em um dos livros que pretende lançar brevemente. Ai, ai ai… olha lá Werneck…

Peripécias de um vendedor de Sebo

Quase impossí­vel não rir ao tentar resumir um livro que, num dos ensaios, nos conta sobre a impossibilidade de se resumir livros. Fique frio. Só faço resumo aqui do que gosto. Logo, Orwell me perdoaria.

Bem, todo mundo conhece George Orwell, de um jeito ou de outro. Se eu citar A revolução dos bichos, metade dos leitores daqui vai bater palmas. Se eu citar 1984 (Ó, grande irmão! Ó, Big Brother!) todo mundo vai bater os pés no chão de contentamento. Mas, Dentro da baleia não é muito conhecido. Não é ficção. Mostra os anos em que o autor ralou pelo mundo. Quase na miséria. Pausa: já notou que quando se fala em autor inglês, ele sempre nos parece bem de vida? Autor inglês sempre tem ar de pessoa sofisticada, que estudou em Oxford, tem tí­tulo de nobreza e só come do bom e do melhor. Para mim, assim é. Só que muitos escritores ingleses viveram de mal a pior e Orwell foi um deles. Foi policial inglês na Birmânia, vendedor de livros em sebo, professor de escola particular, resenhista de livros. Orwell nasceu na Índia, mas era filho de um funcionário público britânico que trabalhava lá. E zanzou pela vida acreditando em duas coisas: literatura e polí­tica. Escreveu, desse modo, ficção e textos que denunciavam crimes, miséria, opressão, etc. Ele viveu intensamente, embora por pouco tempo. Nasceu em 1903 e morreu em 1950, de tuberculose. Se você pensar nisso, vai dar mais valor ainda aos escritos dele.

O livro Dentro da baleia, por exemplo, nos mostra um cara angustiado com as falcatruas gerais do ser humano. Presenciou enforcamento, atropelamento de um elefante por um trem, desmandos do comunismo, horrores da guerra, morte de pobres num sanatório (ele era um dos internos, por desequilíbrio psicológico!) e foi ferido na Guerra Civil espanhola. E, mais do que isso, tinha um apurado gosto literário. Nos ensaios sobre livros ele destaca bons livros ruins — aqueles que sobrevivem apesar de não serem alta literatura (Conan Doyle, por exemplo). Ele descobriu, por assim dizer, um escritor que até hoje tem seus livros reeditados, mas que naquele tempo era considerado pornográfico! Era Henry Miller, que lançou Trópico de Câncer em 1935, e foi tema do ensaio Dentro da baleia, em 1940. O livro foi considerado pornográfico porque Miller empregava palavras ditas impublicáveis, mas que hoje aparecem até em uma música de sucesso — que ganhou até prêmio! Orwell gostou bastante do livro e disse que ele ficaria para a posteridade. Acertou. Henry Miller está presente em várias reedições (em 2011) e pode ser encontrado em qualquer sebo. E é muito bom! Ezra Pound disse enfim um livro impublicável que é legível!

Por falar em sebo, Orwell conta coisas interessantes daquele em que trabalhou. Uma delas é a do cara que lia quatro a cinco novelas policiais por semana. Ele nunca relia. E, quando comprava, sabia pela capa se já tinha lido. Nem prestava atenção no nome do autor ou no título. Só com uma olhadela sabia se tinha ou não lido. E, quanto às resenhas de livros, Orwell dizia que era um trabalho insano — feito por encomenda de editoras a escritores desesperados por dinheiro — e, em essência, uma farsa. Ele diz que a maioria dos livros, nove entre dez casos, devia receber uma frase direta e verdadeira: Este livro não tem mérito.

No caso do Dentro da baleia, juro que tem mérito. Não faço resenha a pedido de ninguém nem por dinheiro! Li, gostei, me entusiasmei com o modo limpo, direto e bonito de escrever do Orwell. É um livro que motiva, anima, inspira. Pronto. É da Companhia das Letras, mas já tem nos sebos. Comprei o meu num deles por R$ 14,00 e está muito bem conservado. Foi lançado no Brasil em 2005. Uma curiosidade: o copyright do livro é espólio de Sonia Brownell Orwell desde 1984.

Rui Werneck de Capistrano se resume a isso. Ou aquilo.

 

 

Postado por Lee Swain às 8:02 | 2 comentários
14
 abr
Crônica
Buda ou Padim Ciço?

A idéia do Meu Chapéu de fundar o novo Estado do Japiauí, formado pela junção do Japão com o Piauí, vem causando diversas reações internacionais. Muitos apoiam a idéia e acham que seria uma grande solução para dois problemas: o desenvolvimento do Piauí de um lado, e uma terra livre de terremotos para o Japão do outro.

Na recente visita da Presidente Dilma ao Oriente, alguns jornalistas levantaram questões importantes como por exemplo, se seriam adotados os “hashis”, os famosos palitinhos japoneses no lugar de garfo e faca. Ou se seria possível fazer um bom sashimi com carne seca. Tudo isto parece ter solução, segundo o Meu Chapéu.

Outra questão mais complexa acabou polarizando as discussões: a questão da fé.  Ambos os povos são muito espiritualizados, cada um com suas crenças. Meu Chapéu sugere que em vez de dividir, a fé dos dois povos se some, e que seja erguido um Panteão a céu aberto, onde seriam erigidos monumentos a Buda, ao Padre Cícero, e a quem mais o Japiauí decidisse dirigir suas preces. A natureza pacífica dos dois povos permitiria uma convivência harmoniosa das diversas crenças, acredita o Meu Chapéu.

Talvez a maior dificuldade mesmo seja saber como inserir o dragão japonês nas festas do bumba-meu-boi.

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Postado por Lee Swain às 9:00 | Nenhum comentário
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