Das quase setecentas fotos que cliquei de São Paulo e foram publicadas no blog do Solda (vide post anterior), Eu e Meu chapéu oferecemos uma pequena parte nesta galeria, como retribuição à cidade que todo dia nos mostra uma nova face para decifrarmos. Lee Swain
Clique na foto para ampliar.
Cresci ouvindo que “São Paulo não pode parar”. Este monstro de cidade que se movimenta como uma centopéia disléxica, tropeçando sobre as próprias pernas, já jogou na lata do lixo incontáveis preciosidades arquitetônicas, que só de pensar dá vontade de chorar. Sempre que dou uma olhada no acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, fico pensando o quanto poderia ser linda esta cidade, e invejo os argentinos, que souberam preservar o centro histórico de sua querida Buenos Aires.
A sofrida São Paulo esconde um outro tipo de beleza em suas entranhas. Uma beleza crua, imediata, urgente, como sexo feito rápidamente mas com muito vigor. Os muros da cidade formam o grande painel por onde corre esta energia criativa que como cogumelos, nasce num dia, morre no outro, e renasce depois de amanhã. No meu caminho para o trabalho passo pelos mesmos muros e testemunho este ciclo incessante de vida e morte diário, escrito por mãos anônimas não sei a que horas, porque nunca vi nenhum deles no seu fazer incansável. Mas estão lá, nascendo e morrendo todo dia, dando a prova definitiva de que realmente São Paulo não pode parar.
Fotos: Lee Swain
Me lembro de ter falado muitas vezes ao Meu Chapéu que podíamos ter inúmeros problemas neste País, mas por outro lado, aqui estávamos a salvo de todas aquelas tragédias que assolavam o mundo. Nada de terremotos, vulcões, furacões, tornados, avalanches, tsunamis e cataclismas em geral. E sempre batia na madeira quando via aquelas reportagens vindas de países distantes, com notícias de milhares de vítimas de trágicos fenômenos naturais. Aqui era o paraíso, onde no máximo se podia tomar um raio na cabeça, mas pra isso o sujeito tinha que ser muito pé frio.
Últimamente Meu Chapéu tem me feito perguntas desconcertantes sobre as calamidades que a TV e os jornais e o rádio e o vizinho e a internet não param de repetir. E eu não sei o que responder, sinceramente. Será que estamos sendo castigados porque deixamos de ser um país só de miseráveis? Seria tudo fruto do aquecimento global, e não teríamos nada a fazer a não ser chorar? É tudo culpa dos canalhas que nos cobram impostos e nem sequer se dão ao trabalho de avisar que o mundo vai desabar sobre nossas cabeças? Como explicar ao Meu Chapéu algo que não consigo entender? Me sinto na lama.
(Águas de Março, de Tom Jobim)
Eu, Maria e Meu Chapéu tivemos uma grata surpresa neste sábado. Indo assistir a um filme no Cine Cultura, demos de cara com uma agitação no Conjunto Nacional que só entendemos depois de alguns minutos. Tratava-se da 3ª Edição do ViraCultura, uma iniciativa da Livraria Cultura, que promete 35 horas ininterruptas de performances, música, cinema, gastronomia e literatura, of course. Uma espécie de mini virada cultural. Vimos um pouco de tudo, de concurso de Cosplay (confesso que não sabíamos do que se tratava), até performances de grafiteiros.

