
Já não sei dizer quanto tempo faz, quando comecei a ouvir vozes. Nas primeiras vezes achei que tinha endoidecido de vez. Pensei, se ficar contando isto em público, aí é que me internam de vez. Melhor ficar calado e fazer de conta que não estou ouvindo, daqui a pouco ela vai embora. Inútil. Mais o tempo passava, mais eu ouvia, sempre a mesma voz, num tom que lembrava um sussurro, como o Marlon Brando no Grande Chefão. Parecia adivinhar as coisas que eu estava pensando. Se estava na rua em dúvida entre virar à direita ou à esquerda, ela sussurava: “À esquerda, à esquerda…”
Demorei a descobrir de onde ela vinha. Parecia que era da minha cabeça, só podia ser. Minha mãe sempre disse que quando eu era bebê caí do cadeirão de moleira no chão, deve ter sido isto. Até que um dia, a voz sumiu. Do nada. Pensei, estou livre. Duas semanas depois, recebi a ligação de um taxista muito honesto, que ficou me procurando para devolver um chapéu Panamá que esqueci no seu carro e já havia dado por perdido. Dei uma bela gorjeta para o negrão com cara de frequentador da Igreja dos Últimos Dias, mais pela honestidade que pelo valor do chapéu, já um pouco surrado. No dia seguinte, vesti novamente o velho Panamá para ir trabalhar, e ouvi em claro e bom tom, aquele sussurro familiar: “Sentiu minha falta?”