O Conjunto Nacional estava transformado em uma pequena praia, com gente esparramada por cadeirões, várias tribos desfilando seus penteados e tatuagens, um clima de Ipanema em plena Avenida Paulista. Por um instante Meu Chapéu pensou no Complexo do Alemão naquele instante. Mas logo em seguida se distraiu com um volume do re-lançado Catatau, de Paulo Leminski.
Fotos: Lee Swain
Depois de descobrirmos a rua do côco (vide post de ontem), eu e Meu Chapéu passeamos pelas ruas da Zona cerealista, andando à êsmo. O comércio intenso de sábado se reflete nas ruas cheias de lixo.
Da Rua Santa Rosa pode-se avistar o Edifício San Vito, que está sendo demolido na marreta, porque não tem subsolo suficiente para ser implodido. Vai dar lugar a uma garagem subterrânea e um prédio anexo ao Mercado Municipal, onde será instalada uma escola de gastronomia, parte do projeto de revitalização do Parque Dom Pedro promovido pela Prefeitura.
Uma notícia que deixou Meu Chapéu empolgado é que o entulho gerado pelas demolições está sendo reciclado e utilizado na pavimentação de ruas da periferia.
A demolição dos Edifícios San Vito e Mercúrio, que está sendo discutida desde 2005, deverá ser concluída no 1º semestre de 2011. Enquanto isto, vendedores ambulantes fazem a festa no transito arrastado pelas obras em andamento. “Vai um cajuzinho aí, amigo?” Obrigado, moço, estão lindos, mas só gosto da castanha.
É inexplicável o fascínio que Meu Chapéu tem pelo centro velho da cidade. E aqui não se discute qual cidade. Pode ser o centro velho de Barcelona ou de Carapicuíba. Como bom “flaneur”, se diverte como pinto no lixo observando tipos esquisitos, casas velhas, botecos decadentes, conversas inúteis. Por isso levá-lo passear no centro de São Paulo é diversão garantida.
Este último fim-de-semana foi farto. Maria e eu fomos fazer algumas comprinhas no Brás, mais específicamente na Casa Flora, onde me abasteço de bom vinho a ótimos preços. Enquanto Maria fazia a festa nos empórios que vendem grãos e castanhas a granel, Meu Chapéu deu a senha para batermos a região da Rua Santa Rosa.

Não caminhamos nem dois passos, viramos a esquina e pronto: demos de cara com uma praça tomada por caminhões carregados de côcos da Bahia. Gente comprando gente vendendo, e apesar da aparente confusão, tudo super organizado. A cotação do côco estava em R$ 1,20, abaixo do dólar.


Ontem, 19 de outubro, no Sonique Bar, aconteceu o lançamento do projeto multidisciplinar “baixoaugusta: rua polifônica”, iniciativa da Editora Zupi em parceria com um grupo de artistas formado por Andréia Justino, Fernanda Nogarol, Juliana Horie, Kazuo Kajihara, Marco Aurélio e Vitor Milito.

Reconhecendo a Rua Augusta, em São Paulo, como o epicentro cultural de toda uma geração, fotógrafos e designers se uniram para registrar o dia a dia da região. A experiência resultou em um documentário e um site colaborativo que prestam homenagem à boêmia via seus personagens singulares, inferninhos fluorescentes e becos alternativos, além de um livro de fotografia que aguarda verba para ser lançado. Visite a rua, entre no site: www.baixoaugusta.com



Um dos programas preferidos do Meu Chapéu, como os que frequentam este blog já sabem, é flanar pelo centro da cidade. Em um sábado de sol então, caminhar pela 25 de Março é um prato cheio para ele.

Logo de cara topamos com uma barraca especializada em chapéus, com um proprietário falante, o Wilson. Em cinco minutos contou sua vida, e que estava ali há 5 anos depois de tentar vender de quase tudo na vida.

Enquanto isso Meu Chapéu travava conhecimento com vários modelos da barraca, e logo ficou sabendo a quanto estava sendo vendido um Fedora “de 1ª linha”, conforme o sr. Wilson: apenas R$ 15,00. Os de 2ª, um pouco mais acessíveis, estavam na casa dos R$ 5,00.
Em qualquer shopping da cidade,um Fedora não custa menos que R$ 50,00. E sem música ao vivo, como a do violeiro anônimo que se esgoelava em troca de algumas moedas no seu chapéu.

Fotos: Maria Taccari e Lee Swain
Conselho do meu chapéu para sobreviver a esta onda sêca: banhos curtos e não muito quentes, pouco ar condicionado, muita água, soro fisiológico pelas ventas, umas cervejinhas bem geladas e um chapéu de abas bem largas para manter a cabeça fresca.

Com o perdão da rima, mas meu chapéu adora pastel. E pastel bem feito é o que não falta na cidade que ele resolveu adotar. Aqui mesmo em Pinheiros, tem fila pra comer o pastel do japonês (só podia ser) toda quinta feira. O pessoal volta do almoço com aquele cheirinho indisfarçável de frigideira. Prefiro recheio de palmito, mas fiquei dividido depois de provar o pastel recheado de banana na barraca da Maria (foto abaixo) na feira do Pacaembú, eleito o melhor pastel de São Paulo do ano passado.

Falando nisso, a fase de voto popular para escolher o “Melhor Pastel de Feira de São Paulo” acabou semana passada. Nessa etapa, os critérios de avaliação dos consumidores do pastel foram basicamente recheio e massa, além do sabor. Agora é a vez dos especialistas, que também vão levar em conta questões como atendimento e higiene das barracas. Mais de 230 feiras estão no concurso que distribuirá R$ 11 mil em prêmios aos três primeiros colocados. A final da disputa acontecerá na praça Charles Miller, em 23 de agosto próximo. Meu chapéu estará lá para conferir.
Hoje se comemora o feriado que é um verdadeiro congestionamento: começou em 23 de maio e só aconteceu em 9 de julho. Veja a história da data e entenda porque o blog do meu chapéu também é cultura. (fonte: Portal do Governo do Estado de São Paulo)

A Revolução Constitucionalista de 1932 foi um movimento armado que teve seu início em maio, eclodiu em julho e terminou em outubro de 1932, e tinha por objetivo a derrubada do governo do presidente Getúlio Vargas. Ele havia assumido o poder em 1930.
Com um governo provisório, mas de amplos poderes, Vargas fechou o Congresso Nacional, aboliu a Constituição e depôs todos os governadores. Insatisfeita, a população iniciou protestos e manifestações, como a do dia 23 de maio, que terminou num conflito armado. A revolução então acabou eclodindo no dia 9 de julho, sob o comando dos generais Bertolo Klinger e Isidoro Dias.
O levante se estendeu até o dia 2 de outubro de 1932, quando os revolucionários perderam para as tropas do governo. Mais de 35 mil paulistas lutaram contra 100 mil soldados de Getúlio Vargas. Cerca de 890 pessoas morreram nos combates. Getúlio Vargas permaneceu no poder até 1945, mas já em 1934 era promulgada uma nova Constituição dando início a um processo de democratização. Sinal de que o sangue paulista não foi derramado em vão.

Como era dia de feira no Pacaembu, fizemos a sobremesa na barraca da Maria, eleito o melhor pastel da cidade. E que esteve inclusive na Virada Cultural, atendendo a milhares de famintos 24 horas. Milton, o simpático piloto da frigideira, fritou na hora um pastel de doce de leite para a Renatinha, e um de banana pra mim. Juro, nunca comi pastel igual na vida. De tirar o chapéu. Fechamos o almoço com ampla vantagem no placar.

Renata Dietrich, sendo feliz e abusando das calorias.

1. Esta já é a terceira edição da Virada Cultural que eu, Maria e meu chapéu participamos. A primeira, há dois anos, foi bastante tranquila, comparada com as proporções gigantescas que o evento tomou. A do ano passado já foi mais tumultuada, teve uma pane no metrô para complicar, mas dava para circular na maioria dos palcos. Mas a Virada de 2010 superou qualquer expectativa.

2. Começamos a degustar a Virada no Largo do Arouche, onde o grupo liderado por André Abujamra, “Os Desengonçalves” fazia releituras divertidas do repertório de Nelson Gonçalves. O já tradicional palco brega do Largo do Arouche, ainda no começo da noite, estava animado, mas sob contrôle.

3. De lá seguimos a pé para a Pça. Julio Prestes. Aí é que se vê a graça desta Virada Paulista. Caminhamos pelas ruas da Cracolândia à noite, tranquilamente, onde nem de dia se pode circular assim livremente. Pena que é só um dia por ano.

4. Eu, Maria e meu chapéu continuamos nossa peregrinação em direção à Estação Júlio Prestes, onde pegamos uma carona no evento preparado para as “ótoridades” da cidade. Desfrutamos da vista privilegiada do camarote da Sala São Paulo, de onde avistávamos o palco da Praça Júlio Prestes, que fervia com as apresentações de Zélia Duncan e Céu. Dentro, confortavelmente acomodados e bem tratados com acepipes e bebidinhas, observávamos a ignara plebe aplaudindo e urrando bárbaramente a cada final de música. Eletrizante.

Olívia e Raul assistem Zélia Duncan do camarote da Sala São Paulo.
Caco de Paula e seu chapéu entre comes e bebes do evento.

5. A temperatura da Sala São Paulo subiu e movimentou os bocejantes jornalista com a chegada do governador, prefeito e o séquito de políticos e afins. Meu chapéu sentiu ganas de botar o prefeito contra a parede e perguntar o que faltava para São Paulo dar uma Virada definitiva na revitalização do Centro da cidade, e ser um movimento de todos os dias, e não uma festa anual. Mas os seguranças em torno das autoridades não deram a menor chance para um chapéu sem carteirinha de jornalista. Depois do frenesi de flashes e entrevistas, o ambiente voltou à normalidade, e decidimos retornar ao nosso estado de cidadãos comuns e cair na folia da Virada. Mal sabíamos o que nos esperava.

6. Saímos novamente em direção ao Largo do Arouche com nossos amigos Caco de Paula e Gisele Mendes, para assistir ao mítico show de Sidnei Magal. Quase não conseguimos chegar ao nosso destino, tamanha a multidão que encontramos pelo caminho. Posso garantir que eu e meu chapéu nunca tínhamos visto tanta gente junta. Em alguns pontos, era impossível atravessar a rua. Paredes humanas compactas, nem de camburão dava para abrir caminho.

7. Nestas situações, meu chapéu se mantém tranquilo, talvez por enxergar melhor a situação da sua posição privilegiada. Já a Maria, minha companheira de todas as Viradas, entra em pânico com multidões. Depois de alguns intermináveis minutos de sufoco humano, chafurdando em meio a um mar de latinhas, garrafas e outras cositas pegajosas jogadas pelo chão, batemos em retirada e literalmente abandonamos a Virada. Virados do avêsso. Ano que vem acho que vamos mudar nosso programa. Como disse sabiamente o Caco de Paula, “uma sessão de cinema continua sendo o melhor timing do mundo”.

Fotos: Lee Swain e Maria Taccari

Este fim de semana, meu chapéu não sabe como se virar, com tantos eventos rolando ao mesmo tempo na Virada Cultural. Já pensou até em se multiplicar, uma espécie de franchising de chapéus, cada um em um evento. Sonhar não paga imposto. No fim, vamos ter que fazer escolhas, mas não vai ser fácil. Confira a programação no site da Virada, e vá se preparando pra virar a noite.
Flanando pelas ruas de Pinheiros, meu chapéu farejou uma pequena loja sem grandes atrativos aparentes, apenas uma portinha com uma prateleira de livros. Quis entrar. Logo descobrimos uma sala ao fundo, com prateleiras recheadas de Toys de tudo que é tamanho e jeito.


Mais ao lado, uma vitrine com vinis e Cd’s de bandas que nunca vi mais gordas. Uma breve explicação do gerente, e vi que o buraco era mais embaixo. Meu chapéu estava certo. Descobrimos que a lojinha é apenas a ponta do iceberg de uma organização chamada Casa Dissenso.


Por trás daqueles inofensivos toys, um estúdio de gravação profissional, um selo musical especializado em música alternativa, um espaço para shows e eventos e uma Oficina de Artes. Tudo com foco na arte experimental e na música estilo postrock (sabem o que é?). Está certo o meu chapéu quando diz que São Paulo tem espaço para todas as tribos.
DISSENSO
R. dos Pinheiros, 747 – Tel: (11) 2364-7774 – Pinheiros – São Paulo - www.dissenso.com.br

Foto: Lee Swain, às 15:30h de quinta feira
Podem falar o que quiser, mas uma coisa é ver a notícia sentadinho no sofá de casa, tomando uma cervejinha. Outra é estar ali no meio da avenida com a água subindo, raios pipocando na sua cabeça, galhos de árvore se desprendendo à sua frente. Ontem à tarde eu e Cibar voltávamos da Paulista em direção a Pinheiros, e em 5 minutos vimos as ruas se transformarem em rios. No momento da foto estávamos na foz do Rio Estados Unidos com o Rio Augusta. Emoções fortes.